18 de Abril, 2026

O teste “Mandela” no país da mediocridade

freee M

Um país não se salva com compostura. Salva-se quando volta a saber dizer não

Por Tiago Silva

Há países que entram em decadência aos gritos. E há países que se degradam mansamente, de ar condicionado ligado, comentariado em estúdio, maquilhados pela luz do prime time e embalados por uma linguagem de normalidade. O horror, entre nós, raramente chega com botas. Chega penteado, sorridente, moderado no tom, brutal apenas no efeito. Vai-se instalando devagar até já ninguém dar por ele. E um dia acordamos dentro dele como quem acorda numa casa que ainda é a nossa, mas já não reconhece os nossos gestos. Talvez o mais inquietante no Portugal de hoje não seja a violência explícita das coisas, mas a facilidade com que nos habituámos à sua versão respeitável, parlamentar, televisiva. A indecência já não escandaliza. Circula. A ignorância já não envergonha. Comenta. A vulgaridade moral já não é um sintoma; tornou-se uma linguagem corrente de boa parte da vida pública. E isso diz qualquer coisa de fundo sobre o estado coletivo a que chegámos.

Vê-se isso quando uma figura saída da fábrica da celebridade, transformada em consciência popular de horário nobre, fala de uma violação coletiva com aquela mistura obscena de ligeireza, autoconfiança e ignorância moral que só uma cultura profundamente rebaixada consegue premiar. Quase deslocando a culpa para a rapariga violada por quatro homens. Quase sugerindo, com a naturalidade de quem já não distingue violência de comentário, que há sempre na mulher uma espécie de parcela implícita de responsabilidade pela brutalidade que lhe caiu em cima. O problema não é apenas a figura. Nunca é apenas a figura. É o país que a produz, a remunera, a protege, a transforma em referência. É o país que troca pensamento por exposição, densidade por presença, autoridade moral por familiaridade televisiva. E depois chama espontaneidade àquilo que é apenas a longa pedagogia da mediocridade.

A mediocridade, entre nós, deixou de ser um acidente. Tornou-se método. Percebeu-se, há muito, que uma população cansada, esmagada por precariedade material, saturada por ruído e órfã de horizonte reage melhor ao simplismo do que à complexidade.

Por isso o espaço público foi sendo ocupado por vozes cuja utilidade consiste precisamente em reduzir tudo a impulsos primários: medo, sarcasmo, ressentimento, humilhação do outro, desprezo transformado em opinião. O embrutecimento não caiu do céu. Foi fabricado. Foi servido às fatias, entre debates, programas, comentários, telejornais e indignações de superfície, até se tornar ambiente.

É nesse ambiente que a direita portuguesa, com as devidas diferenças entre famílias e sensibilidades, parece hoje mais empenhada em vencer culturalmente do que em governar materialmente. Quer marcar território, não transformar a vida. Reabre batalhas identitárias para não enfrentar urgências sociais. Agita a Constituição como quem ergue uma tocha, enquanto o SNS colapsa em câmara lenta, os jovens desistem de ter casa, a escola pública perde chão, e a crise climática é tratada como fantasia de almas sensíveis. É uma política viril no tom, ruidosa na pose e espantosamente estéril nos resultados.

Luís Montenegro, confrontado com um país em exaustão social, parece demasiadas vezes mais preocupado em administrar equilíbrios internos, proteger-se de fantasmas na sua própria área política e vigiar perceções do que em governar com ideia de país. Há uma forma de poder que já não governa para transformar a vida concreta das pessoas, mas para gerir ruído, consolidar posição, acenar bandeiras e sobreviver dentro da bolha partidária. É esse poder que temos diante de nós. Um poder diligente no acessório, tímido no essencial, musculado na retórica e esquivo perante os conflitos reais.

E ao lado dele, na política externa, Paulo Rangel encarna uma espécie de elegância subalterna que Portugal conhece demasiado bem: a arte de chamar prudência à falta de espinha. Perante a devastação do Médio Oriente, perante a violência exercida em nome da ordem, perante a obscenidade geopolítica de um mundo em que as grandes potências voltaram a falar a linguagem da ameaça, do castigo e da exceção permanente, a posição portuguesa tem sido a da pequena deferência atlântica. Não se diz tudo o que se pensa porque talvez já nem seja preciso pensar. Basta enquadrar. Basta usar o léxico diplomático certo. Basta parecer sensato enquanto se alinha com o essencial.

Vivemos hoje sob a sombra de uma América que se evangelizou na pior aceção do termo: uma potência convencida da sua eleição moral mesmo quando já perdeu a vergonha, os escrúpulos, a ética mínima e até as regras básicas de convivência entre povos. Uma América onde a brutalidade se tornou linguagem legítima do poder, onde a arrogância já nem precisa de se justificar com grandes sistemas filosóficos, onde o império se apresenta de cara lavada, sem a antiga sofisticação do disfarce. E perante isso, a resposta de boa parte da elite europeia, incluindo a portuguesa, é uma mistura de medo, obediência e provincianismo. Ninguém quer ficar fora do círculo dos civilizados. Mesmo quando a civilização já é apenas a retórica que acompanha a força.

É aqui que o teste de Mandela continua a ser útil. Não o Mandela convertido em património consensual, em fotografia escolar, em herói devidamente musealizado. O outro: o preso, o radical, o homem que durante demasiado tempo foi tratado como criminoso pelos guardiões da ordem internacional.

O homem que obrigava os moderados a revelarem-se. Porque a grande pergunta nunca é quem homenageia uma figura histórica depois da vitória. A pergunta é sempre: de que lado teria estado antes? Quando ainda era preciso arriscar alguma coisa. Quando ainda era preciso escolher entre a legalidade do tempo e a justiça contra o tempo. E a verdade é que há demasiadas figuras da direita governante de hoje que dão a sensação de ter nascido exatamente para falhar esse teste. Não porque fossem necessariamente partidárias da infâmia declarada. Mas porque pertencem a essa família moral do homem prudente que chega sempre tarde à justiça. O homem do contexto, do equilíbrio, da complexidade, da nota diplomática, da frase cautelosa, do comunicado muito ponderado. O homem que, diante de uma indignidade histórica, não se compromete com a dignidade; compromete-se com a formulação.

É por isso que me parece legítimo dizê-lo sem excessos: muitos dos que hoje ocupam o centro-direita oficial português provavelmente não estariam do lado da libertação de Mandela enquanto Mandela ainda fosse incómodo. Esperariam. Observariam. Pediriam enquadramento. Falariam das alianças, da estabilidade, da responsabilidade, dos equilíbrios internacionais. E quando finalmente chegassem ao lado certo, chegariam tarde, de gravata direita e memória lavada, prontos para a fotografia.

Este atraso moral permanente empobrece um país. Não apenas porque produz cobardia. Mas porque produz uma cobardia que se apresenta como maturidade. E é talvez esse o traço mais fundo da nossa decadência: a transformação da mediocridade em linguagem de governo, da subserviência em realismo, da falta de imaginação em prudência, da esterilidade política em sobriedade de regime. Entretanto, o país real continua a desfazer-se. A habitação tornou-se um mecanismo de exclusão. A saúde pública sobrevive entre heroísmos exaustos e normalização do colapso. A escola pública vai sendo desgastada até se tornar residual na imaginação das classes médias.

A emergência climática é tratada como excentricidade de gente ansiosa, quando devia ser o centro de qualquer política séria sobre o futuro.

E, no entanto, as bandeiras escolhidas pelo governo são quase sempre de uma pobreza simbólica confrangedora: as guerras culturais importadas, as provocações de catálogo, a necessidade de provar firmeza onde nada se decide e fraqueza onde tudo realmente importa.

O problema não é apenas a direita. O problema é o país que se deixou habituar a tão pouco. Um país onde protestar parece excesso, exigir melhor parece arrogância, pensar estruturalmente parece elitismo. Um país onde a cidadania foi cedendo lugar ao comentário, a indignação ao cansaço, a imaginação coletiva à mera administração de danos. Aos poucos, fomos perdendo o limiar do intolerável. E um país adoece a sério quando já não sabe o que o devia indignar. Talvez seja isso o mais assustador: não vivermos numa sociedade em colapso histérico, mas numa sociedade anestesiada. Um país em modo de espera. Um país onde quase tudo continua a funcionar o suficiente para não haver rutura, mas apodrece o bastante para que a dignidade coletiva se vá retirando sem fazer barulho. Um país que já não espera grandeza de ninguém. Nem visão, nem coragem, nem rasgo. Apenas compostura. Apenas competência verbal. Apenas que a baixeza venha embalada em gravidade institucional. Mas um país não se salva com compostura. Salva-se quando volta a saber dizer não. Não à mediocridade organizada. Não à crueldade que se disfarça de opinião. Não à subserviência travestida de prudência diplomática. Não à política que escolhe como bandeiras as obsessões mais pequenas e decadentes para não enfrentar a vida concreta das pessoas. Não à ideia de que o governo serve para gerir perceções, proteger carreiras e sobreviver ao ciclo seguinte.

No fundo, o teste de Mandela continua a ser o teste do presente. Não serve para medir a nossa generosidade retrospectiva. Serve para perguntar quem, hoje, está disposto a estar à altura do seu tempo e quem apenas o administra.

Quem reconheceria a dignidade de uma causa antes de ela ser confortável. Quem defenderia os vulneráveis antes de isso dar prestígio. Quem escolheria a justiça antes de ela vir homologada pelo império, pelos jornais certos e pelas instituições certas.

E é aqui que o país falha. Falha quando endurece diante dos frágeis e se inclina perante os fortes. Falha quando troca a coluna vertebral pela nota diplomática. Falha quando, perante a habitação, a saúde, a escola pública, a desigualdade e o colapso climático, prefere agitar símbolos, reabrir trincheiras culturais e posar para a sua metade do país. Falha quando aceita ser governado por gente que talvez nunca estivesse à altura de uma hora histórica, porque foi treinada precisamente para a evitar.

No fim, talvez seja essa a pior forma de decadência: não a do ruído, mas a da resignação. Não a da barbárie declarada, mas a da inferioridade aceite. Um país que se habitua a ser governado por quem nunca reconheceria Mandela antes de ele ser Mandela é um país que desistiu de si próprio um pouco antes de o admitir.

Tiago Silva

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