A derrota da esperança
Quando Otelo de Abril foi transformado no Otelo do “outubro vermelho”

Por Carlos Valentim Ribeiro
Relembrando o início da Campanha Eleitoral para Presidência da República e o Movimento dos GDUP [12 de junho 1976]
E se a vontade de mudança, de sonho e de utopia existente na altura não tivesse sido canalizada para um modelo dramaticamente condenado pela história e pela filosofia política da transformação social que recusa a entrega do destino de um povo a uma lógica religiosa determinada pela existência de um partido-guia, de um partido-luz, de um partido de vanguarda?
Um partido de vanguarda esclarecido por obra e graça do Espírito Santo que só consegue impor a sua governação através de uma ditadura, de sistemas de coletivização facilitadores do domínio de comissários políticos e de terror com a eliminação de quem diverge e tem outras opiniões.
Outro PREC teria sido possível se as ideias que atravessaram esse período tivessem tido a mesma originalidade que teve a Revolução de Abril, a Revolução dos Cravos contra a ditadura e pelo menos pelos 3D.
Não estivemos à altura dos desafios de um novo ciclo político-histórico e acabámos por encerrar aquele que foi aberto pela Revolução de Outubro em 1917.
Mas a imitação inconsciente e por vezes delirante de soluções obsoletas e sem qualquer potencial transformador conduziu a esperança para um beco sem saída.
Não vale a pena agora chorar sobre o leite derramado, mas quem ofereceu aos portugueses combativos e desejosos de um mundo melhor imitações fracas de ditaduras como as da União Soviética marcada pelo terror estalinista, a da China com milhões de mortos na Revolução Cultural e da albanesa com domínio de um clã de nacionalistas que matava os seus opositores fingindo ser a favor da emancipação global, devia assumir a sua quota parte na DERROTA DA ESPERANÇA.
Não é fácil repensar esse tempo sem colocar a questão “Mas o que poderia ter sido diferente?”, a interrogação é essencial. Mas talvez a primeira resposta deva ser: Tudo menos o que foi. Devíamos ter dito como o poeta José Régio Não sei para onde vou, Não sei para onde vou —Sei que não vou por aí!
Fotos – origem vídeo da RTP




