22 de Outubro, 2026

Quem são, afinal, os verdadeiros arruaceiros?

Portugal e o mundo enfrentam, na actualidade, um maniqueísmo que não víamos desde a ascensão dos regimes totalitários.

Ana Sampaio Monteiro

Problemas muito complexos reduzidos a uma luta estrita entre os bons e os maus, eliminando especificidades e o diálogo democrático.

E explico porquê.

Os valores humanistas consagrados na Carta das Nações Unidas – a protecção dos direitos humanos e as liberdades fundamentais sem distinção de raça, sexo, idioma ou religião – defendidos por amplos sectores da sociedade, são hoje, em determinados discursos, apresentados como perniciosos.

Os seus defensores e praticantes são enquadrados em taxinomias herméticas e vis pelos populistas.

Quem os defende é rotulado acintosamente “extrema-esquerda”, mesmo aquele que é totalmente avesso a extremismos, sejam eles de direita ou de esquerda.

Estamos perante uma estratégia de desqualificação ideológica que procura impor formas de pensamento, conduta e comportamento ultraconservadoras, assentes na crença de que o respeito cego pelas hierarquias, a obediência castradora, a ausência de espírito crítico e a submissão ao establishment constituem virtudes morais universalmente desejáveis.

Tudo isto para preservar privilégios que consideram exclusivamente seus.

Nesta lógica, a LIBERDADE e a DEMOCRACIA deixam de ser valores fundamentais para se transformarem em obstáculos incómodos à manutenção da ordem social.

Propagandeia-se que pensar criticamente é um direito de uma minoria julgada iluminada pela inteligência para determinar os limites do que é permitido questionar.

Portanto, legitimada para governar os restantes.

Aos outros, cabe apenas a disciplina férrea e a obediência passiva.

É neste contexto que se compreendem as práticas coercivas e persecutórias, acompanhadas por uma intensa propaganda, pela limitação do acesso ao conhecimento, destinadas a construir um Estado Novo e a moldar um “HOMEM NOVO”.

As manifestações pacíficas no Porto – passei lá ontem – e em Lisboa não têm qualquer semelhança com a violência explosiva e injustificável da realidade francesa.

No entanto, “comportamentos” pontuais regulares de um número ínfimo de participantes, têm sido transformados em armas de arremesso político pelos neofascistas portugueses.

Com o objectivo de descredibilizar manifestações inteiras, desviando a discussão das suas reivindicações para minudências úteis aos populistas, detentores de um historial público de comportamentos gravíssimos que merecem escrutínio e condenação.

Falo de assédios a menores, de práticas de violência doméstica, de furtos obsessivos, de assaltos a gabinetes alegadamente perpetrados pelos próprios, de colocação abusiva de faixas nas janelas do Parlamento, de invasões de deputadas a rádios universitárias, de linguagem torpe sistematicamente dirigida a deputados – em particular, a mulheres – e a titulares dos mais altos cargos da Nação.

Falo também da presença recorrente desses deputados nas organizações neofascistas e neonazis portuguesas, nas suas exteriorizações violentas e ilegais, nos impropérios e nas agressões contra ciganos e imigrantes, nas humilhações e afrontas a homossexuais e pessoas LGBT, no menosprezo pelas mulheres e nas tentativas de lhes retirar prerrogativas constitucionais político-sociais, como o direito ao sufrágio, nos aplausos ao genocídio em Gaza, nas ovações servis a Donald Trump e a Benjamin Netanyahu.

E, nos últimos dois dias, nos apelos de deputados da Nação: “encostem-nos à parede”, uma expressão que, dirigida a manifestantes, evoca, sem rodeios, a morte, nos discursos de ódio de deputados tão novos e tão repugnantes, na AR: “Carrega PSP em cima deles pela ordem e pela autoridade do Estado”.

Estes manifestantes não precisam de habitação, quando muito, se estão lá, é porque não têm nada para fazer, não se levantam às 5 ou às 6 da manhã. Precisam é de ir tomar banho”.

Autênticas declarações nazis, idem per idem Adolf Hitler…

Afinal, quem promove verdadeiramente o confronto, a intolerância e a desumanização do adversário?

No Porto e ordeiramente, vi estudantes universitários, professoras e trabalhadores altamente qualificados que, apesar de terem condições para emigrar, permanecem em Portugal.

São cidadãos que o Governo deveria valorizar, apoiar e acarinhar, em vez de permitir que a sua participação cívica seja desconsiderada ou ridicularizada.

Vi pessoas de idade avançada confrontadas com ordens de despejo de casas onde vivem há cerca de 30 anos, apesar de cumprirem escrupulosamente as suas obrigações enquanto inquilinos de rendas a rondar os 800 euros.

Não vi armas brancas nem outro tipo de armamento. Não vi manifestantes a chegar em Porsches ou em Ferraris.

Vi mínimos keffiyehs – os lenços palestinianos que tanto parecem incomodar os neofascistas.

E pergunto:

se não existisse um genocídio em Gaza, que estes sectores apoiam incondicionalmente ou relativizam, que outros símbolos escolheriam para desviar a atenção das reivindicações?

As tatuagens?

As rastas?

Os piercings?

A roupa?

Quiçá, os saltos altos de alguém?

Tudo serve para associar os manifestantes à incompetência, à futilidade, ao egoísmo, à preguiça ou à criminalidade.

Tanto por aquilo que defendem, mas também pela aparência que exibem ou pelos símbolos e artefactos que transportam.

A real e temível ameaça para estas corporações autoritárias e desinformadas parece residir no facto de haver pessoas que se recusam a obedecer e que contestam o condicionamento do pensamento e da acção numa sociedade democrática.

Quando os privilégios parecem ameaçados, os ultraconservadores preferem discutir a simbologia dos manifestantes em vez de debater as suas ideias.

É mais fácil ridicularizar um lenço palestiniano do que discutir Gaza.

É mais cómodo chamar preguiçoso a quem protesta do que enfrentar a crise da habitação.

É mais conveniente desqualificar os jovens do que explicar-lhes por que razão trabalhar deixou de ser garantia de autonomia e segurança.

A esta estratégia junta-se uma classificação compulsiva e brutal, entre:

Obediência cega = Aceitação = Miserabildade = Nacionalismo Puro;

e

Valores humanistas = Esquerdalha = Escumalha = Anti-patriotismo.

Assim, se substitui o debate democrático pela caricatura, a argumentação pelo insulto e a análise dos problemas pela fabricação de inimigos.

Termino com um excerto de um artigo publicado, hoje, no Jornal de Notícias de Capicua, uma mulher portuense, que descreve com particular clareza o individualismo e o desprezo dirigidos a quem luta por direitos colectivos:

“Dois rapazes de vinte e poucos anos, debruçados na parte superior da Praça de D. João I, estrategicamente colocados para ver a multidão em manifestação, gritavam “vão trabalhar” enquanto riam gargalhadas de desprezo pelos jovens da mesma idade que resistiam na acampada. Sem pensar, disse-lhes que aqueles corajosos lutavam por eles também, ao que o mais afoito prontamente respondeu: “eu não preciso”. A arrogância daquelas palavras cínicas é a mesma que encontramos aos milhares nas caixas de comentários em todos os posts e notícias sobre a acampada. O “vão trabalhar” que se repete, o desprezo pela iniciativa, o individualismo de quem “não precisa”, no país em que o preço do metro quadrado mais aumentou e em que, por muito que se trabalhe, a renda leva o ordenado.”

Reflictamos:

Infelizmente, pelo que se tem observado, não é apenas a habitação que está em causa, é, desde o aparecimento de um partido incoerente, hipócrita e fascista, a própria democracia portuguesa.

(Texto de Ana Sampaio Monteiro; imagem: Google)

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