Sabia ler!
CONTADORES DE HISTÓRIAS – A literacia da minha vida [5]

Por Lucília Salgado
Um dia, tinha eu quatro anos e meio, estaria muito doente, e, no consultório, esperávamos pela minha vez.
Havia em cima da mesa, uma revista com uma história em banda desenhada e pedi à minha mãe para ma ler. Coitada, estava tão preocupada com a minha doença, que se desculpou por não mo fazer.
Já de volta a casa, contei a tal história à minha mãe, que não queria acreditar. No dia a seguir, de novo no consultório, foi confirmar que muito do que eu dissera, tirara mesmo da história, e tinha mesmo de ter sido lida. Só as imagens não permitiriam aquelas informações.
Expliquei à minha mãe como fizera como, reconhecendo uma palavra, chegava às outras, etc., etc.
A minha mãe percebeu que eu sabia ler. É interessante porque eu não conhecia as letras e nem sequer as juntava. Digamos que lia globalmente. De facto, hoje posso dizer que aprendera a ler como uma criança aprende a falar. Mais tarde, na escola, na primeira classe, aprendi então aquele jogo engraçado de juntar letras e descobrir palavras, mas rapidamente me cansei e passei a ler o texto com a minha velocidade normal.
A minha mãe, passou então a comprar-me, semanalmente, um livrinho de histórias, muito pequenino – mais ou menos 7 cm de comprimento! – Que custava três tostões. Tinha de ser. Havia uns da coleção Formiguinha, um bocadinho maiores, mas custavam quatro tostões. Já era muito dinheiro e ela não podia.
Eram livros sem uma única imagem, só texto. Mas adorava a minha coleção que tinha de levar para todo o lado.
Até que um dia, fui para uma colónia de férias onde não se poderia ter nada pessoal (só os sapatos) e, às escondidas, lá levei os meus livrinhos. Orgulhosa, mostrei-os a outras meninas e claro, uma noite, os livros desapareceram-me. Que tristeza tão grande… Não podia entender que me fizessem uma coisa dessas. E claro, os livros nunca mais apareceram…
Imagem de destaque – Coleção Formiguinha – Editorial Infantil Majora