Antigua, Semana Santa: uma coreografia social
Os saberes e gestos são repetidos ao longo de gerações e têm de ser respeitados

Por Manuela Matos Monteiro
Não se pode comparar a Semana Santa em Antiqua com qualquer outra porque a cidade inteira mantém durante uma semana, de dia e de noite, um ritual contínuo com procissões enormes a acontecer quase ininterruptamente. Tive educação católica tradicional e a rutura aconteceu por volta dos 16 anos, colocando a questão da riqueza da igreja contemporânea com a fome de tantos. A seguir, foram-se acrescentando outras razões pelo que me defino como agnóstica: a questão de Deus nem se me coloca. Faço esta declaração para perceberem a minha atitude face ao que vivi nestes dias em Antiqua.
Já escrevi que o que acontece aqui é superlativo: milhares e milhares de pessoas a participar ativamente – não meros espectadores – andores imensos a pesar toneladas – um deles 6 toneladas levado por 126 homens que se vão revezando -, procissões enormes em rotação constante de dia e de noite. A manifestação da religiosidade é discreta e contida: não vi pessoas com expressão emocional manifesta, nem a rezar. A multidão observa os andores que passam, em silêncio, não contristado, atentos para confirmar que tudo está conforme. Impressiona-me o sentido de comunidade que mantém milhares de pessoas juntas e organizadas para criar estas encenações – trata-se de representar parte da história de Cristo. A religiosidade não é abstrata, manifesta-se na carga que é literalmente carregada aos ombros de homens e mulheres numa organização exemplar em todos os sentidos. Carregar um andor é um privilégio que se paga e que dá trabalho muito para além da carga do andor: as pessoas candidatam-se, são organizadas pela altura, localizadas no mapa da cidade para entrarem a tempo e horas na mudança das andas. Falhar está fora de questão. Os saberes e gestos são repetidos ao longo de gerações e têm de ser respeitados. O ritmo dos passos é balanceado, pré-definido, o corpo individual dissolve-se no corpo coletivo. O ritual estrutura a vida social, assegura o sentimento de pertença numa narrativa comum, é o que se mantém na efemeridade da vida … Diferentemente de outras celebrações a que já assisti, a cidade não interrompe o quotidiano para celebrar antes transforma o quotidiano em celebração. Assistir a estes acontecimentos fez-me lembrar as aulas de Sociologia em que eu insistia na ideia de Max Weber de “fenómeno social total” de que estas celebrações são um nítido exemplo.Os cucuruchos estão vestidos de roxo e são milhares. Alguns deles levam o andor que tem Cristo como personagem, outros só acompanham em alas laterais certificando-se que tudo corre conforme o previsto.
Depois de passarem os andores de Cristo, segue o da Nª Srª que é transportado por mulheres vestidas de preto com o cabelo coberto por mantas. As bandas de música intermediam com música solene a puxar peso e densidade. As procissões abrem com os soldados romanos a cavalo e apeados.Um elemento importante são as “alfombras” os tapetes de flores, serrim e até de frutos e vegetais. São verdadeiras obras de arte só pisadas pelo andor inaugural. Finda a passagem do último andor, uma equipa de limpeza apressa-se a pôr tudo desimpedido para que um outro tapete possa ser refeito para nova procissão.
O mais extraordinário é que dia e noite há procissões com o mesmo protocolo, a mesma solenidade. Esta militância que não conhece cansaço e os milhares de pessoas que envolve durante 5 dias impressionam.
GALERIA – Fotos © Manuela Matos Monteiro
















