Isto não é a América
AGIR – Nas ruas, na denúncia e no voto
Um bom exemplo de cidadania, que temos obrigação de replicar em situações idênticas. NÃO somos os EUA!Recusamos o racismo, em especial quando conduzido pelas forças da “ordem”, do facebook de Victor Louro
Denúncia e alerta da autoria de Sofia de Magalhães Costa. Original AQUI.
Somos a muralha d’aço… Ou nem por isso?
Hoje, nas minhas idas e vindas, deparei-me com uma das situações mais asquerosas que testemunhei nos últimos tempos.
No Cais do Sodré, cerca de 40 a 50 polícias, ou talvez mais, aguardavam a chegada de um comboio. Estranhei. Abrandei o passo para perceber o que se passava, já com a certeza de que nada de bom poderia ser.
Parei antes das cancelas. À minha frente, uma linha de polícias perfilados. Em grupos de quatro ou cinco, iam retirando pessoas da multidão, cercando-as e iniciando a “acção”.
O que tinham todos em comum? Adivinhem.
Nenhum era branco.
Homens negros e indo-asiáticos.
Dirigi-me ao polícia mais próximo, por acaso, alguém que já tinha visto em manifestações, e perguntei o que se estava a passar. Sem lhe conceder a importância que não tinha, perguntei quem era o responsável, quem comandava aquela operação.
Porque há sempre um comando. Gaguejou e acabou por apontar para o chefe.
Carregada de sacos, guarda-chuva e indignação, fui directa ao responsável.
— Você é o chefe desta acção? O que é isto? Aqui ainda não é a América. Estão a fazer um controlo racista? É só para pretos?
Claramente apanhado de surpresa, tentou negar em poucas palavras, dizendo que não era exclusivo a pessoas negras.
Apontei para os três grupos de polícias que cercavam três homens africanos e, um a um, indiquei-os com o dedo:
— Não é? Então por que razão são três homens negros, quando o comboio onde eu vim estava cheio maioritariamente de pessoas brancas?
Continuei, sem baixar o tom:
— Isto não é a América. Vocês não são o ICE. Isto é proibido em Portugal. O fascismo acabou em 1974.
Voltou a dizer que não era essa a intenção. Respondi-lhe que era. Que era tão evidente que eu precisei de 30 segundos para perceber o que ali estava a acontecer.
Tinha outro comboio para apanhar, mas fiquei mais uns minutos a observar. Passageiros iam passando pelas cancelas. Dois polícias colocaram-se ao meu lado. Perguntei se os estava a incomodar, disse que podia recuar um passo, mas que não sairia dali. Não responderam.
Entretanto, dois homens indo-asiáticos aproximaram-se e foram imediatamente barrados por um grupo de polícias. Chamei novamente o chefe, apontei para a cena e repeti:
— Isto não é a América.
Estava num estado de raiva difícil de conter. Não podia permanecer ali muito mais tempo. Pedi às pessoas amigas que ali se dirigissem, que vissem o que se estava a passar, que tirassem fotografias, eu própria me tinha esquecido de o fazer, absorvida pela confrontação.
Desci em direcção ao metro. Ao virar a curva, deparei-me com mais uns 20 polícias. Passei as cancelas com a angústia no limite. Voltei atrás e tirei a fotografia, porque percebi que o método era exactamente o mesmo.
Não me digam que isto é igual a outras coisas.
Não é. A distância entre um Estado de direito e um Estado policial constrói-se assim: passo a passo, corpo a corpo, normalizando o inaceitável.
Estas práticas têm de ser combatidas de forma firme. Temos de cerrar fileiras.
Infelizmente, fui a única a reagir. Ou, pelo menos, a única a não fingir que não estava a ver.
E isto acontece num momento em que se disputam eleições que podem dar força ao fascismo ou isolá-lo, derrotá-lo e envergonhá-lo.
Depende de todos nós. De todos.
Não me venham com desculpas. Abram os olhos. Ou desliguem a televisão e o telemóvel e olhem para o que se passa à vossa volta.
Celebramos, hoje, a libertação do campo de concentração de Auschwitz. Não como ritual vazio, mas como aviso histórico. Auschwitz não começou com câmaras de gás. Começou com desumanização, com excepções legais, com corpos escolhidos, com o silêncio cúmplice de quem achou que não era com eles.
O fascismo não surge de repente. Instala-se.
E só vence quando não encontra resistência.
“Somos a vanguarda do povo.”
Sejamos, então.
Sejamos a muralha de aço contra o fascismo.
Nas ruas, na denúncia e no voto.
Foto © Sofia Magalhães Costa