Os seres estranhos da discórdia
CONTADORES DE HISTÓRIAS – Literacia da minha vida [2]

por Lucília Salgado
Lembro-me, que os meus pais liam muito.
O meu pai tinha feito o exame da quarta classe (escolaridade obrigatória). Era quase considerado um intelectual uma vez que era raro, nas aldeias, as pessoas terem a escolaridade completa.
Já a minha mãe não tivera a mesma sorte. Andava na escola, aprendia muito bem, mas no fim da segunda classe, tiraram-na para ir trabalhar para uma aldeia, até longito da sua, para casa duma senhora que precisava de uma rapariga. Sabia ler, mas… não chegou.
A minha mãe conta que, por volta dos seus 20 anos, descobriu que já lia com muita dificuldade. Aí ficou envergonhada dizendo “eu já não sei ler!”. Então começou a fazer um esforço e a ler tudo o que lhe surgia ou que, deliberadamente, encontrava.
O meu pai lia sempre o “Diário de Notícias”. O meu vizinho do lado, lia “O Século”. Cada um deles afirmava que o seu jornal era o melhor. Então um jornal não dava as notícias que aconteciam cada dia? Então, e se as notícias eram as mesmas, como é que podia haver um jornal melhor do que o outro?
Os meus pais, todas as noites, acabavam por dormir tarde porque passavam muitas horas a ler. Liam até bastante e, no dia seguinte, toca a levantar cedo para ir trabalhar…
No dia seguinte, por vezes, não tínhamos luz à noite. Vivamos numa casa que não tinha eletricidade e tinham de se usar candeeiros a petróleo.
Então começavam a discutir e a culpa era sempre de uns indivíduos estranhos que eu não sabia quem eram: “os capítulos”. Só ouvia dizerem “capítulos”, “capítulos” …
Mais tarde percebi que a conversa seria qualquer coisa, como… “Sim eu só estava a acabar um capítulo e depois tu também não paraste”. “Sim, é porque, entretanto, eu também tinha começado um capítulo e queria terminar…” e continuavam esta discussão e eu ficava sem perceber que seres seriam esses que provocavam, entre eles, tanta zanga…
Imagem de destaque – Capa O Século [excerto] abril de 1960