16 de Abril, 2026
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Olhemos para a Economia

Por Francisco Melro

O Chega perdeu as eleições nas 3 freguesias do centro de Lisboa mais marcadas pela presença de comunidades asiáticas e pelos protestos da extrema-direita contra a imigração, onde não foi além de 15%. Mas ganhou em Marvila, também em Lisboa, o que deu origem a uma mensagem, amplamente divulgada, sugerindo que a percepção distorcida da realidade criada pelas redes sociais justificava grande parte dos sucessos do Ventura. Mas parece que não, a coisa não se justifica sobretudo por aí, embora esses altifalantes contribuam.

As redes sociais e o debate sobre a insegurança não justificam, só por si, os insucessos da Esquerda e do conjunto das forças democráticas. A realidade é mais complexa. Nas freguesias do centro de Lisboa, onde as redes sociais estão também muito presentes, as votações no Chega ficaram aquém dos 15%, predominantemente, próximas de 10%. Mas a votação do Chega em Lisboa aumenta à medida que se caminha para as freguesias das periferias da cidade e para os concelhos da Grande Lisboa, para as zonas menos ricas, para as historicamente mais de Esquerda. E o fenómeno vai em crescendo quando marchamos para o Sul do País, onde o Chega aparece como a força mais votada ou a disputar a liderança. Ganhou em Vila Franca, tal como em Setúbal, no Seixal, mas também em Beja e até em Baleizão e no distrito de Faro, para choque de toda a Esquerda.

Os inquéritos de opinião efectuados pelas empresas de sondagens tinham concluído que as opções políticas dos mais jovens privilegiariam o Chega, a Iniciativa Liberal e o Livre, em prejuízo dos restantes partidos, especialmente os da Esquerda. Concluem também que os jovens mais instruídos se dividem entre a Iniciativa Liberal e o Livre, enquanto os menos instruídos optam pelo Chega. Olhando para os resultados das eleições por freguesias, deduz-se que os que optam pelo Chega também habitam nas zonas menos favorecidas.

Parece que de repente, no espaço de uma década, Portugal se tornou inseguro e racista, em sintonia com o discurso do Chega, sobretudo na população mais jovem que habita nas zonas menos favorecidas. Olhemos para o que se passou na última década e esqueçamos, por favor e pelo menos para este efeito, as conversas sobre o Sócrates, a troika, o Passos Coelho e o Costa. Olhemos para a economia.

No final de 2024, o número de estrangeiros a trabalhar em Portugal atingiu 650 mil, passando a representar 17% dos trabalhadores por conta de outrem, segundo cálculos do Banco de Portugal, com base nos microdados das declarações à Segurança Social. Os novos empregos criados durante o ano de 2024 foram quase exclusivamente ocupados por trabalhadores imigrantes, especialmente brasileiros e indianos, 35,5% e 12,1% do total, respectivamente, aumentando 22,9% contra 0,2% de empregos nacionais, tendo estes novos empregos sido ocupados por trabalhadores com menos de 35 anos.

O peso dos trabalhadores imigrantes é especialmente relevante nalgumas actividades, em torno de 30% no alojamento e restauração, nas atividades administrativas e na construção e mais de 40% na Agricultura e Pescas. Em conjunto com a Indústria Transformadora, estes sectores acolheram 84% dos trabalhadores imigrantes entrados entre 2014 e 2023. Em 2024 representaram mais.

Há concelhos do País que se destacam pela presença relativa destes trabalhadores. Representam quase 80% do total em Odemira e mais de 30% em vários concelhos do Algarve, do Alentejo, do Ribatejo e até de Lisboa e mais de 20% em vários concelhos dos distritos de Lisboa, Algarve, Alentejo e Setúbal, ou seja, nas zonas do País mais proletárias onde a Esquerda era historicamente maioritária.

A comunidade brasileira predomina entre os imigrantes representando mais de 40% do total. Esse predomínio é visível na generalidade dos sectores. Exceptuam-se a Agricultura e Pescas, onde predominam os trabalhadores asiáticos. No entanto, é sobretudo contra os asiáticos e contra a comunidade cigana que o Chega incide as suas campanhas. A cor da pele, a religião e a maior fragilidade destes trabalhadores e destas comunidades, mais do que outras razões, parecem justificar esta sanha.

A recuperação económica de Portugal da última década foi impulsionada pelo Turismo que arrastou outros sectores, predominantemente de fraco valor acrescentado com utilização de mão de obra intensiva de baixo custo.

Na verdade, entre 2014 e 2024, o emprego por conta de outrem cresceu 39,2%, graças às contribuições determinantes dos sectores da Agricultura, do Turismo, Restauração, Construção e Actividades Administrativas, tendo em conta as declarações à Segurança Social.

A fragilidade nacional dos sectores económicos de maior valor acrescentado e a consequente escassez de empregos qualificados empurraram para a emigração fornadas anuais de novos jovens licenciados que nem no sector público encontraram oportunidades, dadas as necessidades de controle das contas públicas.

Os trabalhadores portugueses que ficaram passaram a enfrentar as consequências de uma oferta acrescida de mão de obra no mercado nacional, sobretudo nas camadas mais jovens. Esta oferta abundante de mão de obra, predominantemente mais barata e desprotegida, beneficiou transversalmente a competitividade dos negócios de mão de obra intensiva e baixo valor acrescentado. Mas passou também a pressionar as condições laborais dos trabalhadores nacionais dos restantes sectores, frequentemente com contratos precários e baixos salários, habitualmente estagnados, sem progressão na carreira, com perda de direitos e regalias, potencialmente descartáveis. Este ambiente atingiu não só trabalhadores menos qualificados, mas igualmente outros mais qualificados e experientes das grandes empresas que começaram a retalhar os seus processos produtivos, adjudicando a terceiros parte das suas actividades, de montagem, reparações, distribuição, assistência técnica a clientes, atendimento, angariação de clientes e outras. As empresas adjudicantes passaram a contratar trabalhadores com vínculos ainda mais precários e salários mais baixos. Os callcenters são o exemplo mais típico, mas quando alguém nos bate à porta ao serviço das empresas do comércio e da distribuição, da distribuição da água, da electricidade ou do gás, já todos sabemos que se trata deste tipo de empresas. Mas também há os trabalhadores ao serviço de empresas de plataformas digitais, tipo Uber e Glovo.

Por sua vez, o controle das contas públicas fragilizou adicionalmente a capacidade de fornecimento de serviços públicos, em quantidade e qualidade, com destaque para a Saúde, a Justiça, a Educação e a Segurança, sendo o sector público frequentemente marcado por fenómenos de descontentamento, desmotivação, protesto e paralisação, penalizando especialmente as populações mais idosas, menores rendimentos e das zonas isoladas do interior.

O aumento da população teve como consequência uma enorme pressão sobre o mercado da habitação, sobretudo nas zonas de maior actividade turística, com destaques para Lisboa e Algarve. Os preços de venda e de arrendamento de alojamentos dispararam, atingindo níveis incomportáveis para os baixos rendimentos de grande parte dos trabalhadores. A remuneração bruta média mensal em Março de 2025 ficava abaixo dos 2 mil euros na generalidade dos sectores de actividade e era próxima de 1.000 euros nos sectores que têm vindo a criar o grosso dos empregos, sendo que estas remunerações médias eram ainda mais baixas quando destinadas a trabalhadores imigrantes.

Devido à pressão da procura de habitação de novos residentes e de serviços turísticos, os novos contratos de arrendamento subiram cerca de 50% entre o 1º trimestre de 2020 e o final de 2024 no conjunto do País. Esta subida foi superior em municípios em torno de Lisboa, em especial municípios de Loures, Sintra, Setúbal e Seixal, onde se aproximou dos 60%.

Pelas mesmas razões, os preços de venda dos alojamentos dispararam a partir de 2016, acelerando esta tendência durante os dois últimos anos.

Esta dinâmica económica irá prosseguir, antevendo-se o agravamento dos seus efeitos no tecido social. Os empresários dos sectores que lideram o crescimento já pediram mais 100 mil trabalhadores imigrantes. Em contrapartida, não surgem iniciativas de investimento empresarial com características inovadoras e com capacidade para criar valor acrescentado significativo e para gerar um número relevante de empregos bem remunerados capazes de corresponder aos anseios dos trabalhadores.

Por sua vez, o Estado está com dificuldades para encontrar solução para os problemas no mercado da Habitação e para acudir às necessidades de uma população envelhecida de baixos rendimentos e muitas vezes isolada, que se sente abandonada e vulnerável, e à pressão das populações que exigem mais e melhores prestações de serviço bem como às exigências dos seus servidores que querem melhores condições, incluindo financeiras. Os investimentos associados ao PRR serão insuficientes para acudir a todos estes clamores. A situação poder-se-á agravar, caso venha a eclodir uma crise económica internacional provocada pelas políticas delirantes e irresponsáveis do novo inquilino da Casa Branca e/ou pelo agravamento das guerras em curso.

O Chega irá cavalgar o descontentamento resultante destes impactos. É para estas tendências que os partidos democráticos têm de se preparar. Vai dar para todos.

Por agora, atingem sobretudo domínios da Esquerda. Há uma massa de trabalhadores jovens de baixos rendimentos, grupo social que historicamente suportava a Esquerda, que passou a apoiar o Chega. Vive em desesperança, está contra o “sistema”, contra a sua incapacidade de corresponder aos seus anseios, englobando toda a Esquerda no sistema, insensível e desculpando até toda a campanha de ataques à democracia, mentiras, patranhas e falsas promessas por parte do Chega.

Mas isto também vai sobrar para a AD, também faz parte do sistema democrático, desenhando-se uma tendência similar à registada nos Estados Unidos e em diversos países da Europa, onde a direita radical, anti-imigração e anti-democrática, tem vindo a ganhar enorme apoio em diversas camadas da juventude menos favorecidas, acantonando progressivamente as forças democráticas. A AD ainda conseguiu, por agora, conter prejuízos nas suas hostes e até ganhar alguns apoios adicionais, atendendo reivindicações dos agentes do Estado, incluindo remuneratórias, e aumentando as reformas. Mas como a economia não tende a proporcionar grandes folgas orçamentais, este caminho será cada vez mais difícil de trilhar. E vem aí o impacto das despesas acrescidas com a Defesa.

Francisco Melro | Economista

Foto © CVR-NSF

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