Israel é um Estado de supremacia judaica
Entrevista ao historiador Avi Shlaim
É uma das figuras mais eminentes do revisionismo que contesta a narrativa oficial, apologética, da criação do Estado judaico. O seu livro, agora saído em Portugal, “Três Mundos. Memórias de Um Judeu Árabe”, mostra como a coexistência entre árabes e judeus foi historicamente possível. Falámos com o historiador
Entrevista ao Expresso – 27 novembro 2025 22:57 Luís M. Faria Jornalista
Nascido em 1945 e criado no seio de uma família judia de classe alta, Avi Shlaim viveu no Iraque até aos cinco anos, quando a guerra e a criação de Israel os obrigaram a mudar para esse novo país. Além de as circunstâncias materiais da família jamais terem voltado a ser as mesmas, Shlaim sentia-se menosprezado pelo facto de ser um judeu árabe, ao contrário dos líderes fundadores do país, oriundos da Europa de Leste. Esse sentimento de exílio não o abandonou até meados da adolescência, quando foi estudar para Inglaterra. Aí faria toda a sua carreira de historiador, tornando-se uma das figuras mais eminentes na tradição do revisionismo que contesta a narrativa oficial, apologética, da criação do Estado judaico. O seu livro agora saído em Portugal, “Três Mundos. Memórias de Um Judeu Árabe” (Ed. Zigurate) mostra como a coexistência entre árabes e judeus foi historicamente possível — de facto, durante mais de um milénio —, desmentindo o mito de uma incompatibilidade essencial, irredutível. O Expresso entrevistou-o nas vésperas de uma visita recente a Portugal.
Até que ponto acha que a sua experiência familiar e pessoal ajuda a compreender o que se passa hoje em dia?
Esta não é uma autobiografia convencional. Os três mundos do título são o Iraque, onde vivi até aos 5 anos; Israel, onde vivi dos 5 aos 15; e Inglaterra, onde estudei dos 15 aos 18. O livro tenta entrelaçar uma história familiar com uma história mais ampla — a da comunidade judaica no Iraque na primeira metade do século XX. Gosto de pensar nele como uma autobiografia impessoal — o que, claro, é uma contradição nos termos. Mas há certos temas subjacentes. O sionismo era um movimento de judeus europeus para judeus europeus. Um dia perguntei à minha mãe — que falava sempre dos maravilhosos amigos muçulmanos que tínhamos em Bagdade — se tínhamos algum amigo sionista. Ela olhou para mim como se fosse uma pergunta bizarra. E disse: “Não, não, o sionismo é uma coisa asquenaze. Não tem nada a ver connosco.” Essa visão era bastante representativa, típica da maioria dos judeus no Iraque. Estavam lá há dois milénios e meio, quase mil anos antes do surgimento do Islão. Além disso, os líderes sionistas não tinham interesse nos judeus das terras árabes. Tinham uma visão eurocêntrica. Olhavam de cima para os árabes e também para os judeus árabes, como a minha família — apenas um pouco menos “primitivos” do que os outros árabes.
Depois deu-se a guerra.
O Holocausto mudou tudo, porque eliminou o principal reservatório populacional do futuro Estado judeu. A Aliá, a imigração para Israel, tornou-se a principal prioridade da liderança sionista após a criação do Estado em 1948. O meu livro é uma crítica à atitude sionista face aos judeus árabes. Eu sempre soube que a principal vítima do sionismo e do Estado de Israel são os palestinianos. Escrevi muitos livros sobre o assunto. Mas ao escrever estas memórias, percebi que havia outra categoria de vítimas do movimento sionista — os judeus das terras árabes.
“Os líderes sionistas olhavam de cima para os árabes e também para os judeus árabes, como a minha família — apenas um pouco menos ‘primitivos’ do que os outros árabes”
Diria que a sua atitude em relação ao sionismo evoluiu com o tempo?
Sem dúvida. Tinha 5 anos quando chegámos a Israel. Frequentei a escola em Israel. Fui doutrinado em Israel. A versão sionista da história apresentava os judeus como vítimas eternas e dizia que sempre existira antissemitismo no mundo árabe e muçulmano. O antissemitismo seria perene, omnipresente, endémico, e fora ele que levara os judeus dos países árabes a emigrar para Israel. Essa foi a versão que aprendi na escola. E quando servi nas Forças de Defesa de Israel, em meados da década de 60, voltei a ser doutrinado. Acreditava genuinamente que nós, Israel, éramos um pequeno país amante da paz. Rodeado de árabes que queriam atirar-nos ao mar. E não tínhamos outra escolha senão resistir e lutar. Portanto, eu era sionista. Um israelita patriota. Quando rebentou a crise de maio de 1967, estudava História em Cambridge e fui à embaixada de Israel em Londres oferecer-me para regressar e combater na guerra que todos sabíamos estar prestes a começar. A guerra terminou em seis dias e nunca mais tive notícias deles. Esse foi o ponto mais alto da minha identificação e ligação com o sionismo e o Estado de Israel.
O que mudou a seguir?
O meu desencanto com o sionismo desenvolveu-se muito, muito gradualmente após a Guerra dos Seis Dias. Para resumir uma evolução lenta, diria que a guerra de junho de 1967 foi o ponto de viragem. Antes eu acreditava que o exército era fiel ao seu nome: Forças de Defesa. Mas, depois de 1967, tornou-se na força policial brutal de uma potência colonial brutal. E começou o meu desencanto com Israel. Contudo, foi apenas enquanto historiador que mudei de forma radical as minhas opiniões sobre o sionismo. Tive um ano sabático em Jerusalém, em 1981-82, e passei-o todo nos arquivos israelitas. Percebi então que os registos, os documentos oficiais, contavam uma história muito diferente. A propaganda oficial dizia que os líderes israelitas tinham sempre tentado estender a mão à paz com os árabes, mas não havia com quem falar. Os arquivos do Ministério dos Negócios Estrangeiros estavam cheios de provas da vontade árabe em negociar e da intransigência israelita. Portanto, em certo sentido, “radicalizei-me” nos arquivos. Mas, nessa altura, ainda não era antissionista. Era pós-sionista. Ou seja, achava que, em 1967, o movimento sionista já tinha atingido o seu objetivo final: existia um Estado judeu viável e seguro na Palestina, e Israel podia trocar os territórios pela paz com os árabes. Mas Israel optou por não o fazer. Decidiu manter os territórios.
Foi isso que alterou a sua forma de olhar para Israel?
Posteriormente, além de pós-sionista ou não-sionista, tornei-me antissionista. Porque o comportamento de Israel nas últimas décadas demonstrou que não tem interesse em alcançar a paz com os palestinianos, que rejeita a solução dos dois Estados e que, devido à ocupação, Israel se tornou num Estado de apartheid. Assim, já não distingo entre o Estado de Israel propriamente dito, dentro das fronteiras pré-67, e a Cisjordânia e Gaza. Há um só regime, do rio ao mar, e é um regime de apartheid. Um regime de supremacia judaica. Na minha opinião, essa entidade já não tem legitimidade.
Pode dar-nos alguns exemplos dessas descobertas nos arquivos que mostraram haver uma grande diferença entre a propaganda e a realidade?
Há vários exemplos, mas o mais marcante da diferença entre a linha oficial e a realidade da política externa israelita diz respeito ao rei Abdullah da Jordânia. A versão oficial dizia que todos os árabes eram hostis a Israel, que todos foram à guerra em 1948 para destruir o recém-nascido Estado de Israel. A minha investigação mostrou que Abdullah, durante décadas — desde o início dos anos 1920 — manteve um diálogo constante com o movimento sionista. Em 1947, tinha chegado a um acordo tácito com a Agência Judaica para dividir a Palestina, à custa dos palestinianos. Evitou um confronto direto durante a guerra de 1948 e retomou o diálogo através das linhas de batalha após o fim da guerra. Continuou a reunir-se e a negociar com líderes israelitas literalmente até ao dia da sua morte, em julho de 1950, quando foi assassinado à porta da Mesquita de al-Aqsa por um nacionalista palestiniano. Outro exemplo é Hosni Za’im, o chefe do Estado-Maior sírio, que protagonizou um golpe de Estado em março de 1949 e ofereceu a Israel paz plena, troca imediata de embaixadores, relações económicas normais e total normalização. Pediu para se encontrar com David Ben-Gurion, o primeiro-ministro israelita. Ben-Gurion recusou. Hosni Za’im ofereceu, no contexto de um acordo global para o conflito, acolher um quarto de milhão de refugiados palestinianos na Síria. Um terço do total de refugiados palestinianos, que eram cerca de 750 mil. Era, portanto, um líder árabe pragmático e disposto a negociar com Israel — mas foi o lado israelita que se mostrou intransigente.
Qual é o terceiro exemplo?
A historiografia sionista afirma que, perto do fim do mandato britânico na Palestina, a Grã-Bretanha incitou, armou e encorajou os seus aliados árabes a invadir a Palestina e a destruir o Estado judaico nascente. Eu argumento, com base em provas provenientes de documentos britânicos, que a Grã-Bretanha, na verdade, estava resignada ao aparecimento do Estado de Israel e apoiou o rei Abdullah no seu projeto de capturar a Cisjordânia, o coração do que deveria ter sido o Estado palestiniano. Portanto, há um caso a fazer contra a Grã-Bretanha no fim do mandato, mas não por ter tentado impedir o nascimento de um Estado judaico — antes por ter apoiado o rei Abdullah em abortar o nascimento de um Estado palestiniano.
Até que ponto é tudo isto culpa da Declaração Balfour, na sua opinião? Foi o erro original?
Resumindo, a Grã-Bretanha roubou a Palestina aos palestinianos e deu-a aos sionistas. A Declaração Balfour, de 1917, prometeu o apoio britânico à criação de um “lar nacional” para o povo judeu na Palestina. “Lar nacional” era um termo novo — não existia no direito internacional — e foi um eufemismo para um Estado judaico. Assim, a Grã-Bretanha apoiou a transformação da Palestina num Estado judaico. Em 1917, os palestinianos, os árabes, constituíam 90% da população. Os judeus eram menos de 10% e possuíam apenas 2% das terras. Mesmo assim, a Grã-Bretanha prometeu o seu apoio à minoria judaica. E, para agravar o insulto, referiu-se aos 90% de árabes como “as comunidades não-judaicas da Palestina” — definindo-os pelo que não eram, em vez do que eram. Foi um documento colonial clássico, que ignorou completamente os direitos e aspirações da maioria da população. Isto é absolutamente crucial para compreender o que se seguiu. A Grã-Bretanha, uma potência colonial ocidental, impôs um Estado judaico no coração do mundo árabe, e tanto a Grã-Bretanha como mais tarde os Estados Unidos apoiaram Israel de todas as formas. Eu argumentaria que a Declaração Balfour é diretamente responsável pelo que está a acontecer em Gaza. Ela permitiu ao movimento sionista iniciar a tomada sistemática de toda a Palestina, um processo que implicou a limpeza étnica do território e que hoje degenerou em genocídio em Gaza. Noam Chomsky disse que o colonialismo de povoamento é a forma mais violenta e extrema de imperialismo. Hoje, tanto a Grã-Bretanha como os Estados Unidos são não apenas cúmplices dos crimes de guerra de Israel em Gaza, mas apoiantes ativos desses crimes, ao continuarem a fornecer armas a Israel e a protegê-lo diplomaticamente nas Nações Unidas.
“Nas últimas décadas, Israel provou que não tem interesse em alcançar a paz com os palestinianos, que rejeita a solução dos dois Estados e que, devido à ocupação, se tornou num Estado de apartheid”
Até que ponto acha que o racismo esteve por detrás de tudo isto em 1917 e ainda hoje?
O racismo está no ADN das potências coloniais. Arthur Balfour, o ministro dos Negócios Estrangeiros britânico, era na verdade um antissemita. Aprovou a Lei dos Estrangeiros de 1905, a primeira legislação anti-imigração na Grã-Bretanha, destinada a impedir que judeus perseguidos na Europa de Leste viessem para o país. Os antissemitas apoiavam o sionismo — a criação de um Estado judaico — precisamente porque não queriam judeus nos seus próprios países. As potências coloniais viam os povos nativos como primitivos, inferiores e atrasados, mas os judeus num nível de civilização superior. Em 1937, Winston Churchill comparou os árabes locais, os nativos, a cães num presépio, dizendo que o facto de o cão ter estado deitado no presépio durante muitos anos não lhe dava direito a ele. Acrescentou que os árabes deviam dar lugar a outra raça, uma raça mais experiente e superior — os judeus. É um exemplo extremo do racismo britânico.
Como avalia o plano de paz de Donald Trump?
O racismo e o colonialismo andam de mãos dadas. As potências coloniais são, quase por definição, racistas. O racismo está no ADN das potências coloniais. O que Churchill disse é típico da visão colonial sobre judeus e árabes — chocante, mas não surpreendente, porque, como disse, racismo e colonialismo andam sempre juntos. Hoje, um bom exemplo deste fenómeno é Donald Trump, que é simultaneamente antissemita e um grande apoiante de Israel. O plano de 20 pontos de Trump incorpora todo o racismo e preconceito de que tenho falado. É um plano que dá a Israel tudo o que quer: controlo total sobre Gaza, a dissolução do Hamas, a entrega de todas as armas e a exclusão do Hamas de qualquer papel futuro na governação de Gaza. Não há nele qualquer referência a um Estado palestiniano, nem a permitir aos palestinianos participarem na governação ou decidirem o seu próprio destino. Nem sequer menciona a Cisjordânia.
Porque acha que, desde o início, a atitude de Israel foi sempre de recusa — recusa em relação ao rei da Jordânia, recusa em relação aos sírios? Qual era o objetivo?
O sionismo é um movimento colonial de povoamento, e o Estado de Israel é um Estado colonial de povoamento. A lógica deste tipo de colonialismo é a eliminação dos nativos para tomar posse da terra e dos seus recursos. Este foi o objetivo do sionismo desde o início: criar um Estado judaico o maior possível, com o menor número possível de árabes dentro das suas fronteiras. As orientações políticas do atual governo de Netanyahu são ainda mais extremas: afirmam que o povo judeu tem um direito exclusivo à autodeterminação em toda a Terra de Israel. A “Terra de Israel” significa a Cisjordânia — ou “Judeia e Samaria”, como preferem chamar-lhe. Por outras palavras, Israel hoje nega totalmente qualquer direito palestiniano à independência em qualquer parte da Palestina histórica. Essa é a posição do governo e, portanto, nenhum acordo com os palestinianos é possível com base nisso. É um Estado de supremacia judaica.
Os acordos de Oslo foram uma tentativa genuína de fazer a paz ou apenas uma simulação?
Na altura em que os acordos de Oslo foram assinados, fiquei eufórico. Acreditei que era algo real. Há duas explicações para o fracasso do processo de paz de Oslo. A versão oficial diz que falhou porque era inerentemente defeituoso, contrário ao direito de Israel à segurança e ao direito histórico do povo judeu a toda a Terra de Israel, incluindo Judeia e Samaria. A explicação oficial também afirma que foi o regresso dos palestinianos ao terrorismo que levou ao colapso do processo de paz. A minha explicação é outra: o processo de paz de Oslo colapsou porque o Likud regressou ao poder sob Netanyahu e renegou a parte israelita do acordo. Expandiu as colónias judaicas e violou os termos de Oslo. Essa é a verdadeira razão do seu fracasso.
Leitura recomendada por Francisco Melro no seguimento da publicação do artigo ERA UMA VEZ NAS ARÁBIAS da sua autoria – Para aprofundamento do tema.

Foto – wikipédia \ Mans2014 – Own work | Em Oxford, 2015