22 de Junho, 2026

Israel: o que correu mal com o meu país?

Israel esgotou por completo o crédito para alguma vez voltar a invocar o Holocausto

No seu novo livro, o historiador israelo-americano Omer Bartov não deixa margem para dúvidas: o país onde nasceu está a cometer um genocídio em Gaza. Em entrevista ao Expresso, diz que “o principal inimigo” do Estado judaico “é o seu próprio Governo”. E defende sanções europeias e americanas – não para castigar Israel, mas “para o salvar de si próprio”

In Expresso -15 junho 2026 07:30 | Hélder Gomes | Jornalista

Omer Bartov nasceu num kibbutz, combateu nas Forças de Defesa de Israel na Guerra do Yom Kippur e tornou-se um dos maiores historiadores do Holocausto e do genocídio. No seu novo livro, “Israel: o que correu mal com o meu país? Entre a memória do Holocausto e a violência do presente” (Ideias de Ler), o professor da Universidade de Brown sustenta que Israel está a cometer um genocídio em Gaza e que o sionismo se converteu numa ideologia de Estado assente no etnonacionalismo. A entrevista foi feita por videochamada, com Bartov em Roma.

Sim, comecei a escrever mais sobre Israel nos últimos dez anos, portanto não é a primeira vez. Publiquei um livro anterior, “Genocide, the Holocaust and Israel-Palestine”, que saiu em 2022 em inglês e alemão. Nesse livro falo da minha investigação sobre a Europa de Leste e incluo ensaios sobre Israel. Mas este é, claro, um empreendimento diferente, e teve mesmo que ver com os acontecimentos que ocorreram desde 7 de outubro. Eu estava a escrever outro livro sobre Israel-Palestina, que pus de lado para escrever este – que é, em larga medida, uma resposta ao que aconteceu desde então e uma tentativa de perceber o que aconteceu, mas também quais as raízes mais profundas daquilo a que chamo a transformação de Israel, uma transformação do sionismo que remonta ao final do século XIX.

A sua mãe veio de Buczacz, a cidade cuja destruição reconstruiu em “Anatomy of a Genocide”. O que representa, para o historiador que dissecou um genocídio na cidade da sua própria família, dirigir agora essa acusação ao seu próprio Estado?

O livro que escrevi sobre a terra natal da minha mãe, Buczacz – hoje na Ucrânia, antes da II Guerra Mundial na Polónia –, foi uma tentativa de ver o fenómeno do genocídio, neste caso o Holocausto, que foi um genocídio de grande escala, ao nível local: o que acontece no terreno, na vida de uma localidade. De muitas maneiras, o meu processo de começar a pensar sobre o meu próprio país, sobre a minha educação ali, sobre tudo o que eu sabia e tudo o que não sabia, ou que a minha geração negou, começou enquanto fazia esse trabalho.

Há uma ligação, porque uma coisa que vi ao investigar no que é hoje a Ucrânia ocidental foi como o passado tinha sido encoberto, apagado de facto. Escrevi em 2007 um livro chamado “Erased”, sobre o apagamento da civilização judaica – não só porque foi destruída pelos alemães, mas porque, depois da guerra, a população que ali vivia simplesmente esqueceu, encobriu, e não restou memória disso. E comecei a pensar sobre a minha própria educação, num país que tinha acabado de fazer a limpeza étnica da população palestiniana.

Foi um processo longo, de pensar as ligações entre o que aconteceu na terra da minha mãe, e no Holocausto em geral, e os acontecimentos em Israel. Mas, claro, há uma grande diferença entre pensar no que os alemães e os colaboradores locais fizeram aos judeus, incluindo à minha própria família, e pensar naquilo em que Israel se envolveu. Foi um processo difícil. Como provavelmente sabe, não fui dos primeiros a dizer que o que Israel faz em Gaza é genocídio. Levou-me um tempo considerável até ter a certeza de que percebia o que era, e de que não havia outra forma de o definir senão como genocídio.

Em 1976, esteve entre os soldados gravemente feridos num acidente de treino que diz ter sido encoberto. O que é que esse episódio lhe ensinou sobre a forma como o Estado israelita lida com a responsabilidade?

Há aqui duas coisas. Israel tem-se negado a si próprio, e a sua população tem vivido em vários estados de negação, sobretudo quanto ao que fez aos palestinianos. Mas este caso – um acidente militar que poderia ter sido evitado – teve que ver com outra coisa: com a desorganização geral, a falta de gestão, a falta de método que é bastante típica do exército israelita, apesar da aparência de força e eficiência. Teve mais que ver com desleixo e com a incapacidade de quem está no topo de assumir responsabilidade pelos seus atos. Isso reflete-se no exército israelita e na política israelita. As pessoas não assumem responsabilidade. É muito comum.

Diria que o que vimos depois de 7 de outubro manifesta bem isso, porque o homem diretamente responsável, e o maior responsável, pelo fiasco de 7 de outubro é [o primeiro-ministro israelita] Benjamin Netanyahu. Vários altos responsáveis militares acabaram por se demitir e por dizer que eram responsáveis, ele não o fez. Conseguiu cumprir o mandato inteiro de quatro anos sem se demitir nem assumir qualquer responsabilidade mínima por aquele fiasco, e nem sequer sabemos se vai realizar eleições limpas em outubro – muita gente tem dúvidas. Portanto, reflete esse aspeto: não tanto a negação do que Israel fez aos palestinianos, mas a negação, por parte de generais e políticos israelitas, da sua própria responsabilidade pelos erros ou estupidezes que cometeram.

Situa a crise de Israel em 1948, numa contradição que o Estado nunca resolveu: ser ao mesmo tempo um Estado judaico e uma democracia liberal. Essa contradição ia sempre acabar onde acabou?

Esta é uma daquelas perguntas… Sou historiador e, como historiador, não acredito verdadeiramente que as coisas sejam predeterminadas. Depois de 1948 houve várias oportunidades de mudar o rumo dos acontecimentos. As coisas podiam ter sido diferentes.

Diria, como digo no livro, que em 1948 algo foi posto em marcha numa direção determinada – o facto de Israel não ter aprovado uma constituição, o facto de nunca ter fixado as suas fronteiras teve, sem dúvida, efeitos a longo prazo. Mas houve tentativas, a mais notória no início da década de 1990, durante as negociações de paz de Oslo, de resolver pelo menos a questão da ocupação. Falharam – talvez nunca pudessem ter tido êxito –, mas falharam definitivamente porque [Yitzhak] Rabin, o então primeiro-ministro, foi assassinado.

Houve, portanto, tentativas. Mas sim, as coisas foram postas num rumo determinado, e tornou-se cada vez mais difícil, sobretudo depois do assassínio de Rabin, corrigir esse rumo. Nesta altura, tornou-se, diria, impossível Israel avançar sem se despojar daquilo de que já se deveria ter despojado em 1948: o sionismo como ideologia de Estado.

Argumenta que Israel perdeu a oportunidade de escrever uma constituição que garantisse direitos iguais independentemente da etnia ou da religião. Era um caminho genuinamente aberto em 1948, ou um cenário que nunca foi realista?

O Estado de Israel comprometeu-se, na sua proclamação, a 14 de maio de 1948, a aprovar uma constituição até 1 de outubro de 1948. Foi um compromisso oficial do Estado, assumido não porque os dirigentes israelitas estivessem particularmente empenhados nisso, mas porque era uma exigência da ONU na resolução de partilha de 29 de novembro de 1947. Israel queria ser reconhecido e tornar-se membro da ONU – e conseguiu-o –, mas, depois disso, renegou a sua própria promessa.

Houve debates. Não é que tenham dito “vamos fingir que o fazemos”. Houve debates sobre o conteúdo e sobre se devia ou não haver constituição. Inicialmente, o acordo não foi que não haveria constituição, mas que não aconteceria até outubro porque havia uma guerra. Foi adiada e, à boa maneira da política israelita, continuou a ser adiada – e nunca aconteceu. Não era inevitável que não houvesse constituição, teve de haver, no fim, uma decisão de Ben-Gurion [o primeiro chefe do Governo israelita] de não haver.

A razão oficial, frequentemente invocada por várias pessoas em Israel, tem que ver com a comunidade ortodoxa: os ortodoxos diziam “não precisamos de constituição, temos a Torá”. Mas a razão principal, sustento eu, era a questão no cerne da política israelita desde 1948, e que aliás remonta aos anos 1920: a relação entre judeus e palestinianos. O Estado disse que haveria igualdade para todos os cidadãos, mas nunca a consagrou na lei, e nunca teve realmente a intenção de o fazer. E, com isso, expôs a questão central: Israel não pode ser ao mesmo tempo democrático e judaico, a não ser que ali só existam judeus.

Como um dos maiores estudiosos do Holocausto, o que sente quando vê a Shoah invocada para justificar o que Israel faz em Gaza?

Penso, primeiro, no embaixador de Israel na ONU a usar uma estrela amarela e a proclamar que Israel é a principal vítima. Fico simplesmente tomado de vergonha. É vergonhoso, é um abuso da memória do Holocausto por parte de um Estado que se diz o principal promotor e defensor dessa memória – e que a usa, que a abusa, de uma forma simplesmente vergonhosa.

A segunda coisa, além disso, é que conseguiu usar essa memória, ou o abuso dessa memória, para justificar o injustificável. Se usamos a memória de um genocídio – e o Holocausto foi o maior genocídio moderno, talvez o maior da história – para justificar um genocídio, então colocamo-nos numa posição muito estranha.

A minha conclusão é que Israel esgotou por completo o crédito para alguma vez voltar a invocar o Holocausto. Porque, se o invocamos para justificar violência contra outros a esta escala – matar dezenas de milhares de pessoas, destruir toda a Faixa de Gaza –, então deixamos de ter o direito, e não nos deve voltar a ser concedido o direito, de usar e abusar da memória do Holocausto para justificar a violência.

Dedicou o início da sua carreira à “barbarização da guerra”, como soldados alemães comuns se tornaram assassinos. Até onde pode levar esse paralelo com as Forças de Defesa de Israel em Gaza?

Sou historiador e, como historiador, uso analogias e comparações. É o que os historiadores fazem. Caso contrário, se olharmos para um acontecimento isolado, nos seus próprios termos, não compreendemos nada. Temos de o ver em relação com outros acontecimentos, em contexto. Nunca quis, e nunca apoiei, comparar o que Israel fez em Gaza com o Holocausto – são acontecimentos muito diferentes. A única coisa que têm em comum é que ambos correspondem à definição de genocídio tal como existe na Convenção sobre o Genocídio de 1948.

No caso dos soldados, a analogia que fiz num ensaio que escrevi no verão de 2024, e que depois revi e incluí no livro, é entre a mentalidade dos soldados, de jovens homens e mulheres, quando vão para a guerra e cometem crimes. Porque é que o fazem? Qual é o mecanismo que o torna possível?

Quando me encontrei e conversei com reservistas israelitas, estudantes universitários, fiquei impressionado com as semelhanças. Estes jovens que conheci em 2024 apresentavam-se como vítimas, como seres humanos decentes que defendiam o seu país e não tinham outra escolha senão destruir outro país, outra região, outro povo – e, ao mesmo tempo, tentavam apresentar-se a si próprios, e a mim, como vítimas inocentes. Diziam que não eram assassinos, que eram decentes, que alimentavam crianças com fome e usavam os seus kits médicos para tratar crianças feridas. E, simultaneamente, diziam que não tinham outra opção senão destruir Gaza, porque de outro modo haveria um genocídio de Israel – que estavam a proteger Israel de um genocídio. Por parte de quem? De umas poucas dezenas de milhares de militantes ligeiramente armados.

Essa mentalidade – ver a destruição que o nosso próprio exército provocou e dizer que não somos responsáveis por ela, mas que a responsabilidade é do inimigo; “se matámos 20 mil crianças, a culpa não é nossa, é do Hamas” – é muito semelhante à que vi entre os soldados alemães na II Guerra Mundial, na União Soviética, que atribuíam os seus próprios crimes ao “judeu-bolchevismo”, aos judeus e aos bolcheviques que, nas suas cabeças, eram exatamente a mesma coisa, eram sinónimos.

É esse o mecanismo que me interessa, e é um mecanismo que não começou a 7 de outubro: remonta a décadas. Foi identificado, não por mim, mas por um dos meus professores, Yehuda Elkana, já em 1988, quando escreveu sobre a primeira Intifada e sobre como a educação israelita de jovens, com esta ênfase excessiva no Holocausto, dava licença para a violência. O sentido de vitimização dá-nos licença para vitimizar os outros.

Situa agora o seu ponto de viragem em maio de 2024 e na destruição de Rafah. O que exatamente fez transpor a linha: os factos no terreno ou o seu limiar de prova?

Foram os factos no terreno. Escrevi no início de novembro de 2023, no “New York Times”, que tinham sido feitas declarações por líderes políticos e militares israelitas que pareciam ter um conteúdo genocida. Mas o argumento, na altura – logo a seguir a declarações feitas no calor do momento, depois daquilo que o Hamas fez, que foi um crime de guerra e um crime contra a humanidade, o massacre de civis –, quatro semanas após o início da campanha de Israel em Gaza, que já matara dez mil pessoas, na maioria civis, foi este: há indícios de crimes de guerra e de crimes contra a humanidade, e receio que isto se torne genocídio se não for travado.

Não foi travado. E, em maio de 2024, quando as Forças de Defesa de Israel entraram em Rafah e retiraram de lá um milhão de pessoas – que tinham sido deslocadas para ali pelas próprias forças israelitas, que depois demoliram as suas casas –, olhei para trás, para o padrão das operações. O padrão de operações de outubro a maio-junho de 2024 mostrava que se tratava de uma operação de destruição deliberada de tudo o que existia em Gaza: casas, escolas, universidades, mesquitas, estações de tratamento de água, centrais elétricas, terra agrícola, tudo – e cujo objetivo era tornar Gaza inabitável para a sua população.

O padrão de operações respondia às declarações que tinham sido feitas por aqueles líderes – ou seja, mostrava intenção. E o Tribunal Internacional de Justiça determinou que a intenção pode ser demonstrada quer por declarações, quer pelo padrão de operações – e, no caso de Israel, ambos se verificaram. Isso não me deixou, nem a mim nem, em seguida, a muitos outros estudiosos do genocídio e do direito internacional, outra escolha senão dizer: então, o que é que Israel está a fazer? É uma operação genocida.

A minha interpretação é que o objetivo do Governo israelita, depois de sair do choque do 7 de outubro – que mostrou que a sua política anterior, de “gerir a ocupação”, tinha rebentado –, foi resolver esta questão através da limpeza étnica, isto é, retirar de Gaza toda a sua população. O padrão de operações mostrava-o: tentavam empurrar a população para a fronteira egípcia, na esperança de que finalmente fosse autorizada a entrar no Egito ou em qualquer outro país – como foi dito em 2025, “não têm casas para onde voltar, o nosso único problema é encontrar um país que os receba”. Mas nenhum país os recebeu, e por boas razões, e o Egito não abriu as fronteiras. Assim, uma operação concebida como limpeza étnica tornou-se, como muitos genocídios anteriores, uma operação genocida.

Aplica “genocida” a Israel na qualidade de alguém que passou a vida inteira a estudar o significado dessa palavra. Ao fazê-lo, não corre o risco de fazer colapsar a distância entre Gaza e a Shoah?

Não, não creio. Durante 25 anos dei uma cadeira chamada “Genocídio Moderno e Outros Crimes contra a Humanidade”. Nessa cadeira ensinei muitos genocídios: o genocídio no Sudoeste Africano Alemão [atual Namíbia], o dos arménios, o dos judeus, o do Camboja, o do Ruanda, o da Bósnia. Todos foram genocídios.

Falar de outros genocídios não diminui a escala do Holocausto. O Holocausto foi um genocídio – particularmente vasto, bem organizado, à escala de um continente –, mas houve muitos outros. E, quando falamos de genocídio, nunca devemos dizer “se não se parece com o Holocausto, não é genocídio”. Devemos perguntar: corresponde à única definição que importa, pelo menos em direito internacional, que é a definição de genocídio da Convenção para a Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio de 1948? É a única definição que importa.

Se tentarmos comparar outros genocídios com o Holocausto, nenhum se aproxima da sua escala. Isso significa que, ao chamar-lhe genocídio, estamos a diminuir a importância do Holocausto? Não. Estamos apenas a dizer que, na sequência do Holocausto, a comunidade internacional se reuniu – muito por iniciativa de Raphael Lemkin, o homem que cunhou o termo – e acordou uma definição desse crime. É um crime importante de reconhecer e de punir. Mas, se esperarmos que tal crime atinja as dimensões do Holocausto, então permitiremos que muitos governos delinquentes, incluindo o de Israel, fiquem impunes.

Situa as raízes da situação atual em 1948, mas, para a maioria dos israelitas, o 7 de outubro foi a rutura que explica tudo o que veio depois. Tratar o massacre como sintoma de uma doença mais antiga não corre o risco de o minimizar?

Pelo contrário. O problema é que, em Israel, o 7 de outubro é visto como um “deus ex machina”, como se tivesse vindo do nada. É precisamente esse o problema.

Em agosto de 2023, dois meses antes do ataque do Hamas, eu e um conjunto de colegas publicámos uma espécie de manifesto a que chamámos “o elefante na sala”. Tinha que ver com as grandes manifestações que então ocorriam em Israel contra a reforma judicial, o golpe judicial que o Governo israelita tentava – e ainda tenta – pôr em prática, e que mudará a natureza da política israelita. Dissemos, na altura: apreciamos imenso estes protestos em massa, mas a questão central da política israelita é a ocupação, e as centenas de milhares de israelitas que saíram à rua para protestar contra o golpe judicial não estão dispostas a falar da ocupação. A ocupação está no centro.

Se compreendermos que o problema de Israel, desde 1948, é a relação entre judeus e palestinianos, então compreenderemos o seguinte: há sete milhões de cada lado, entre o rio e o mar – sete milhões de judeus e sete milhões de palestinianos. Se ocupamos, oprimimos e desumanizamos outro grupo do mesmo tamanho que o nosso, se mandamos nele, o humilhamos, o matamos, acabaremos por provocar uma resposta. E a resposta, como aconteceu em muitos casos de colonialismo – e Portugal também tem uma história particular nesse aspeto –, será muitas vezes brutal, incluirá massacres. E então dizemos: “agora sabemos que são selvagens, e é por isso que temos de exterminar os brutos”, como escreve Joseph Conrad em “Coração das Trevas”.

A origem do problema não é o 7 de outubro, nem qualquer ataque palestiniano anterior – e houve ataques, houve atentados suicidas, morreram muitos civis israelitas inocentes. O cerne do problema é a ocupação: Israel quer o território, todo ele, e não quer as pessoas que ali vivem. Ou quer retirá-las, ou quer mantê-las numa jaula. E, quando se faz isso, é isto que acontece. A leitura israelita disto, e aquilo que Israel tenta vender ao mundo – que tudo isto mostra que não tem alternativa senão obliterar completamente Gaza –, é algo que não se deve aceitar, e que é uma fórmula para violência sem fim. A única forma de pôr termo à violência é regressar à política. Como se diz em Israel: se a violência não resulta, usa-se mais.

Consegue manter o crime do Hamas e a resposta de Israel num mesmo enquadramento moral sem os equiparar?

Crimes são crimes. O que o Hamas fez, a morte de civis, é um crime. Gostaria que os responsáveis do Hamas na altura ainda estivessem vivos, para poderem ser levados a tribunal. Aliás, o Tribunal Penal Internacional emitiu mandados de detenção contra dois líderes do Hamas, mas Israel matou-os, como é seu costume – é a justiça à maneira israelita. Foram, claro, crimes. Mas o facto de se cometerem crimes não significa que não se tenha o direito de resistir – tal como Israel tem o direito de se defender, mas não tem o direito de matar 70 mil civis. Isso não tem o direito de fazer.

Identificar os crimes de um dos lados não alivia a responsabilidade do outro pelos seus próprios crimes. Crimes são crimes, genocídio é genocídio, crimes de guerra são crimes de guerra. Mas é preciso identificar, primeiro, onde reside a responsabilidade principal e, segundo, como garantir que tais acontecimentos não se repetem.

A lógica política israelita, há muito tempo, é esta: não conseguimos resolver esta questão com os palestinianos, temos de gerir o conflito. Netanyahu, há pelo menos quinze anos, quis que o Hamas se mantivesse no poder em Gaza. Canalizou dinheiro do Catar para Gaza, que só chegava porque era entregue pelos próprios israelitas, porque queria poder dizer que o Hamas estava no poder ali, e que, portanto, não havia alternativa senão fechá-los atrás de uma vedação de milhões e mantê-los enjaulados – “não há com quem falar”. Essa política rebentou a 7 de outubro. Mas, de muitas maneiras, é ainda o que Netanyahu tenta fazer até hoje: “temos simplesmente de continuar a reprimi-los ou a expulsá-los”.

E a razão de fundo é que não só Netanyahu, sejamos francos, mas também governos israelitas anteriores, incluindo trabalhistas, quiseram, em geral, o território sem o outro povo. Levi Eshkol, primeiro-ministro em 1967, quando Israel ocupou a Cisjordânia, disse que Israel queria a noiva mas não o dote – ou seja, o território mas não o povo. Mas pessoas como Eshkol não eram tão sanguinárias como gente como Menachem Begin [também primeiro-ministro]: percebiam que havia um problema, não sabiam como resolvê-lo, queriam o território e não o povo, e falavam então de uma “ocupação esclarecida”, que nunca existiu e é impossível por definição.

Os que estão hoje no poder em Israel falam abertamente em “incentivar” os palestinianos a sair. E isto não é só em Gaza, é também na Cisjordânia, onde há violência maciça. O Governo israelita tenta provocar uma intifada. Se uma intifada acabar por acontecer, será o melhor pretexto para uma grande limpeza étnica na Cisjordânia, à mesma escala de Gaza. E tornar-se-á genocida, porque os palestinianos não vão sair – e é muitas vezes assim que a limpeza étnica se torna genocídio: as pessoas não podem ou não querem sair, não têm para onde ir ou não querem deixar as suas casas, e então começa-se a matá-las em grande escala. É isto que está no cerne da questão. E tentar contorná-la dizendo “mas vejam o que o Hamas fez a 7 de outubro”… o que o Hamas fez a 7 de outubro conduziu ao que Israel fez em Gaza, que foi genocídio.

É considerado traidor por alguns israelitas e aclamado por pessoas cujo antissionismo não partilha. O que lhe custou pessoalmente chegar a esta conclusão?

Não sei bem, francamente. As pessoas que cortam relações connosco normalmente não nos dizem. Não vou a Israel desde dezembro de 2024. Quanto ao que mais me importa, que são os amigos em Israel, não sei ao certo. Sei de algumas pessoas que me transmitiram indiretamente que estão muito incomodadas comigo; sei de outras que concordam inteiramente comigo, também em Israel. Mas, em geral, não sei, e não penso muito nisso, porque não estou a tentar fazer amigos nem a romper com eles. Estou apenas a tentar explicar, a mim e aos outros, aquilo que vejo. E acho-o importante, porque houve tanto medo, intimidação, ofuscação e ignorância a confundir todo o debate. Estou só a tentar dissipar o nevoeiro, e isso deixa algumas pessoas desconfortáveis – não posso fazer nada quanto a isso.

Quanto a públicos mais vastos, recebi muitas mensagens a chamar-me “kapo”, judeu que se odeia a si próprio, antissemita, ou qualquer outro disparate que me queiram atribuir. Mas recebi muito mais respostas de pessoas que, na verdade, me agradecem por tentar explicar com clareza o que está a acontecer e quais são as raízes mais profundas. Estou grato por várias editoras me terem dado essa oportunidade, incluindo a minha editora em Portugal. Vivo parte do ano em Portugal, por isso fiquei muito contente por ver o livro sair em português.

Não me interessa atribuir culpas, dizer “o sionismo é terrível” ou “os palestinianos são horríveis” – não é o meu estilo nem o meu objetivo. Não penso que o sionismo fosse genocida desde o início. Os meus avós, que vieram da Polónia, não tinham qualquer intenção genocida, e o facto de terem vindo da Polónia para a Palestina é a razão por que eu nasci – de outro modo, nunca teria nascido. Mas aquilo em que o sionismo se transformou tornou-se uma ideologia que justificou um genocídio, e uma ideologia que justifica o genocídio não pode permanecer: tem de ser removida.

Isso não significa que o Estado de Israel não permaneça. Israel está cá para durar, a menos que se suicide. É reconhecido internacionalmente, tem várias gerações de pessoas que ali nasceram, é um Estado forte, embora se esteja a enfraquecer a si próprio. O principal inimigo do Estado de Israel é o seu próprio Governo. O perigo para Israel é o que está a fazer a si mesmo. O Estado vai permanecer, a questão é que tipo de Estado será. Com o sionismo como ideologia de Estado – uma ideologia que justificou um genocídio –, não pode tornar-se um Estado normal. Tem de se despojar dessa ideologia e redefinir-se como um Estado de cidadãos, que respeite todas as pessoas sob o seu domínio e lhes dê direitos e dignidade iguais.

Mas continua a não se assumir como antissionista, pois não?

Não, e por duas razões. Tive este debate com Gideon Levy [jornalista e autor israelita], de quem gosto e que respeito. Crescemos no mesmo bairro. Mas nunca estive tão próximo da máquina partidária israelita como Levy, que trabalhou para Shimon Peres [que foi primeiro-ministro e Presidente de Israel] e foi, nos seus anos mais jovens, um apparatchik do Partido Trabalhista. Nunca tive essa experiência.

A primeira razão é que não gosto de ideologias do “anti”. Ser antissionista não diz nada sobre quem se é, significa apenas que se é contra o sionismo. Mas a favor de quê? Qual é a sua ideologia? Uma ideologia do “anti” – antissionismo, antissemitismo – é apenas uma posição negativa, e as pessoas usam-na agora como uma espécie de medalha, sem pensar muito a fundo. Há jovens judeus na América que se tornaram antissionistas sem nunca terem pensado a sério no que significa ser sionista ou antissionista. É uma posição muito plana e irrefletida.

A segunda razão é a que referi quando falei disto com Levy: se ser antissionista significa estar contra a reivindicação fundamental do sionismo – a de que os judeus têm direito à autodeterminação –, então é preciso ser-se coerente. Se se acha que só os judeus não têm esse direito, mas as outras nações têm, então simplesmente não se está a ser coerente. Mas, se se quer ser coerente e se diz que os judeus não têm esse direito, então não vejo por que razão os palestinianos, ou seja quem for – portugueses, franceses –, o haveriam de ter.

Não sou um grande apoiante do nacionalismo. Acho que o nacionalismo provocou uma enorme destruição. Mas é o estado das coisas no mundo de hoje, e é melhor ser-se cidadão de um Estado do que apátrida, como os judeus descobriram e os palestinianos bem sabem. Nesse sentido, não posso dizer que os judeus não tenham o direito à autodeterminação.

O que posso dizer é que o sionismo, hoje, não é defensável. Tornou-se uma ideologia de Estado que apoia e justifica o genocídio. Se alguém vive em Nova Iorque, em Washington ou em Lisboa e se considera sionista, muito bem, fica-lhe bem. Mas, em Israel, apoiar uma ideologia de Estado sionista é apoiar uma ideologia que sustenta e justifica um genocídio – e isso não pode manter-se. Essa ideologia de Estado tem de ser atirada para o caixote do lixo da História.

Argumenta que a mudança não pode vir de dentro de Israel, apenas de pressão externa, e adverte que se está a tornar um Estado pária. O que deveria a Europa fazer, concretamente, que não está a fazer?

Sanções. A comunidade internacional, mas sobretudo, no que toca a Israel, a Europa e os Estados Unidos têm de aplicar um regime de sanções militares, económicas e políticas a Israel. Não para o castigar – embora Israel precise de ser castigado –, mas para o salvar de si próprio, porque está a despenhar-se no abismo. Israel está a tornar-se rapidamente um Estado pária, um Estado autoritário, um Estado onde não há Estado de direito, onde o Supremo Tribunal, a polícia, todo o aparelho judicial se está a desmoronar. A polícia tornou-se uma milícia do ministro da Segurança Nacional, como ele próprio se intitula.

Se quisermos salvar Israel de si mesmo, dos seus demónios, dos demónios que o dominaram, é preciso pô-lo no seu lugar. Israel gozou, graças aos seus aliados europeus e aos Estados Unidos, de total impunidade. Cometeu um genocídio e não pagou qualquer preço. E esse genocídio está a destruir, claro, dezenas de milhares de vidas palestinianas, mas está também a destruir o próprio Estado de Israel.

Por isso, se o quisermos ajudar, é preciso aplicar-lhe uma terapia de choque, e essa terapia de choque tem de ser um regime de sanções orientado para uma mudança de todo o paradigma político entre Israel e os palestinianos. É preciso voltar a 1948 e redefinir o Estado como um Estado de todos os seus cidadãos – da maneira como os sete milhões de judeus e os sete milhões de palestinianos quiserem defini-lo. Não lhes vou dizer como fazê-lo; há planos muito bons, escrevo sobre alguns no meu livro, mas isso é com eles. O que tem de parar é a ideia israelita de que se usa cada vez mais violência para conseguir o que se quer – violência financiada, protegida e aplicada pela Europa e pelos Estados Unidos.

E o que pode um leitor europeu retirar deste livro que um americano talvez não retire?

É uma pergunta interessante. Há uma diferença entre a relação de Israel com a Europa e a relação de Israel com os Estados Unidos. Penso que, na Europa, persiste ainda mais um sentimento de culpa, vergonha e responsabilidade por causa do Holocausto, e a ideia, em muitos países europeus – certamente na Alemanha, e até certo ponto em França e noutros –, de que, como disse a chanceler Angela Merkel, a razão de Estado da Alemanha, e por implicação da Europa, é proteger Israel, por causa do Holocausto.

A minha interpretação é que a razão de Estado da Alemanha, ou de outros europeus, tem de ser não proteger Israel faça ele o que fizer, mas proteger o regime de direito internacional que foi criado depois da guerra para tentar impedir que horrores como os infligidos pelos nazis voltassem a acontecer – mesmo que esses crimes sejam cometidos pelo Estado judaico. E se a Alemanha e a Europa têm uma responsabilidade para com Israel, e penso que têm alguma, essa responsabilidade tem de ser exercida não dando a Israel licença para a violência, mas ajudando-o a mudar, a tornar-se um Estado que seja bom para todas as pessoas sob o seu controlo.

Israel é hoje um único Estado, do rio ao mar, com pessoas a viver sob regimes diferentes. Foi por isso que se transformou, no fundo, num Estado de apartheid – e tem de ser ajudado a sair desse estado, que é mau para os palestinianos e mau para os judeus israelitas. Os Estados Unidos são um caso um pouco diferente, porque ali Israel tornou-se também um instrumento central da política americana no Médio Oriente. A minha sensação é que a mudança na opinião pública nos Estados Unidos tem sido bastante profunda, e provavelmente refletir-se-á nas políticas da próxima administração – não apenas em sentimentos sobre Israel, mas na perceção de que Israel pode não ser o melhor aliado para os Estados Unidos na sua própria estratégia no Médio Oriente. E isso deve-se muito às políticas de Netanyahu.

Há académicos e juristas sérios que contestam a sua conclusão. E se estiver errado quanto à palavra “genocídio”? Que prova o faria reconsiderar o seu uso?

É uma boa pergunta. Primeiro, penso que, quando escrevi aquilo pela primeira vez, em agosto de 2024, talvez estivesse em minoria. Agora já não creio que seja o caso; penso que há, de facto, um consenso crescente. Diria que a maioria dos estudiosos do genocídio e do direito internacional considera que isto é um genocídio.

Será que alguma vez teremos a certeza? Sabemos que o Tribunal Internacional de Justiça vai pronunciar-se. Não sei como decidirá. Se o Tribunal decidir que isto não foi genocídio, teremos de o aceitar – porque, se aceitamos a autoridade do Tribunal, então temos de aceitar que se o mais alto tribunal diz que não foi, não foi. É possível que decida algo intermédio, como o Tribunal Penal Internacional para a ex-Jugoslávia fez em relação à Bósnia: que houve casos de genocídio, mas não na totalidade. Não sei ao certo.

Mas, neste momento, a principal preocupação que devemos ter não é se haverá provas em contrário – quem me dera que houvesse –, mas sim como garantir que este acontecimento, que está em curso e não terminou, encontre algum tipo de resolução e de punição para quem o levou a cabo, de modo a que a impunidade de que Israel gozou não seja, pelo menos, permanente.

Ao título original (“Israel: What went wrong?”) a edição portuguesa acrescenta-lhe “com o meu país”. Escreve sobre Israel há cerca de uma década. O que torna este livro diferente? E o que mudou com os ataques do Hamas de 7 de outubro de 2023?

Leitura recomendada por Francisco Melro no seguimento da publicação do artigo ERA UMA VEZ NAS ARÁBIAS da sua autoria – Para aprofundamento do tema.

Foto de destaque | Bildungsstätte Anne Frank |

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  • Criação: 22 de setembro de 2022
  • Carregamento: 21 de fevereiro de 202
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