Fundamentação dos conceitos
EDUCAÇÃO DE ADULTOS – Enquadramento teórico “à literacia da minha via” – histórias contadas na primeira pessoa

Por Lucília Salgado
[Lucília Salgado relata pequenas histórias na rubrica NSF CONTADORES DE HISTÓRIAS dando corpo à ideia-força de “Literacia da minha vida”. Para enquadrar a sua abordagem teórico-prática a autora desenvolve neste texto reflexões sobre alguns conceitos-chave] nota NSF /CVR
Conceito de Literacia
O Estudo Nacional da Literacia, coordenado em Portugal por Ana Benavente & al, ao realizar a pesquisa sobre as competências dos portugueses, vulgarizou, o conceito de Literacia.[1] (Benavente, Rosa, Costa e Ávila, 1996)
Neste texto entende-se Literacia como
A competência que permite extrair o sentido de um texto escrito necessário ao seu quotidiano.
Assim, este conceito, remetia para o texto escrito
Entende-se por literacia a capacidade de processamento, na vida diária (social, profissional e pessoal), de informação escrita de uso corrente contida em materiais impressos vários (textos, documentos, gráficos). Este conceito, atualmente já bastante difundido no nosso vocabulário, define-se por duas características nucleares: a) por permitir a análise da capacidade efetiva de utilização na vida quotidiana das competências de leitura, escrita e cálculo; b) e por remeter para um contínuo de competências que se traduzem em níveis de literacia com graus de dificuldade distintos. 1 A equipa portuguesa foi constituída por quatro investigadores do CIES – Centro de Investigação e Estudos de Sociologia: João Sebastião, Patrícia Ávila, Maria do Carmo Gomes e António Firmino da Costa.
Linguagem e aprendizagem/conhecimento
No IV Congresso Português de Sociologia, através desta definição procura-se colocar o enfoque no uso das competências referidas em detrimento da posse de determinadas credenciais escolares, por se considerar que não é possível estabelecer uma correspondência simples e absoluta entre os níveis de instrução formal de uma população e o seu perfil de literacia. A literacia é desta forma entendida de um modo não estático, ou seja, considera-se que as competências de uma população neste domínio tendem a alterar-se, quer por via da evolução (positiva ou negativa) das capacidades individuais, quer por via da transformação permanente das exigências da própria sociedade. Simultaneamente, pretende-se com este conceito ultrapassar categorizações dicotómicas, como a que opõe alfabetizados e analfabetos, por serem redutoras da diversidade de situações sociais existentes. Nesta perspetiva, não é a iliteracia que se pretende identificar, mas sim o perfil de literacia de uma população, traduzido em níveis que refletem graus diferenciados de competências acionadas em vários contextos.[2]
Este conceito vem ainda esclarecer a questão entre linguagem e pensamento, posteriormente debatida por Chomsky e Piaget 1980. Não é indiferente o que se diz e escreve àquilo que se pensa, que se entende. Por essa razão, o conceito de Literacia veio permitir alargar o conhecimento, esclarecer, aprofundar, muito do saber neste domínio.
Alargamento do conceito de Literacia
No entanto, a linguagem do dia a dia, vulgarizou o conceito de Literacia aplicando-o em outros domínios que não se referiam apenas à leitura e à escrita. Ouvimos hoje falar de literacia da saúde quando se relaciona com as competências na área da saúde. De literacia financeira quando se trata das finanças ou mesmo da relação com o processo produtivo ou económico. E assim, relativamente a outros domínios, quando queremos falar de competências. Sabemos que a competência de leitura e de escrita é fundamental em qualquer área, mas hoje, muito do conhecimento, não se adquire já pelo texto escrito.
À revelia da Sociologia
O estudo dos níveis de escolaridade das pessoas de baixas qualificações escolares tem-se pautado pela sua correlação com os níveis económicos de rendimentos mais baixos da sociedade. Também o estudo nacional dos níveis de literacia da população adulta mostra uma correlação com os mesmos níveis económicos. O meu caso, no entanto, parece ser a exceção que confirma a regra mostrando-se, nessas histórias, a razão por que assim acontece.
[1] A Literacia em Portugal. Resultados de uma Pesquisa Extensiva e Monográfica (Benavente, Rosa, Costa e Ávila, 1996). Esta pesquisa foi realizada no quadro do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa com base num protocolo com o Conselho Nacional de Educação e a Fundação Calouste Gulbenkian. O trabalho de campo foi realizado pelo INE. Seb
[2] Novas análises dos níveis de literacia em Portugal: comparações diacrónicas e internacionais Maria do Carmo Gomes, Patrícia Ávila, João Sebastião e António Firmino da Costa
[3] PIATTELLI-PALMARINI, Maximo. Language and learning: the debate between Jean Piaget and Noam Chomsky, Cambridge: Harvard University Press, 1980. ISBN 0674509412