Enquanto ainda há férias no Dubai
Basta ver quem são os companheiros de Trump nesta aventura para concluir que a sua cruzada nada tem a ver com Direitos Humanos nem com a Liberdade

Francisco Melro
A facilidade com que um protesto de pequenos comerciantes de Teerão se transformou num enorme levantamento popular, a barbaridade da repressão que este enfrentou e o subsequente restabelecimento da “ordem” evidenciaram, há poucos meses, o enorme descontentamento existente no Irão, a natureza sanguinária dos seus dirigentes e o sacrifício humano exigível para o derrube do regime ditatorial, retrógrado e corrupto vigente nesse País.
Para que uma sublevação popular prevaleça é indispensável não só que “os de baixo já não queiram” mas também “que os de cima já não possam” viver como dantes. E até agora, os de cima, no Irão, ainda têm conseguido demonstrar força interna suficiente para impor, aos de baixo, a sua lei e a sua ordem.
Assistimos com entusiasmo em 1979 ao levantamento popular que derrubou a ditadura sanguinária do Xá e ansiámos pela instauração de um regime assente na liberdade e no progresso. Mas, rapidamente, nos desenganámos quando os aiatolas capturaram a direcção do movimento, reprimiram ferozmente todas as manifestações progressistas e instauraram, em nome de Alá, o regime ditatorial, retrógrado e corrupto que tem persistido até aos nossos dias.
Todos aspiramos a que este regime colapse com a máxima urgência, mas já vivemos o tempo e as experiências suficientes para sabermos que a sobrevivência da democracia e dos direitos humanos exige, em qualquer país, o suporte de raízes e troncos próprios suficientemente robustos, capazes de prevalecer sobre ventos adversos, não sobrevivendo quando decorre apenas de enxertos externos artificiais.
As frequentes vagas de contestação interna foram enfraquecendo o regime iraniano e contribuindo para o seu isolamento internacional, nomeadamente junto dos que defendem os ideais de Liberdade, Igualdade e Progresso. O regime iraniano tem também sido bastante afectado pelo enfraquecimento dos seus aliados tradicionais, nomeadamente, pelas derrotas sofridas pelo seu aliado sírio e pelo enfraquecimento dos seus movimentos aliados na Palestina, no Líbano e no Iémen, bem como pela fragilidade de Putin, atolado na invasão da Ucrânia. Em contrapartida, as recentes investidas de Trump na região fortaleceram enormemente Israel e a Arábia Saudita, eternos rivais do regime iraniano, criando um cordão de isolamento regional do Irão subordinado a Trump.
Este enfraquecimento do regime iraniano animou os apetites guerreiros de Trump e Netanyahu, os quais, após uma primeira investida guerreira no Verão do ano passado, entenderam, estimulados pelo príncipe herdeiro saudita, estarem agora criadas as condições para uma aventura militar mais audaz, elevando a fasquia dos seus objectivos para o derrube do regime iraniano. De caminho, desviaram as atenções dos enormes sarilhos que criaram e em que estão enterrados e pelos quais temem vir a ser responsabilizados, incluindo a violação do direito internacional e os crimes contra a Humanidade em Gaza e na Cisjordânia, para além das acusações internas de corrupção.
À medida que ia preparando e posicionando o seu arsenal bélico, esta coligação de interesses e vontades anti-iraniana foi entretendo o Mundo com uma palhaçada de pretensas negociações destinadas a resolver as discórdias por via pacífica.
Trump tem outros interesses estratégicos nesta aventura, na disputa entre Estados Unidos e a China, através do controle de fontes de matérias-primas energéticas essenciais, mas também interesses bem mais privados, fortalecendo a sua posição perante os príncipes e sheiks árabes, com os quais tem negócios pessoais, ao lado de familiares e amigos, entre os quais, os que o têm representado nas negociações nesta área do globo, numa total promiscuidade entre negócios de Estado e pessoais.
Basta ver quem são os companheiros de Trump nesta aventura para concluir que a sua cruzada nada tem a ver com Direitos Humanos nem com a Liberdade. Por isso mesmo, não procurou obter qualquer apoio prévio das Nações Unidas ou do seu Conselho de Segurança, que, de resto, menospreza e ridiculariza, nomeando a Madame Trump para presidir, em nome dos Estados Unidos, a uma sua sessão, e criando um Clube de amigos, com joia de entrada de mil milhões de dólares, presidido vitaliciamente pelo próprio, alternativo às Nações Unidas na gestão dos conflitos.
Chegados aqui, será muito difícil para o regime iraniano suportar militarmente este embate, mas será igualmente problemático para os seus agressores imporem um poder alternativo. Mesmo que muito enfraquecido, o que restar do regime iraniano poderá manter poder militar ainda poderoso e difícil de superar por um levantamento popular desarmado e Trump não se atreverá a colocar soldados americanos em solo iraniano, depois das desventuras desastrosas nas áreas vizinhas do Iraque e do Afeganistão. Só com um eventual colapso do regime, acompanhado pela mudança de campo de uma parte significativa das suas forças militares, poderia vir a criar-se um ambiente propício a uma ruptura, mas até agora, não tem havido sinais deste tipo de deserções. Aguardemos!
Por sua vez, a saída através de negociações, acompanhadas pela solução venezuelana de imposição de um “pau mandado” de Trump, poderá estar vedada. O regime dos aiatolas não é o regime de Maduro. Pela sua natureza, o regime iraniano nunca se deverá render e subordinar, tal como Trump e Netanyahu pretendem, ao “Grande Satã”, e estes precisam desta rendição para justificarem internamente a aventura militar.
O Mundo já estava metido num monte sarilhos e muito mais desordem irá resultar desta aventura guerreira, em mortes, destruição, fome, insegurança, campos de refugiados, novos conflitos, vagas de terrorismo e de emigração. E, mais uma vez, vai sobrar para a Europa. Entretanto, morre-se e sofre-se em Gaza e noutras partes do Mundo.
A Europa e Putin estão a ser dois grandes derrotados. A Europa, sem poder militar e sem a correspondente alternativa estratégica, está a ser progressivamente enredada nas aventuras de Trump e Netanyahu, sacrificando a defesa de valores, do Direito Internacional e do papel das Nações Unidas. Por sua vez, Putin assiste, impotente, ao sacrifício de mais um dos seus principais aliados, depois de já ter perdido a Síria e a Venezuela. Trata-se de outra factura que terá de suportar pelo seu atolamento estratégico na Ucrânia.
A China também assiste, tendo interesses muito próprios no desenrolar dos acontecimentos. Poderá perder a curto prazo, dadas as perturbações esperadas no acesso a fontes energéticas e na economia internacional, mas poderá ganhar estrategicamente. A “lei do mais forte”, seguida por Trump, favorece as ambições estratégicas da China, enquanto potência em ascensão, e as aventuras e as investidas de Trump quer contra os seus aliados quer contra outras economias, bem como a desordem decorrente, têm incentivado a aproximação da generalidade destes países com a China.