O meu pai disse que gostava que a menina fizesse um Curso
CONTADORES DE HISTÓRIAS – A literacia da minha vida [6]

por Lucília Salgado
O meu pai morreu, com uma doença de pulmões, tinha eu 11 anos. Lembro-me que andava sempre fora, por sanatórios, onde estava muito tempo porque não havia dinheiro para vir a casa. Escrevíamo-nos muito. O correio tinha, então muita importância.
Lembro-me que o meu pai conversava muito com umas vizinhas minhas que andavam na Universidade. Uma foi posteriormente médica e acabaram por me emprestar muito livros “grandes”. Tanto quanto me lembro, seriam, nesse tempo (há 70 anos!), as únicas jovens do meu bairro que estudavam no Ensino Superior.
Fiz exame de admissão ao Liceu e à Escola Técnica. O meu pai disse à minha mãe que gostava muito que a menina fizesse um Curso, que eu fosse estudar. Fui para a Escola Técnica porque alguém teria dito à minha mãe que era mais barato.
Aconteceu algo interessante. No início do ano letivo, o Liceu onde eu fizera o exame, na Junqueira, em Lisboa, procurou um telefone perto da minha casa e quiseram falar com a minha mãe. Disseram que não tinham visto o meu nome entre os novos inscritos no Liceu e que era pena se não fosse estudar, porque teria sido a melhor prova realizada. A minha mãe disse que eu já estava inscrita na Escola Técnica e disseram que tudo bem, ficaram por ali.
Na Escola, eu aprendia com gosto e tinha muito boas notas. No primeiro trimestre fui a única a ir para o Quadro de Honra. Nesse ano, um jornal diário – o Diário Popular – colocou, pela primeira vez, o nome dos alunos no Quadro de Honra e, na minha escola, eu fui a única.
Os professores cumprimentaram-me e foi um grande acontecimento. Vir o nome de uma aluna no Jornal. Na altura, não dei grande importância, mas hoje percebo que foi importante. Depois, continuou a vir, mas outras alunas da escola acompanharam-me. Passamos a ser mais.
Imagem de destaque – DIÁRIO POPULAR 13/06/1960- Ilustração de Stuart de Carvalhais