Porque é que o ocidente quis destruir a Venezuela?
Petróleo, Império e uma Campanha de Vinte Anos
Colaboração de João Rodrigues
Um documentário com uma leitura sobre os acontecimentos atuais que remete para um histórico de relações no qual o petróleo venezuelano é central.
Introdução: o fim anunciado
O documentário abre com um cenário dramático: a detenção de Nicolás Maduro a 3 de janeiro de 2026, no contexto de uma invasão militar norte-americana em Caracas. O autor assume tratar-se de um acontecimento chocante, mas argumenta que não é inesperado. Pelo contrário, seria o culminar lógico de uma campanha prolongada de desestabilização política, económica e diplomática conduzida pelos Estados Unidos e aliados ao longo de mais de duas décadas. A narrativa recua no tempo para explicar como um país com as maiores reservas de petróleo do mundo se tornou um “Estado pária” sitiado.
A maldição do ouro negro
A primeira grande tese do documentário assenta na chamada “Maldição do Ouro Negro”. Desde a Segunda Guerra Mundial, o petróleo venezuelano desempenhou um papel estratégico central, abastecendo os Aliados e integrando a Venezuela no núcleo energético do sistema ocidental. Segundo o documentário, este papel veio acompanhado de uma relação estruturalmente desigual: empresas estrangeiras asseguraram lucros extraordinários enquanto o país permaneceu dependente da exportação de crude.
A riqueza petrolífera não trouxe soberania, mas vulnerabilidade. O controlo externo dos fluxos energéticos, aliado à dependência fiscal do petróleo, criou as condições para interferência política recorrente. Esta leitura segue de perto obras como A Blessing and a Curse, de Matt Wilde, que enquadra o petróleo simultaneamente como motor de desenvolvimento e fonte de instabilidade.
Hugo Chávez e o “pecado original” de 2002
A eleição de Hugo Chávez em 1998 marca uma rutura. Chávez propôs recuperar o controlo soberano dos recursos naturais, reformar a PDVSA e redirecionar a renda petrolífera para políticas sociais. O documentário identifica aqui o “pecado original”: o golpe de Estado de abril de 2002.
Embora breve e fracassado, o golpe é apresentado como um ponto de não retorno. Para os autores citados, revelou a disposição dos EUA e das elites locais em remover um governo eleito quando este ameaçava interesses estratégicos. A partir desse momento, a mudança de regime deixaria de ser episódica para se tornar estrutural.
Da oposição espontânea à dissidência fabricada
Após 2002, as táticas evoluem. O documentário descreve o financiamento de ONG, meios de comunicação e programas de formação política através da USAID e entidades associadas. Surgem os chamados “student labs”: incubadoras de ativismo juvenil treinadas em técnicas de protesto, comunicação digital e mobilização de massas.
A tese não é que toda a oposição fosse artificial, mas que descontentamentos reais foram amplificados, organizados e instrumentalizados. O objetivo, segundo o documentário, era criar uma aparência de colapso interno contínuo que legitimasse sanções e isolamento externo.
O cerco medieval: sanções como arma central
A partir de 2014, as sanções económicas tornam-se o eixo central da estratégia. O documentário descreve este período como um “cerco medieval”: restrições financeiras, bloqueio de importações essenciais, congelamento de ativos e exclusão do sistema financeiro internacional.
A narrativa sustenta que estas medidas tiveram impacto direto na escassez de alimentos, medicamentos e peças industriais, agravando a crise económica. A interpretação apresentada é clara: o sofrimento civil não seria um efeito colateral, mas um instrumento deliberado de pressão política.
O presidente sombra: Juan Guaidó
Em 2019, surge a figura de Juan Guaidó, reconhecido por Washington e aliados como “presidente interino”. O documentário trata este episódio como um experimento jurídico e político sem precedentes: um governo paralelo sem controlo territorial, mas com acesso a ativos externos do Estado venezuelano.
O fracasso do projeto Guaidó é interpretado como prova dos limites da engenharia política externa. Apesar do apoio internacional, não conseguiu mobilizar as Forças Armadas nem garantir legitimidade interna duradoura.
Guerra híbrida: ciberataques e sabotagem
O documentário dedica atenção especial aos apagões elétricos massivos, apresentados como resultado de guerra cibernética e sabotagem de infraestruturas críticas. Embora reconheça a ausência de provas públicas conclusivas, a narrativa enquadra estes eventos num padrão mais amplo de guerra híbrida, combinando sanções, operações psicológicas e ataques digitais.
Citgo, ouro e a batalha pelos ativos
Dois casos simbolizam, para o documentário, a dimensão material do conflito. O primeiro é a disputa pela Citgo, filial da PDVSA nos EUA, cujos ativos foram transferidos para o controlo do governo paralelo. O segundo envolve o ouro venezuelano retido no Bank of England.
Ambos são apresentados como precedentes perigosos: a expropriação de ativos soberanos sob justificação política, enfraquecendo normas básicas do direito internacional.
Operações falhadas e desgaste imperial
Tentativas mais diretas, como a Operação Gideon — uma incursão armada mal sucedida — reforçam a narrativa de improvisação e desespero estratégico. O documentário argumenta que, à medida que as táticas indiretas falharam, o custo político do impasse aumentou, empurrando os EUA para opções cada vez mais explícitas.
A alternativa multipolar
Face ao cerco, a Venezuela procurou apoio em potências não ocidentais, integrando-se numa lógica multipolar emergente. Rússia, China e outros atores surgem como linhas de crédito, cooperação energética e escudo diplomático. Para o documentário, este movimento explica parte da urgência ocidental: a Venezuela como símbolo de resistência à hegemonia unipolar.
Conclusão: o regresso da Doutrina Monroe
O documentário encerra com uma leitura clara: a invasão de 2026 não é uma anomalia, mas a reativação explícita da Doutrina Monroe no século XXI. A “campanha de vinte anos” falhou em provocar colapso interno suficiente; a intervenção direta surge como último recurso.
A implicação central é inquietante: se a Venezuela pôde ser tratada desta forma, o precedente estende-se a qualquer país que combine recursos estratégicos, políticas soberanas e alinhamento fora da órbita ocidental. O documentário não exige concordância, mas convida à reflexão crítica sobre poder, petróleo e os limites reais da ordem internacional baseada em regras.