21 de Junho, 2026

Trump debandou, esqueceu os seus objectivos, ignorou o aliado israelita e assinou um acordo concedendo ao Irão direitos e condições que este não possuía nem exigia antes do conflito.

Francisco Melro

 [19 de Junho de 2026]

Just for fun, disse o basófias, quando anunciou a excursão de fim de semana em que iria obliterar o programa nuclear do Irão, derrubar o regime dos aiatolas e colocar no poder um aiatola pau-mandado à sua escolha, replicando a façanha venezuelana. Os seus serviços de informação informaram-no de que não havia risco nuclear e os especialistas diplomáticos e militares tinham-no avisado de que o Irão não era a Venezuela e poderia ripostar e armar sarilho. O Irão ripostou mesmo.

E agora, passados três meses, Trump debandou, esqueceu os seus objectivos, ignorou o aliado israelita e assinou um acordo concedendo ao Irão direitos e condições que este não possuía nem exigia antes do conflito.

O sucesso da guerra dependeria do seu carácter fulminador relâmpago e da capacidade de poupar as populações e a economia dos países árabes. O arrastar da guerra produziu o inverso.

O controle sobre as fontes energéticas regionais e sobre as rotas estratégicas que a atravessam, tal como a localização estratégica como base militar para a defesa da sua posição mundial, constituem o fundamento do empenho estratégico americano na península arábica e do apoio ao seu aliado israelita, procurando anular o principal inimigo regional desta estratégia, o Irão, aliado da Rússia e da China, e reverter a crescente influência chinesa na região.

Novo sistema internacional de pagamentos

O revés estratégico de Trump foi já explorado pelos chineses, através do anúncio de constituição de um novo sistema internacional de pagamentos sediado em Hong Kong e apoiado pelas potências árabes. A plataforma terá a adesão dos bancos centrais da China continental, Hong Kong, Tailândia, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita, funcionando com base em moedas digitais dos bancos centrais aderentes, reforçando o uso do yuan e oferecendo uma alternativa aos sistemas dominados pelo dólar. Será muito mais barato e muito mais eficiente do que a plataforma Swift. Reforçará o lugar da China na ordem monetária global e apoiará a internacionalização do yuan, a posição da China no comércio internacional e a sua integração financeira com outros parceiros.

O sistema Swift está sediado na Bélgica e rege-se pela legislação da União Europeia. Permite o congelamento de activos e sanções geopolíticas severas sobre os adversários, isolando países do sistema financeiro global, bloqueando transações internacionais e reservas detidas no estrangeiro. A utilização do dólar pelo sistema financeiro mundial tem permitido aos Estados Unidos financiar sem custos os seus défices, público e externos, através da simples emissão de moeda. Estas capacidades serão agora afectadas, dado o papel da economia chinesa nas trocas e nos investimentos mundiais. O clima desestabilizador internacional desencadeado pela política externa agressiva e isolacionista de Trump e pela agressão de Putin à Ucrânia foi adubando o terreno para a emergência do sistema de pagamentos alternativo que já vinha sendo desenhado pelos chineses, antevendo-se a adesão futura de um número crescente de países.

As parcerias da China com os países do Golfo

A convergência entre árabes e chineses não constitui novidade, sendo um dos fundamentos do conflito no Golfo. A China vai buscar petróleo ao Irão, mas investiu também capital e conhecimento técnico em projetos de energia renovável e de dessalinização de água nos países do Golfo, casos da Arábia Saudita e dos Emiratos, constituindo com eles parcerias para investimentos em projectos similares em países vizinhos, criando interdependências estratégicas, expandindo mercados e influência, enquanto os estados árabes diversificavam os investimentos e as suas fontes energéticas.

A China possui adicionalmente uma base militar à entrada do Mar Vermelho, no estreito Bab el Mandeb, no Djibouti, vizinho da Somalilândia, região separatista da Somália onde Israel estará a instalar uma base militar.

A China já realizou nesta zona exercícios militares conjuntos com o Egipto. Do outro lado do estreito, fica o Iemen dos Houtis.

A crescente importância estratégica dos desafios no Médio Oriente levou Trump a transferir em 2020 as operações dos Estados Unidos relacionadas com Israel do Comando Europeu para o Comando Central, que abrange o Médio Oriente, impulsionando a aproximação de Israel aos regimes árabes e uma rápida integração das capacidades militares dos EUA e de Israel. Decorrida mais de meia década de colaboração e de algumas acções militares coordenadas, e já de novo com Trump, os exércitos dos EUA e de Israel efetuaram em Fevereiro de 2026 o seu ataque conjunto ao Irão.

Esta convergência de interesses e actuações entre americanos, israelitas e regimes árabes, selada politicamente através dos Acordos de Abraão, receberam a oposição de grupos palestinianos islâmicos radicais, que desencadearam os massacres de populações judaicas em Outubro de 2023 que serviram de pretexto para o contra-ataque israelita contra as populações palestinianas de Gaza e da Cisjordânia.

O Estado de Israel possui uma economia tecnologicamente avançada, mas insuficiente para financiar as necessidades do Estado, nomeadamente as militares, empenhado em afirmar-se como potência regional.

A ajuda militar americana é essencial, com fluxos anuais de quase 4 mil milhões de dólares, reforçada significativamente após outubro de 2023, com 14 mil milhões de dólares em apoios de emergência em 2024.

Sob o guarda-chuva proporcionado, elementos radicais israelitas apologistas do Grande Israel, foram impulsionado ataques, massacres e destruição contra as populações palestinianas e contra países vizinhos, com incursões na Síria e no Líbano, visando anexações territoriais. Esta agenda expansionista judaica mantém-se inalterada depois do recente acordo entre Estados Unidos e Irão.

O conflito evidenciou as fragilidades do poderio económico-militar dos Estados Unidos. Ficou à vista a sua incapacidade de sustentar uma campanha militar prolongada contra uma média potência, as limitações dos seus stocks de defesa, a incapacidade de proteger as suas bases regionais e os seus aliados árabes e mesmo de conter o expansionismo israelita, comprometendo todo o laborioso trabalho que vinha desenvolvendo na criação de um bloco regional pró-americano integrando Israel e regimes árabes. Alguns aliados árabes parecem estar a virar costas a esta associação e até disponíveis para pagarem em troco de paz aos iranianos para poderem regressar aos seus negócios.

Os conflitos e os negócios

Apesar do revés estratégico para os Estados Unidos, o conflito não deixou deproporcionar excelentes oportunidades de negócio aos produtores americanos de energia, cujas capacidades de produção explodiram com o fracking e com o confisco do petróleo venezuelano.

Trump tem procurado, à sua maneira, reverter o declínio da hegemonia americana. Instituiua lei do mais forte, num Mundo dividido em zonas de influência, assumindo-se como dono e predador hegemónico do Hemisfério Ocidental. Ignora as Nações Unidas, corta nas comparticipações e apoios externos, desrespeita os acordos internacionais, ameaça e ataca países vizinhos e aliados, incluindo os da Nato. Odeia especialmente a União Europeia, o seu ambiente de Liberdade e o seu Estado Social, estimulando, tal como Putin, a sua dissolução pelos grupos nacionalistas de extrema-direita. Usa as taxas sobre as importações para proteger a produção interna e atrair investidores. Empenha-se no controle americano sobre as fontes de matérias-primas, atacando, para o efeito, a Venezuela, sequestrando o seu presidente e apoderando-se dos recursos deste país.

Mantendo uma forte aposta na indústria, a China estruturou uma economia progressivamente desenvolvida, tecnologicamente avançada e competitiva e internamente auto-suficiente, apostada na penetração e conquista de novos mercados, com os quais vai estrategicamente estabelecendo uma rede de ligações, apoiada por investimentos externos progressivamente significativos.

A estratégia da China

A estratégia industrial da China visa alcançar a liderança na tecnologia global. O seu investimento na investigação e no desenvolvimento das novas tecnologias, robótica, semicondutores, computação quântica, na IA, na electrificação da economia e nas fontes de renováveis, a generalização da aplicação destes avanços ao conjunto da sua economia e o acesso e controle das fontes de matérias-primas, são elementos essenciais nessa estratégia. A sua hegemonia no controle das reservas de terras raras constitui uma arma especial no confronto estratégico em curso. Contudo, estas ambições de Xi Jiping à liderança mundial constituem uma ameaça à democracia e aos direitos humanos no Mundo.

Dentro dos Estados Unidos, Trump despreza direitos humanos, persegue opositores e a imprensa livre, aterroriza imigrantes, ignora as leis, as instituições e os procedimentos democráticos, impõe obediência ideológica às instituições estatais, judiciais, meios de comunicação e universidades, enquanto vai edificando um sistema servil e um ambiente social manipulado, apoiado por multimilionários, nomeadamente da energia e das novas tecnologias, que vão beneficiando de protecção, concessões e encomendas do Estado.

Entretanto, a família Trump e aliados íntimos vão igualmente enriquecendo, atropelando todas as regras morais e de decência.

A União Europeia e o futuro

A União Europeia necessita reforçar, em torno dos seus valores, a sua integração, autonomia e capacidades, incluindo militares, para reverter e dissuadir os ataques de que é alvo, reindustrializando e diversificando as dependências energéticas e comerciais, investindo na investigação, desenvolvimento tecnológico e energias renováveis, em ambiente de competição pacífica e cooperação com todos os países do Mundo, incluindo com a China, no âmbito das Nações Unidas.

 O ambiente de liberdade e solidariedade reforçará a posição da União Europeia no Mundo e constituirá uma arma competitiva especial para atrair talento e impulsionar a investigação. Sobreviver a Trump, será uma etapa intermédia essencial nesta empreitada da União Europeia.

Editado NSF – Subtítulos e destaques.

Imagem de destaque Le Monde Diplomatique | Diogo Pimentão. Ballistic (action). 2026. Cortesia para o Diplo da Galeria Presença © Carlos Campos.

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