{"id":9778,"date":"2023-06-08T15:30:36","date_gmt":"2023-06-08T15:30:36","guid":{"rendered":"https:\/\/semfronteiras.eu\/?p=9778"},"modified":"2023-06-08T15:30:39","modified_gmt":"2023-06-08T15:30:39","slug":"vivemos-em-democracia-qual-e-o-nosso-futuro-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/2023\/06\/08\/vivemos-em-democracia-qual-e-o-nosso-futuro-3\/","title":{"rendered":"VIVEMOS EM DEMOCRACIA? QUAL \u00c9 O NOSSO FUTURO?"},"content":{"rendered":"<div class=\"wp-block-post-date\"><time datetime=\"2023-06-08T15:30:36+00:00\">8 de Junho, 2023<\/time><\/div>\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>III \u2013 As poss\u00edveis cat\u00e1strofes ambientais; como p\u00f4r em causa o crescimento econ\u00f3mico<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<div style=\"height:19px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-style-default\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"625\" data-id=\"9779\" src=\"https:\/\/semfronteiras.eu\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/plastic-1024x625.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-9779\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/plastic-1024x625.jpg 1024w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/plastic-300x183.jpg 300w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/plastic-768x469.jpg 768w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/plastic.jpg 1211w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n<\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\">Num dia vendem-se garrafas de pl\u00e1stico no mundo que constituem &#8211; em termos de medida &#8211;  um monte do tamanho de metade da altura Tour Eiffel em Paris <\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:39px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p>Tudo o que foi dito at\u00e9 agora (ver textos anteriores <a href=\"https:\/\/semfronteiras.eu\/index.php\/2023\/05\/25\/vivemos-em-democracia-qual-e-o-nosso-futuro\/\">TEXTO I <\/a>e <a href=\"https:\/\/semfronteiras.eu\/index.php\/2023\/06\/01\/vivemos-em-democracia-qual-e-o-nosso-futuro-2\/\">TEXTO II<\/a>), a ocorrer, ir\u00e1 coincidir com o desenvolvimento j\u00e1 em curso de cat\u00e1strofes ambientais, as quais tender\u00e3o a ter consequ\u00eancias sociais de maior amplitude que as que se t\u00eam verificado mais recentemente (ainda, na sua maioria, de \u00e2mbito sazonal e em n\u00famero limitado). Mas tal sazonalidade poder\u00e1 passar a ser o menor dos problemas se, \u00e0s calamidades como os temporais que afectam gravemente apenas zonas restritas, sucederem outras contrariedades que se estendam no tempo e no n\u00famero de habitantes atingidos. <\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Pesticidas e lixos<\/h2>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Pensemos nos pesticidas \u2013 nos seus efeitos na biodiversidade (atingindo em particular os insectos e a sua influ\u00eancia na poliniza\u00e7\u00e3o) e logo na produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola \u2013 mas tamb\u00e9m nas contamina\u00e7\u00f5es das \u00e1guas subterr\u00e2neas (e ainda nos cursos de \u00e1gua e nos mares). Meditemos ainda a prop\u00f3sito dos efeitos nocivos para a sa\u00fade humana que a crescente dissemina\u00e7\u00e3o de qu\u00edmicos (e n\u00e3o s\u00f3 os resultantes em particular dos pesticidas), de emana\u00e7\u00f5es na atmosfera e nos meios aqu\u00e1ticos das explora\u00e7\u00f5es mineiras e dos meios de transporte. E nas consequ\u00eancias para o ambiente da acumula\u00e7\u00e3o de lixos (pense-se nos pl\u00e1sticos<a id=\"_ftnref1\" href=\"#_ftn1\">[1]<\/a> que invadem tudo, em particular os oceanos). \u00c9 a sa\u00fade \u2013 e n\u00e3o s\u00f3 a dos humanos \u2013 e a alimenta\u00e7\u00e3o que est\u00e3o em causa. Que acontecer\u00e1 ainda com a subida das \u00e1guas do mar, de que j\u00e1 h\u00e1 fortes ind\u00edcios resultantes do descongelamento dos glaciares e dos gelos da Ant\u00e1rtida? Mais migra\u00e7\u00f5es maci\u00e7as?<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Cat\u00e1strofes ambientais e classes mais pobres<\/h2>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>\u00a0\u00c0s crescentes desigualdades sociais j\u00e1 acima referidas ir-se-\u00e3o assim acrescentar as que vir\u00e3o a resultar das cat\u00e1strofes ambientais, as quais atingir\u00e3o sobretudo as classes mais pobres, aquelas a quem t\u00eam vindo a ser prometidos, sobretudo desde o final da segunda guerra mundial, os benef\u00edcios de um \u201cdesenvolvimento infinito\u201d (sendo isso que tem mantido essas classes numa calma que em per\u00edodos anteriores n\u00e3o existia). Ora esse\u00a0\u00a0 desenvolvimento das desigualdades \u2013 incidente sobre os dom\u00ednios mais correntes: a habita\u00e7\u00e3o, a alimenta\u00e7\u00e3o, a educa\u00e7\u00e3o, a sa\u00fade, a mobilidade, o trabalho, as rela\u00e7\u00f5es familiares, a divis\u00e3o dos g\u00e9neros (com os conflitos sociais a incidir cada vez mais sobre as condi\u00e7\u00f5es de habitabilidade) \u2013 n\u00e3o poder\u00e1 deixar de fazer entender a essas classes mais pobres que tal evolu\u00e7\u00e3o resulta de apropria\u00e7\u00f5es privadas excessivas do meio ambiente. E, mantendo a situa\u00e7\u00e3o presente de crescimento anual de cerca de 3%, dentro de 24 anos a produ\u00e7\u00e3o e o consumo ter\u00e3o duplicado. E isso significa que o tema do controlo do crescimento populacional necessita de ser tomado bastante a s\u00e9rio, j\u00e1 que esse crescimento, por si s\u00f3, tende a requerer um excesso de produ\u00e7\u00e3o material ainda mais acentuado. Torna-se necess\u00e1rio renunciar ao crescimento econ\u00f3mico (produtivismo, consumismo), e deixar de acreditar que a tecnologia poder\u00e1 resolver tudo. <\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"has-text-align-center wp-block-heading\"><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0)\" class=\"has-inline-color has-vivid-red-color\">Mas o decrescimento, como implement\u00e1-lo e quais as dificuldades que lhe estar\u00e3o associadas?<\/mark><\/h2>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 que os proponentes do decrescimento n\u00e3o chegam facilmente a acordo sobre as medidas que ser\u00e1 necess\u00e1rio tomar para o fazer avan\u00e7ar e, ao procurar optar por essa via, ser\u00e1 inevit\u00e1vel deparar com uma infinidade de problemas, alguns dos quais j\u00e1 procurei especificar em textos meus anteriores. Procurarei agora dar uma panor\u00e2mica que inclua algumas das dificuldades que seriam encontradas, come\u00e7ando por referir que quando se pensa em estender o decrescimento aos pa\u00edses menos desenvolvidos estar-se-\u00e1 logo a seguir uma via que levar\u00e1 a impedir tais pa\u00edses de virem a atingir n\u00edveis de qualidade de vida que os aproximem dos mais adiantados nessa particularidade. E um coment\u00e1rio adequado a tal perspectiva j\u00e1 foi produzido recentemente por um autor (Vincent Liegey, citado num dos meus textos): <\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"has-text-align-center wp-block-heading\">\u201cSe os Ocidentais n\u00e3o t\u00eam qualquer legitimidade em procurar impor aos outros os condicionamentos em termos de consumismo que come\u00e7am a encarar para eles pr\u00f3prios, eles t\u00eam a dupla obriga\u00e7\u00e3o de reconhecer a sua responsabilidade nas cat\u00e1strofes, tanto as que j\u00e1 estamos a viver como as que h\u00e3o-de vir, e de p\u00f4r um termo \u00e0 explora\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses do Sul\u201d. <\/h3>\n\n\n\n<p>Havendo naturalmente que participar financeiramente na reestrutura\u00e7\u00e3o das economias dos pa\u00edses menos desenvolvidos<a id=\"_ftnref2\" href=\"#_ftn2\">[2]<\/a>, de modo a permitir-lhes aceder \u00e0 referida qualidade de vida sem que a actividade que tenham que desenvolver para tal efeito agrave a situa\u00e7\u00e3o em termos planet\u00e1rios. Al\u00e9m tamb\u00e9m de ser necess\u00e1rio conseguir que tais pa\u00edses (uma boa parte deles \u2013 pense-se nos que se encontram a sul do Sara \u2013 com elevadas taxas de crescimento populacional) adoptem medidas, sobretudo em termos de pol\u00edticas familiares, no sentido de desincentivar a fecundidade.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Reduzir os consumos<\/h2>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>No respeitante a medidas a aplicar nos pa\u00edses ocidentais ou outros mais desenvolvidos afigurar-se-ia indispens\u00e1vel reduzir os consumos para que o esfor\u00e7o produtivo diminua (a\u00ed, a fecundidade j\u00e1 \u00e9 baixa e at\u00e9 h\u00e1 muitas propostas \u2013 n\u00e3o faltando obviamente quem s\u00f3 pense em crescimento econ\u00f3mico, veja-se o caso do governo portugu\u00eas \u2013 para que ela seja incentivada). Para ter uma ideia dos objectivos a fixar para que a produ\u00e7\u00e3o diminua significativamente, refira-se que o conjunto da popula\u00e7\u00e3o mundial emitia em m\u00e9dia, <em>per capita<\/em>, 6,6 toneladas de CO<sub>2<\/sub> em 2019 e que, em Fran\u00e7a, foi definido um objectivo para n\u00e3o ultrapassar a emiss\u00e3o desse g\u00e1s em 2 toneladas em 2050 (o que pode ser tido como um m\u00e1ximo a respeitar para a m\u00e9dia planet\u00e1ria, embora a Fran\u00e7a seja um pa\u00eds onde os consumos s\u00e3o bastante superiores \u00e0 m\u00e9dia mundial). Esse ser\u00e1 um desafio a colocar-se n\u00e3o s\u00f3 aos Estados (muito em particular aos mais desenvolvidos) mas tamb\u00e9m a todos n\u00f3s, de acordo com a quest\u00e3o: <\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"has-text-align-center wp-block-heading\"><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0)\" class=\"has-inline-color has-vivid-red-color\">\u201cEstaremos prontos a modificar profundamente os nossos h\u00e1bitos e a p\u00f4r em causa a maneira como nos deslocamos, como ocupamos os nossos alojamentos, como nos alimentamos?\u201d<\/mark><\/h3>\n\n\n\n<p>Esse desafio tem, contudo, caracter\u00edsticas mais particulares no respeitante aos Estados, j\u00e1 que as transi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias precisam, por um lado, de ser programadas com medidas que permitam introduzir alguma modera\u00e7\u00e3o \u00e0 sobriedade indispens\u00e1vel (ou criar as condi\u00e7\u00f5es para que essa sobriedade seja mais facilmente tolerada, em particular incentivando a evolu\u00e7\u00e3o para as energias renov\u00e1veis e actuando no sentido de contribuir para tornar aceit\u00e1vel psicologicamente a nova situa\u00e7\u00e3o) e, por outro lado, impondo medidas (eventualmente por via da fiscalidade) que conduzam \u00e0 supera\u00e7\u00e3o de situa\u00e7\u00f5es que derivem da n\u00e3o aceita\u00e7\u00e3o da referida sobriedade. Afigura-se que, em primeiro lugar, ser\u00e1 preciso definir, directa ou indirectamente, quais os sectores econ\u00f3micos que prioritariamente deveriam ser objecto de redu\u00e7\u00f5es significativas de produ\u00e7\u00e3o, entre os quais aparecem como mais indicados os que est\u00e3o associados aos consumos e investimentos das classes mais elevadas de rendimento, a come\u00e7ar naturalmente pelos 1% mais ricos (os que mais contribuem para as agress\u00f5es ao meio ambiente). Assim, sabendo-se que em m\u00e9dia, neste nosso planeta, cada um dos habitantes (em m\u00e9dia, <em>per capita<\/em>) desse estrato populacional emite 110 toneladas de CO<sub>2 <\/sub>(tenha-se presente a m\u00e9dia de 6,6 toneladas para o todo mundial), a redu\u00e7\u00e3o dos respectivos consumos e investimentos dificilmente poder\u00e1 ser atingida sem medidas aplicadas pelos Estados que conduzam a uma forte diminui\u00e7\u00e3o dos correspondentes rendimentos. Ser\u00e1 assim necess\u00e1rio regressar \u00e0 forte progressividade \u2013 ou mesmo aument\u00e1-la \u2013 que j\u00e1 caracterizou d\u00e9cadas passadas. E, em fases seguintes, ter-se-ia que passar aos 9% (estrato respons\u00e1vel por cerca de 30% das emiss\u00f5es de CO<sub>2<\/sub>) que seguem os referidos 1%, a seguir, por exemplo, aos 40% da popula\u00e7\u00e3o que se seguem aos 10% mais ricos. E n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ignorar que as consequ\u00eancias destas evolu\u00e7\u00f5es n\u00e3o deixariam de atingir os 50% dos mais baixos escal\u00f5es de rendimento, dada a crise que inevitavelmente atingiria sectores dependentes do turismo, da constru\u00e7\u00e3o de imobili\u00e1rio de alta qualidade e, em geral, de consumos ligados \u00e0s classes mais abastadas. A que se seguiriam despedimentos, redu\u00e7\u00f5es de sal\u00e1rios e outros desfechos que ser\u00e3o dif\u00edceis de precisar.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">As iniciativas teriam que assumir contornos mundiais <\/h2>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Tomando consci\u00eancia de todas estas consequ\u00eancias, come\u00e7ar-se-\u00e1 a perceber porque \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 governo que ouse tomar medidas verdadeiramente capazes de pelo menos p\u00f4r em causa o crescimento econ\u00f3mico? E perceber tamb\u00e9m porque \u00e9 que na comunica\u00e7\u00e3o social deste nosso planeta n\u00e3o surgem an\u00e1lises que considerem com profundidade o que nos espera? Ser\u00e1 que, falhando as esperan\u00e7as que se v\u00e3o colocando no desenvolvimento tecnol\u00f3gico e nas promessas de redu\u00e7\u00e3o na utiliza\u00e7\u00e3o de combust\u00edveis f\u00f3sseis, as emiss\u00f5es de GEE (gases com efeitos de estufa) v\u00e3o levar a muito mais caos na \u00e1rea clim\u00e1tica (a que se acrescentar\u00e3o ainda os problemas como o da subida dos oceanos e da incapacidade de as florestas actuarem como \u00e9 necess\u00e1rio)? Claro que as quest\u00f5es de viabilidade relativas \u00e0 cria\u00e7\u00e3o das medidas referidas, muito em particular as de natureza fiscal, existem e imp\u00f5em-se com clareza. Dever-se-\u00e1 estar consciente que n\u00e3o seriam suficientes, nem conceb\u00edveis como justas e eficazes, iniciativas isoladas de um ou outro Estado no sentido de come\u00e7ar a promover tais medidas isoladamente. As iniciativas teriam que assumir contornos mundiais e conduzir a processos que passassem no m\u00ednimo por acordos do tipo dos existentes nas actuais COPs, e que fossem coordenados pela ONU e garantidos pela aplica\u00e7\u00e3o de penaliza\u00e7\u00f5es a aplicar aos n\u00e3o cumpridores.<\/p>\n\n\n\n<p>Lisboa, 31 de Maio de 2023<\/p>\n\n\n\n<p>Filipe do Carmo<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> Tenha-se presente que a irrup\u00e7\u00e3o dos pl\u00e1sticos na vida quotidiana \u00e9 relativamente recente. Recordo-me que, nos anos 50 do s\u00e9culo passado, as compras para consumo domicili\u00e1rio eram feitas em mercearias, nas padarias, no mercado, \u2026, e que os compradores levavam, para a grande maioria das aquisi\u00e7\u00f5es, sacos em pano (ou garrafas, para vinho e leite) para transportar o que compravam. A grande surpresa que tive relativa a pl\u00e1sticos ocorreu em 1968, quando chegado \u00e0 B\u00e9lgica, me deparei com a exist\u00eancia de supermercados. A\u00ed, que me lembre, j\u00e1 n\u00e3o era necess\u00e1rio levar sacos, os produtos adquiridos vinham embalados em pl\u00e1sticos, se bem que n\u00e3o tenha presente a intensidade de tal irrup\u00e7\u00e3o. E, nos anos 80, quando estive em Macau, lembro-me de (confirmando a ainda novidade que era o pl\u00e1stico) ver um guia para turistas (publicado em l\u00edngua inglesa) que visitavam a China, apresentando na capa uma fotografia com baldes, etc., de pl\u00e1stico, cujo t\u00edtulo era \u201cA Tourist Paradise\u201d. Agora, \u00e9 f\u00e1cil para todos n\u00f3s perceber o que se passa: os supermercados n\u00e3o conseguem (e pelos vistos n\u00e3o querem) passar sem pl\u00e1stico, o qual \u00e9 usado para tudo. \u00c9 inconceb\u00edvel para tais supermercados prescindir do pl\u00e1stico. Como reorganizar as actuais sociedades sem pl\u00e1stico? Regressar a solu\u00e7\u00f5es pr\u00f3ximas das dos anos 50, com mercearias, etc., mesmo que modernizadas? Mas a maioria dos consumidores j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 dispon\u00edvel, como acontecia ent\u00e3o, para fazer compras isoladas, levando o recipiente adequado em cada caso. As \u201cdonas de casa\u201d com mercearia quase \u00e0 porta, ou abastecidas por exemplo pelos vendedores de leite que lhes batiam \u00e0 porta, j\u00e1 s\u00e3o muito raras. A generalidade dos compradores tem os seus empregos e desloca-se a correr, de autom\u00f3vel e uma vez por semana, ao supermercado e volta para casa com 4 (ou mais) grandes sacos de pl\u00e1stico (e dentro de cada um h\u00e1 uma imensidade de pl\u00e1sticos mais pequenos, cada um com o seu produto diferente). Havendo ainda a precisar que parte consider\u00e1vel daquilo que os supermercados adquirem aos seus fornecedores, j\u00e1 vem embalado em pl\u00e1stico. Para prescindir dos pl\u00e1sticos em tal \u00e1rea (h\u00e1, claro, outras utiliza\u00e7\u00f5es de pl\u00e1stico sem ser as originadas pelas compras nos supermercados) as altera\u00e7\u00f5es a fazer ao quotidiano teriam que ser imensas e p\u00f4r profundamente em causa a organiza\u00e7\u00e3o mercantil e dos domic\u00edlios.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\" id=\"_ftn2\">[2]<\/a> Tal participa\u00e7\u00e3o financeira afigura-se, inevitavelmente, problem\u00e1tica: al\u00e9m da falta de vontade, por parte dos pa\u00edses mais abastados, em contribuir, haver\u00e1 sempre o problema de as transfer\u00eancias de meios financeiros poderem ser a\u00e7ambarcadas, pelo menos parcialmente, pelos detentores do poder pol\u00edtico e econ\u00f3mico. Refira-se por outro lado que a \u201cajuda\u201d (como muitas vezes \u00e9 designada a participa\u00e7\u00e3o financeira) ser de facto quase sempre a concess\u00e3o de empr\u00e9stimos, geralmente regulada pelo FMI e pelo Banco Mundial, a taxas de juro elevadas, o que tem acabado por conduzir a acumula\u00e7\u00e3o de d\u00edvidas cujas amortiza\u00e7\u00f5es se revelam insustent\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:40px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-full is-resized is-style-default\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/semfronteiras.eu\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/filipe1-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-9780\" width=\"251\" height=\"227\" srcset=\"https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/filipe1-1.jpg 407w, https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/filipe1-1-300x271.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 251px) 100vw, 251px\" \/><figcaption><strong>Filipe do Carmo<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Editado SF &#8211; subt\u00edtulos e ilustra\u00e7\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>III \u2013 As poss\u00edveis cat\u00e1strofes ambientais; como p\u00f4r em causa o crescimento econ\u00f3mico Num dia&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":9779,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":true,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[238,99],"tags":[333],"featured_image_urls":{"full":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/plastic.jpg",1211,739,false],"thumbnail":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/plastic-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/plastic-300x183.jpg",300,183,true],"medium_large":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/plastic-768x469.jpg",640,391,true],"large":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/plastic-1024x625.jpg",640,391,true],"1536x1536":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/plastic.jpg",1211,739,false],"2048x2048":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/plastic.jpg",1211,739,false],"covernews-slider-full":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/plastic-1115x715.jpg",1115,715,true],"covernews-slider-center":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/plastic-800x500.jpg",800,500,true],"covernews-featured":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/plastic-1024x625.jpg",1024,625,true],"covernews-medium":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/plastic-540x340.jpg",540,340,true],"covernews-medium-square":["https:\/\/nsf.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/plastic-400x250.jpg",400,250,true]},"author_info":{"info":["Carlos Ribeiro"]},"category_info":"<a href=\"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/category\/destaque\/\" rel=\"category tag\">DESTAQUE<\/a> <a href=\"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/category\/opiniao\/\" rel=\"category tag\">OPINI\u00c3O<\/a>","tag_info":"OPINI\u00c3O","comment_count":"0","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9778"}],"collection":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9778"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9778\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9781,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9778\/revisions\/9781"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9779"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9778"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9778"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/nsf.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9778"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}