30 anos a explorar os mais pobres
São os mais pobres quem contribui para os 4,1 milhões de euros gastos por dia em raspadinhas
José Carlos Mota fala-nos a partir da sua própria experiência no seu bairro. A reflexão que nos propõe sobre as raspadinhas remete-nos para as situações de pobreza e para o sentido ético das instituições que promovem estas armadilhas. O quadro que JCM nos apresenta põe ainda a nu um largo setor da sociedade que é explorado e que se coloca numa posição de sujeição, no caso face ao dinheiro e à fortuna…e sendo assim também se posicionará de forma idêntica face às questões de cidadania e de dignidade social. NSF – CVR Editor
Por José Carlos Mota
O vício da raspadinha afeta mais de “100 mil adultos em Portugal, 30 mil deles de forma patológica”. Encontro muitos destes casos no café de bairro que frequento em Aveiro. Entram cedo (às vezes, antes das oito da manhã) e pedem uma, duas, três raspadinhas. Cada uma com um nome diferente, exótico e apelativo: Mina de Ouro, Duende da Fortuna, Tesouros a Vapor. Enfeitiçados pela promessa de riqueza, gastam pequenas fortunas nesta ilusão.
Um estudo revela que “são os mais pobres (com rendimentos abaixo do salário mínimo), os mais velhos (com mais de 51 anos), os que têm pior saúde mental (ansiedade, raiva, depressão) e mais as mulheres do que os homens quem contribui para os 4,1 milhões de euros gastos por dia em raspadinhas”. Chocante: os mais pobres dos pobres perdem quatro milhões por dia, mais de 1,2 mil milhões por ano. “Um terço deles fá-lo sem controlo, por doença.”
A Santa Casa da Misericórdia de Lisboa reconheceu o problema e lançou, há algum tempo, uma campanha “durante três semanas, nos media, redes sociais, perfis de influencers, cartazes de rua e nos cinco mil postos de venda nacionais, para ensinar a importância de saber quando parar”.
Não sei como se ensina alguém doente e consumidor compulsivo “a importância de saber quando parar”. Talvez com outra forma de misericórdia, uma que vá para além da “compaixão solícita pela desgraça alheia” e que ative e apoie uma verdadeira e eficaz rede social.
Há semanas, encontrei numa revista um anúncio: “Quer ser mediador de jogos Santa Casa?” E pensei: finalmente, encontraram um mecanismo para ajudar a combater o vício. Não. Era apenas o nome dado ao vendedor de jogo. Que santa casa!

José Carlos Mota – Professor e Investigador
[Universidade de Aveiro]
Foto de destaque ponto de venda de Jogos Sociais – Barrancos
Café Carlos/Florbela