4 de Junho, 2026

Guerra contra o Irão condena capitalismo financeiro a crise sem saída 

Economista relaciona guerra, petróleo, juros e explosão da dívida a um impasse estrutural do capitalismo financeiro, incapaz de escapar de uma nova espiral de colapso global 

Michael Hudson, Observatório da Crise – Minnesota

 3 de junho de 2026 

Fonte: Diálogos do Sul Global – Tradução: Isabelle Paiva 

  • A crise financeira mundial de 2026 
  • Elevar os juros para frear o emprego e manter os salários baixos 
  • Os governos reduzem as taxas de juros principalmente para aumentar os preços da riqueza financeira alavancada pela dívida 
  • O aumento das taxas de juros é uma solução insustentável para a iminente depressão atual 
  • Como o Ocidente deveria reagir a um problema desse tipo se vivêssemos em um mundo ideal? 
  • A guerra que saiu do controle: Irã e a reconfiguração dos equilíbrios de poder globais 
  • Perspectivas para as economias dos Estados Unidos e estrangeiras diante da crise do petróleo 

A crise financeira mundial de 2026 

Trump ameaça intensificar sua guerra contra o Irã, e esse país está disposto a destruir a capacidade de produção e transporte de petróleo dos países árabes da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) que não atuarem para deter o ataque estadunidense. O resultado será agravar a depressão mundial que já está em curso. 

No entanto, o mercado de ações continuou subindo, assim como as taxas de juros. Estas últimas não podem continuar em alta sem provocar o colapso dos mercados imobiliário e acionário. 

Mesmo assim, os meios de comunicação e muitos investidores consideram que as taxas de juros sobem para compensar os investidores pelo risco da inflação. 

A realidade é que taxas de juros mais altas aumentarão a incapacidade da economia de enfrentar o colapso que já está em andamento. 

Como surgiu o mito de que as taxas de juros sobem em resposta à inflação dos preços? 

A justificativa moral é proteger o poder de compra dos créditos dos credores em relação aos devedores, medido pelo poder aquisitivo desses créditos diante dos preços ao consumidor. 

A alegação é que os credores utilizam a renda proveniente dos juros para adquirir bens e serviços. Mas, já no século 18, os críticos do financiamento por dívida reconheciam que os detentores de títulos reinvestiam a maior parte de seu dinheiro em novos empréstimos. 

Quando gastam parte de sua renda de juros na economia real não financeira, fazem isso principalmente para adquirir imóveis de prestígio, sobretudo nos principais centros financeiros e, em segundo lugar, bens de luxo — importados principalmente da Itália em meados do século 18, assim como acontece atualmente. 

No século 19, os credores buscaram alguma justificativa para legitimar a cobrança de juros, descrevendo-os como uma compensação pelo risco de sofrer perdas devido à inadimplência dos empréstimos ou à redução de seu poder de compra de bens e serviços à medida que os preços aumentavam — e, mais especificamente, sobre a mão de obra que produzia esses bens. 

Economistas austríacos como Eugen von Böhm-Bawerk chegaram inclusive a afirmar que os juros eram uma remuneração pelo “serviço” de se abster do consumo imediato da renda, utilizando a “preferência temporal” para consumir mais no futuro. 

Dessa forma, ter de pagar juros era apresentado como o preço da “impaciência”. 

Era como se os assalariados (“consumidores”) tivessem a opção de evitar o endividamento, demonstrando falta de prudência ao recorrer a ele. 

Isso levou Marx a brincar dizendo que os Rothschild deviam ser a família mais abstêmia da Europa. Era como se não existisse um setor financeiro composto por banqueiros e detentores de títulos atuando independentemente da economia da produção e do consumo. 

Elevar os juros para frear o emprego e manter os salários baixos 

A lógica mais recente do século 20 é a de Paul Volcker, quando elevou as taxas de juros para acima de 20% no final do governo Carter, em 1980. 

Ele considerava que os salários estavam subindo como resultado da política fiscal de “armas e manteiga” da Guerra do Vietnã, chamada de keynesianismo militar em uma época em que o objetivo era aumentar os lucros, o investimento e o emprego. 

Volcker, ex-banqueiro do Chase Manhattan Bank, queria aumentar o desemprego para impedir que os salários continuassem subindo. Ele conseguiu provocar uma crise quando as taxas de juros bancárias chegaram a 20%. 

Obviamente, esse não é o objetivo da atual elevação das taxas de juros. Mas esse é o efeito. 

E isso é exatamente o oposto de compensar o risco. Aumenta drasticamente o risco econômico em toda a economia, não apenas para a indústria e o emprego, mas também para o próprio setor financeiro. 

É isso que torna os atuais e elevados preços do mercado acionário tão desconcertantes, já que parecem se basear simplesmente em uma visão de curto prazo centrada na onda de rumores difundidos pela administração Trump sobre a probabilidade de que a paz no Golfo Pérsico restabeleça o feliz status quo ante. 

Os governos reduzem as taxas de juros principalmente para aumentar os preços da riqueza financeira alavancada pela dívida 

A ficção sustenta a ideia de que o aumento das taxas de juros conterá a inflação de preços ao reduzir a criação de crédito bancário e, consequentemente, o investimento e o emprego. 

Essa ficção baseia-se no mito de que os bancos ajudam a economia industrial criando crédito para emprestá-lo às empresas com o objetivo de expandir a economia. Mas não é isso que os bancos fazem no âmbito do capitalismo financeiro. 

Eles concedem empréstimos tendo como garantia ativos já existentes e disponíveis para serem dados em penhor, com o propósito de comprar mais imóveis, títulos e ações. O efeito desses empréstimos é inflar os preços dos ativos, e não os preços ao consumidor. 

Os governos e seus bancos centrais podem fingir que estão reduzindo as taxas de juros para estimular a economia, mas a razão fundamental é voltar a inflar os preços dos títulos financeiros e dos imóveis. 

Esse é, afinal, o principal objetivo do capitalismo financeiro atual. Seu propósito de aumentar fortunas por meio da geração de ganhos nos preços dos ativos alavancados pela dívida transformou as economias em um grande esquema piramidal. 

Essa política está fadada ao fracasso, pois impedir a queda dos preços das garantias detidas pelos bancos e outros credores — o que provocaria a perda dos ganhos obtidos com a valorização dos ativos financeirizados — exige que a economia assuma cada vez mais dívida. 

A resposta do Federal Reserve à crise bancária das hipotecas subprime de 2008 é reveladora de como o governo poderia tentar enfrentar a próxima crise financeira. 

Os preços dos ativos imobiliários e da dívida corporativa estavam despencando devido aos calotes das hipotecas subprime e à rede de apostas malsucedidas em derivativos financeiros. A resposta do governo de Barack Obama foi implementar a política de juros zero (Zero Interest Rate Policy — ZIRP). 

O Federal Reserve resgatou os bancos do patrimônio líquido negativo carregando o sistema bancário — e, por meio dele, os mercados financeiros — com alavancagem de dívida a juros baixos. 

O resultado foi o maior boom do mercado de títulos da história, mas não um boom para a indústria e o emprego. Uma economia estadunidense em forma de K viu a riqueza do 1% mais rico (e, em menor medida, do restante dos 10% mais ricos) aumentar drasticamente, mas a economia industrial continuou sofrendo seu longo declínio, já que salários e lucros industriais estão sendo direcionados para o setor FIRE: finanças, seguros (incluindo os seguros de saúde sob o Obamacare privatizado) e mercado imobiliário. 

A engenharia financeira da “recuperação” dos preços dos ativos após 2008 — nos mercados imobiliário, acionário e de títulos — deixou a economia tão altamente alavancada pela dívida que há pouca margem para uma recessão econômica provocada pelas interrupções no comércio de petróleo e gás da Opep. 

A escassez de petróleo está, de fato, elevando os níveis dos preços das commodities, mas isso não é consequência de um aumento do emprego ou de salários mais altos que ampliem a demanda. 

É o resultado da guerra de Trump para manter o controle do comércio mundial de petróleo nas mãos dos Estados Unidos. O Irão respondeu afirmando que, se outras nações não atuarem para deter o ataque de Trump, destruirá a produção petrolífera árabe, e o mundo inteiro pagará o preço de ser empurrado para uma prolongada depressão económica. 

E grande parte do mundo permaneceu à margem, como se acreditasse que os Estados Unidos podem conquistar o Irão da mesma forma que fizeram com a Venezuela e, de alguma maneira, restabelecer relações normais sob controle estadunidense e evitar uma depressão mundial. 

Diz-se que Trump está considerando um último grande ataque aéreo. Independentemente de isso ocorrer ou não, agora é evidente que o efeito da escassez mundial de petróleo e o consequente aumento dos preços do petróleo obrigarão ao fechamento de importantes indústrias em todo o mundo: produtores químicos, empresas de fertilizantes e mineradoras que dependem do ácido sulfúrico, setores intensivos em energia, como os produtores de alumínio e vidro, e fabricantes de plásticos que necessitam de nafta, assim como os lares que precisam de energia para aquecimento, iluminação e transporte. 

As cadeias produtivas dessas empresas serão interrompidas em pontos críticos, obrigando-as a demitir trabalhadores e encerrar suas atividades, já que não poderão continuar produzindo nem obtendo lucros. 

Isso também significa que essas empresas não poderão cumprir suas obrigações programadas de pagamento da dívida junto a seus detentores de títulos e banqueiros, sem falar na necessidade de interromper seus programas de recompra de ações. É isso que acontece em uma depressão. 

O resultado não será apenas uma deflação dos preços, mas também uma deflação dos mercados e da demanda dos consumidores, além de uma onda de inadimplência da dívida. 

Isso ameaça provocar uma transferência de garantias e outros ativos dos devedores para os credores, cujas dificuldades para receber os pagamentos poderão, ainda assim, deixá-los com patrimônio líquido negativo. 

Assim, voltaremos à situação de 2009, mas sem qualquer possibilidade de acumular ainda mais dívida para permitir que as economias “saiam da dívida por meio de novos empréstimos”, como vem ocorrendo nos últimos 17 anos. 

O aumento das taxas de juros é uma solução insustentável para a iminente depressão atual 

A grande questão que precisa ser colocada é por quanto tempo a economia dos Estados Unidos conseguirá suportar taxas de juros de longo prazo superiores a 5% para os títulos do Tesouro de 30 anos, de 4,6% ou mais para os títulos de 10 anos e em torno de 7% para os empréstimos hipotecários. Muitos empréstimos para imóveis comerciais e também de capital de risco vencem em breve e precisam ser renovados. 

Como essas dívidas poderão ser refinanciadas às taxas que estão por vir? Além disso, a nova construção e a venda de imóveis serão limitadas pela incapacidade dos novos tomadores de crédito de arcar com os maiores custos de financiamento de moradias ou de outras propriedades. 

O governo tentará fazer o que costuma fazer: resgatar o setor financeiro, e não a economia “real”, que já está sendo crucificada em uma cruz de dívidas. Mas os governos não estão tomando medidas para proteger os salários e o padrão de vida dos trabalhadores, nem mesmo a solvência de sua indústria. 

Os bancos centrais pretendem salvar o setor financeiro, ou seja, a riqueza financeirizada que foi inflada por meio da alavancagem da dívida, à medida que os preços dos imóveis, das ações e dos títulos dispararam graças ao crédito. 

Mas o Federal Reserve já vem adquirindo uma enorme quantidade de títulos do Tesouro para financiar o crescente déficit orçamentário de Trump. 

Como os eleitores reagirão diante de uma administração que favorece o 1% mais rico enquanto deixa o restante da economia sofrer? 

Como o Ocidente deveria reagir a um problema desse tipo se vivessemos em um mundo ideal? 

Existe uma solução ancestral para mitigar uma crise econômica derivada de interrupções nas colheitas, e ela é aplicável à atual interrupção do comércio mundial de energia. Mas essa solução não faz parte da forma como a civilização ocidental enfrenta o aumento da dívida. 

As leis de Hamurábi, por volta de 1750 a.C., exemplificavam como a Mesopotâmia e outras civilizações da Ásia Ocidental lidavam com tais interrupções na produção, do terceiro ao primeiro milênio a.C., restabelecendo a ordem econômica durante milhares de anos. 

A guerra que saiu do controle: Irão e a reconfiguração dos equilíbrios de poder globais 

Hamurábi determinou que, se o deus das tempestades Adad provocasse uma má colheita em consequência de uma inundação ou de uma seca, as dívidas que os agricultores tivessem contraído durante o ano agrícola e que esperavam pagar na época da colheita seriam canceladas. 

(Muitas dessas dívidas eram com o palácio e sua burocracia, de modo que isso não provocava uma revolta de credores enfurecidos. As dívidas comerciais entre mercadores permaneciam intactas; apenas as dívidas de grãos contraídas pela população agrária afetada eram canceladas). 

Se essas dívidas pessoais não tivessem sido canceladas, a população agrária da Babilônia teria ficado submetida à servidão por dívidas diante dos credores e teria perdido seus direitos de posse da terra para o que teria se tornado uma oligarquia credora emergente. Descrevi tudo isso em … e perdoa suas dívidas e em Temples of Enterprise. 

Tais cancelamentos de dívida por parte dos governantes diante de desastres naturais permitiram que as economias da Ásia Ocidental evitassem o surgimento de oligarquias credoras. 

Mas as sociedades ocidentais nunca tiveram governantes centrais desse tipo, fosse uma “realeza divina” ou imperadores confucionistas, que impedissem que tais oligarquias assumissem o controle dos governos e provocassem um descontentamento público generalizado. 

Como descrevi esse fracasso da civilização ocidental em meu Collapse of Antiquity, todos os governos ocidentais foram oligarquias (como observou Aristóteles), e estas invariavelmente caem na ganância e no vício da riqueza, que polariza as economias entre credores e devedores, proprietários de terras e arrendatários, conduzindo a um colapso econômico como o de Roma. 

Perspectivas para as economias dos Estados Unidos e estrangeiras diante da crise do petróleo 

Os mercados financeiros atuais parecem esperar que o Federal Reserve siga sua habitual reação instintiva ao aumento dos preços ao consumidor, elevando as taxas de juros. 

Como foi observado anteriormente, supõe-se que isso desacelerará a economia e criará um “exército de reserva de desempregados” para manter os salários baixos ao provocar dificuldades econômicas. 

Mas a economia dos Estados Unidos não está em expansão nem prosperando. Tanto ela quanto outras economias já enfrentam dificuldades em consequência da iminente crise do petróleo e da energia. 

Além do fato de que as empresas estão reduzindo sua produção, os proprietários de imóveis comerciais e residenciais enfrentam o vencimento de suas hipotecas imobiliárias. 

O aumento das taxas de juros elevará o custo do refinanciamento dessas hipotecas e de outras dívidas para além da capacidade de pagamento dos devedores, cujas rendas estão diminuindo. 

O resultado ameaça ser uma vasta transferência de propriedades dos devedores para os credores. Portanto, os Estados Unidos e a Europa Ocidental podem experimentar algo semelhante ao que os países asiáticos viveram durante sua crise monetária de 1997-1998. Isso representaria uma oportunidade extraordinária para que os fundos abutres avançassem e adquirissem imóveis e empresas a preços de liquidação. 

Ninguém propõe uma solução “babilónica” de suspender o serviço da dívida para economias incapazes de pagar em escala de toda a economia. Os sistemas jurídicos ocidentais, orientados em favor dos credores, exigem uma transferência de propriedade, à medida que os bancos e os detentores de títulos assumem as garantias que foram dadas em penhor pelas dívidas ou os bens que os devedores são forçados a vender. 

Grande parte dessas garantias consiste em créditos de outras empresas em toda a economia, de modo que a crise engolirá todo o sistema social e político. 

Isso já podia ser vislumbrado em 2008-2009, quando a crise das hipotecas subprime e a fraude bancária provocaram um colapso dos preços imobiliários.

Mas o esquema Ponzi da economia, baseado em aumentar a riqueza por meio da alavancagem da dívida através da concessão de novo crédito, chegou ao seu limite. 

Agora podemos ver que o longo período de prosperidade desde 1945, que parecia uma série de ciclos económicos autocorretivos, foi um desvio fracassado do capitalismo financeiro em relação ao capitalismo industrial, o qual carece de forças automáticas de autocorreção do mercado. 

A solução deve vir de fora do sistema de mercado. E isso é algo que nem a economia acadêmica nem a ideologia de relações públicas dos mercados livres (isto é, das economias desreguladas e privatizadas ao estilo Thatcher-Reagan) reconheceram. 

O futuro exigirá pensar o impensável. Exige reconhecer que as dívidas que não podem ser pagas não serão pagas. 

Michael Hudson

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