Antes de nascer… a marca escrita da minha conceção
CONTADORES DE HISTÓRIAS – A literacia da minha vida [1]

por Lucília Salgado
Sempre assisti à história de ver uma data escrita, por baixo de um quadro que estava numa parede lá de casa. Os meus pais, olhavam e riam-se muito. Por vezes abraçavam-se. Por vezes olhavam para mim. E eu não entendia nada.
Segundo parece os meus pais teriam muita vontade de ter uma criança, mas, a vida não lhes permitia. Um filho era muita despesa, a casa era muito pequena. Tinha uma escada que seria muito perigosa para a criança…
Até que um dia, o meu pai estava à janela e, numa janela em frente, estava uma menina (Alice) com quem o meu pai gostava muito de brincar. Diziam coisas e a menina ria-se. O meu pai gostava muito dessa criança, segundo parece, de todas as crianças.
Nesse dia, aí pelas 10h da manhã, o meu pai saiu da janela onde esteve a brincar com a Alicinha, puxou pela minha mãe… e teriam mesmo feito uma menina.
Souberam-no 9 meses depois, num dia 1 de março de 1950 em que, algures em Lisboa, eu nasci.
Mais tarde, percebi então o que estava escrito por baixo do quadro que fazia rir os meus pais: 4 de junho de 1949, 10h da manhã.
A minha “presença” foi logo marcada pela escrita, documento útil para assinalar a minha existência. Dizendo-me que não nasci por acaso, sem querer, que fui feita por os meus pais desejarem muito uma menina. Tiveram sorte… e eu também!
Imagem de destaque – Janela – © CVR – NSF