6 de Julho, 2026

CONTADORES DE HISTÓRIAS – A literacia da minha vida [4]

por Lucília Salgado

Andava muito de carro elétrico, com a minha mãe e ia perguntando tudo o que via escrito. Nesse tempo, ainda as ruas não eram tão inundadas por anúncio escritos.

A minha mãe lia-me o que eu ia perguntando e tinha direito a todos os anúncios que por ali passavam.

Também lia as recomendações aos passageiros “Quem conversa com o Guarda-Freio torna-se moralmente responsável pelos desastres…”. E ia perguntando o significado das palavras a que a minha mãe respondia. Por exemplo: O que é um “Guarda-Freio”? É o condutor do elétrico. Sim. Mas porque é que se lhe chama “guarda-freio”. E lá vinha a história antiga do tempo emqueOs freios eram elementos fundamentais na equitação, pois permitem a comunicação entre o cavaleiro e o cavalo. A sua origem remonta à Antiguidade, quando os povos nómadas utilizavam rédeas para controlar os seus cavalos. No entanto, foi com a evolução da equitação que os freios e embocaduras se tornaram mais complexos e eficazes

Também perguntava o que estava escrito no bilhete de que muitas pessoas ainda se lembrarão: “Conserve este bilhete. Incluído o imposto de sê-lo”. E porque estava lá um tracinho no meio da última palavra? Lembro-me que a minha mãe não me soube explicar, e, para dizer a verdade, ainda hoje não sei, sobretudo quando o imposto de selo é uma prática tão corrente e também não se escreve com tracinho. Nunca imaginaria que fosse mesmo um erro, nem, decerto, saberia o que isso era.

Apanhava o elétrico na Rua Leão de Oliveira e esta terá sido uma das primeiras palavras que eu li. Pensava que era estranho porque não me parecia nada um leão, nem uma oliveira. E o que faria o leão ao pé da oliveira? Que estranho.

Mas quando apanhava o elétrico na Av. 24 de Julho, intrigava-me também pelas palavras escritas. Quando esperamos um transporte estamos sempre a tentar ler, ao longe, esperando que seja o próximo. O que eu esperava, deveria dizer AJUDA. Esta palavra era igual no princípio e no fim. Assim, eu sabia que BELEM não era e ALGES também não. E ALCANTARA, também era igual no princípio e no fim, mas eram muitas letras e apertadinhas. O que eu não conseguia perceber era a razão por que BOA-HORA era tão diferente se era o sítio que ficava mais perto da AJUDA!

Foto – Elétrico 18 @Carris

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