Uma data histórica, mas que não é fundacional
Manuela Magno, candidata à presidência da República, pronuncia-se sobre o 25 de Novembro
25 DE NOVEMBRO – O que há ainda para contar [3]
O “25 de Novembro” só pôde existir porque antes houve o “25 de Abril de 1974”. Essa é a data fundadora da nossa democracia — e a única que deve ser celebrada como tal: o fim de um regime autocrático, de partido único, com censura, polícia política e ausência de liberdades fundamentais. O 25 de Abril trouxe o voto livre e universal, a liberdade de expressão, o fim da guerra colonial e a abertura de Portugal à Europa e ao mundo.
O 25 de Novembro de 1975 marcou o desfecho de uma crise interna nas Forças Armadas e o fim do Processo Revolucionário em Curso (PREC). A intervenção liderada pelo então Tenente-Coronel Ramalho Eanes travou a deriva de radicalização e permitiu a consolidação da democracia representativa, evitando um cenário de conflito civil.
Foi um momento decisivo da transição democrática, que estabilizou o país e abriu caminho à aprovação da Constituição.
Mas o seu significado não deve ser confundido com o do 25 de Abril. O 25 de Novembro é uma data histórica — e deve ser reconhecida como tal —, mas não é uma data fundacional. O que há a celebrar, acima de tudo, é o regime de liberdade que nasceu em Abril e que o 25 de Novembro ajudou a consolidar, não a substituir.
Importa, no entanto, afirmar com clareza: nem o 25 de Abril é “da esquerda”, nem o 25 de Novembro é “da direita”. Ambas as datas pertencem a todos os portugueses. A democracia não é património de uma corrente ideológica — é um espaço plural onde diferentes visões do país podem coexistir, competir e conviver em liberdade.
O 25 de Abril abriu esse caminho; o 25 de Novembro garantiu que ele não se perderia.
Vejo com reserva a tentativa de atribuir ao 25 de Novembro o estatuto simbólico que pertence ao 25 de Abril. Recorde-se, aliás, que figuras centrais do MFA, como o Coronel Vasco Lourenço, têm manifestado publicamente essa mesma discordância, recusando participar em comemorações oficiais que procuram, de forma implícita, reescrever a hierarquia histórica entre as duas datas. A tentativa de colocar uma data contra a outra é, aliás, um sintoma da polarização que urge combater, porque a democracia vive do diálogo, não da divisão.
A democracia portuguesa deve a sua existência ao 25 de Abril — e a sua estabilidade ao 25 de Novembro. Ambas as datas são de todos nós, porque ambas serviram a liberdade.