O burro, as vidas e uma certa amargura para o jantar
Au Hasard Balthazar

Por Manuela Matos Monteiro
Fui ver no Batalha Centro de Cinema o filme “Au Hasard Balthazar” de Robert Bresson (1966) que teve uma introdução de Eduarda Neves e de Carlos Natálio. Esta exibição – com a sala 2 cheia de público – funcionou como introdução ao novo Curso de Crítica e Cinema (a ser orientado pela Eduarda e pelo Carlos).
Longe da linguagem e da representação da maior parte do cinema contemporâneo, este filme é despojado, não distrativo. As personagens não são atores (alguns deles só amadores) porque o realizador não queria que a teatralidade da representação contaminasse o acontecer. Acompanhamos um burro – de seu nome Balthasar – no acidentado percurso da sua vida e o despojamento do comportamento do animal, é acompanhado pelo comportamento quase neutro das personagens.
Percebi que esse quase vazio, essa recusa de excesso no ser e estar das personagens nos colocava em situação não de uma forma empática elementar (como no cinema mais main stream) mas pela necessidade de preencher. E aqui, percebe-se que este entrar nas cenas é construído, logo, mais comprometido.
É um filme duro em que o sofrimento do animal vai a par do sofrimento de Marie.
Li como sintoma, o silêncio quase quieto das pessoas quando o ecrã se apagou, Eu trouxe uma certa amargura para o jantar e não devo ter sido a única.