14 de Maio, 2026
Teatro-de-Gentilly

A relação médico-doente pode ser entendida como um espaço teatral onde se cruzam ciência, narrativa e comportamento humano

Por Joaquim Cândido Machado


Da visão dualista de Platão até à conceção monista de Hipócrates, a história da medicina pode ser compreendida também através da metáfora do teatro. No dualismo platónico, corpo e alma pertencem a planos distintos. O médico surge como alguém que observa o corpo quase como um objeto em cena. Já na tradição hipocrática encontramos uma visão monista: o ser humano é uma unidade em que corpo, mente e ambiente são inseparáveis. Nesta perspetiva, o médico participa na cena da vida do doente e não apenas como espectador.


Apesar disso, muitas das categorias que herdámos da psiquiatria moderna mantêm ainda um fundo dualista. A separação rígida entre neurose e psicose pode ser vista, do ponto de vista neurobiológico, como uma herança do dualismo cartesiano.

À medida que o conhecimento do cérebro evolui, torna-se cada vez mais evidente que os fenómenos mentais resultam de redes cerebrais complexas em interação com o corpo e o ambiente, tornando essa divisão menos clara do que durante muito tempo se supôs.


Experiências no Júlio de Matos

A tentativa de compreender o chamado “psicótico” através do teatro teve momentos particularmente interessantes. No Hospital Júlio de Matos, por exemplo, encenaram-se peças escritas por doentes classificados como psicóticos. Essas experiências não eram apenas atividades culturais; eram também uma forma de explorar a possibilidade de compreender, através da representação teatral, um discurso que durante muito tempo foi considerado incompreensível.


A antipsiquiatria, com autores como R. D. Laing, criticou precisamente essa ideia de incompreensibilidade. Laing procurou explicar a psicose sobretudo a partir das dinâmicas familiares, criando experiências clínicas fora do ambiente familiar tradicional. Recusava a separação rígida entre neurose e psicose. Contudo, trabalhava ainda sem o conhecimento neurobiológico que hoje possuímos sobre o funcionamento do cérebro e sobre as estruturas cerebrais envolvidas nas perturbações psiquiátricas.


A metáfora teatral ajuda-nos a compreender esta evolução.

O encontro entre médico e doente é uma forma de representação: o doente traz a narrativa do sofrimento e o médico interpreta, responde e participa. O médico não é apenas um técnico; é também um actor treinado na análise, no conhecimento e no comportamento.


O que significa representar?

É aqui que o teatro revela a sua importância formativa. Desde as suas raízes profundas na Grécia antiga, o teatro ensinou que representar exige compreender emoções, intenções e contextos. A formação de actores mostra como certas expressões humanas dependem de processos cognitivos complexos. Charles Darwin já tinha observado que expressões aparentemente simples, como o riso, envolvem mecanismos biológicos e cognitivos distintos. Certos músculos, como o masséter, podem ser controlados voluntariamente; outros, como o orbicular dos olhos, participam no chamado sorriso genuíno, mais difícil de simular. Por isso, os melhores actores conseguem produzir expressões naturais: porque compreendem e integram esses processos.


A medicina enfrenta hoje desafios semelhantes. Quando os médicos aceitam modelos organizativos que fragmentam o doente — como por vezes acontece em certas conceções de unidades de cuidados paliativos — mantêm-se, muitas vezes sem o perceber, numa posição dualista.

Se o cidadão fosse analisado como um todo — biológico, psicológico e social — poderíamos desenvolver técnicas e estruturas capazes de reduzir o sofrimento sem afastar o doente da vida social.


Novas tecnologias integradoras

Novas tecnologias, como a realidade virtual, aproximam-se também desta lógica teatral. Tal como no teatro, criam cenários de representação que permitem explorar emoções, perceções e comportamentos. Estas ferramentas mostram como a compreensão da mente humana continua a depender da capacidade de integrar conhecimento biológico, experiência subjetiva e contexto social.


Assim, a relação médico-doente pode ser entendida como um espaço teatral onde se cruzam ciência, narrativa e comportamento humano. O médico, como actor treinado, participa na construção da história do doente. E quanto mais compreendermos o cérebro, o corpo e o ambiente como partes de um mesmo sistema, mais a medicina se aproximará da visão monista que já estava presente na tradição hipocrática.

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