19 de Julho, 2024

O TEATRO COMO TESTEMUNHO DAS MIGRAÇÕES PORTUGUESAS – EXÍLIO(S) 61-74

Texto na sua versão integral | Foi publicado no SEM FRONTEIRAS em 3 partes para maior facilidade de leitura e ilustração, visando uma abordagem mais adequada à leitura online.

de Ricardo Correia

10 de maio de 2021

  • “A história é como um mito, como um espelho onde se pode ler aquilo que foi o passado e aquilo que nos espera” Eduardo Lourenço

Em 2017 escrevi a peça de teatro Exílio(s) 61 -74, estreada numa produção da Casa da Esquina, estrutura de criação e programação sedeada em Coimbra, que dirijo artisticamente desde 2008. Para a construção dessa peça recolhemos testemunhos de quem tinha saído de Portugal entre 1961 a 1974 como: Emigrante, Desertor, Refugiado, Refratário, Exilado. E deparamo-nos com um caminho que nos levou a investigar a fuga como um gesto de protesto e de recusa à Guerra Colonial e ao Fascismo. Um mecanismo de luta, portanto. Tal como a peça Os Horácios e Curiácios de Bertolt Brecht, a fuga como uma estratégia para ganhar fôlego e cansar o inimigo.

Com esta peça tentámos reconstruir essa memória e os seus mecanismos para compreender o presente, os vários ciclos de migrações portuguesas. Mas esta peça só chegou num segundo momento, para falar dela, tenho de recuar uns anos a uma peça que documenta uma migração portuguesa mais recente.

1| ORIGEM

Para mim tudo começou com a peça O Meu País é o Que O Mar Não Quer que nasceu da minha estadia em Londres em 2013. A construção partiu do meu relato autobiográfico, como testemunha dessa vaga de emigração qualificada entre 2011-2015, recorrendo aos testemunhos de emigrantes qualificados, bem como a documentos (fotos, emails, estatísticas, cartas, notícias de jornais, etc.) e evidências desse acontecimento.  Nesta peça / espetáculo (designo-a assim pois no meu caso escrevo – quase – sempre para um espetáculo que vou levar à cena, i.e., a escrita e a cena nascem e crescem, quase sempre, de mãos dadas) desenvolvi uma investigação sobre as razões da saída de Portugal da minha geração. Foram os anos sombrios e austeros da Troika em Portugal. Eu saí como muitos outros, mas não tinha desistido de Portugal. Procurei compreender quais os mecanismos para lutar lá fora sem me desligar do meu País de origem. Era uma peça / espetáculo sobre a história de uma geração que se perguntava se devia mudar o país ou mudar de país.

Mas esta questão não era nova para os portugueses. O Salto português nos anos 60/70 estava bem documentado (sobretudo o económico). E confirmei, no espetáculo O Meu país é o Que o Mar Não Quer, que essa foi uma realidade muito dura para os portugueses. Durante esse espetáculo, numa das cenas perguntava diretamente ao público: Alguém passou pela experiência da emigração? Que razões o levou a sair do país?  

Ouvia as diferentes respostas e depois convidava duas pessoas a subir a palco para contar a sua história. Todos os espetáculos tivemos pessoas que tinham passado pela essa experiência (muitos devido à austeridade nos anos da TROIKA entre 2011-2015 e outros saídos nos anos 60 por motivos económicos e alguns por motivos políticos).

Durante a digressão O Meu país é o Que o Mar Não Quer em Lisboa no Teatro Meridional, duas pessoas, entre outras, levantaram o braço. Eram o Rui Horta (Coreógrafo e programador) e a Eugénia Vasques (Docente e investigadora teatral). Duas pessoas que muito admiro. Convidei-os para o palco. Ambos me contaram a sua experiência. O Rui contou a sua passagem por Nova Iorque, onde criou através da sua residência uma plataforma de circulação de criadores portugueses. A Eugénia, (minha professora na Escola Superior de Teatro e Cinema) contou-me da sua fuga para Paris, com o namorado em 69, consequência das ações na crise académica em Coimbra. Foi neste momento que decidi investigar essa memória, esse ciclo migratório, para saber quem somos, como chegamos até aqui e como isso influencia o que ainda poderemos vir a ser.

As duas peças convocam dois momentos diferentes um entre 2011 e 2015 em que vivíamos numa Democracia, mas muito condicionada pelos ditames financeiros impostos aos países do sul da Europa, e outro momento anterior, que durou o período da Guerra Colonial portuguesa de 1961 a 1974 em plena ditadura. O dramaturgo e encenador Hélder Costa um dos entrevistados para a peça Exílio(s) 61 -74 sintetizou as nossas diferentes migrações: “eu não estive exilado, eu obedeci ao programa Erasmus Salazar. Olha, e a tua geração foi no programa Erasmus Passos.” (2019, p.116)

Estas peças-documentos podem-se enquadrar na denominada dramaturgia do real. Obviamente que, em tempos conturbados, onde a disseminação de fake news, factos alternativos, ficcionados, leva ao ressurgir de um olhar sobre o teatro documental devido à necessidade de nos agarrar aos factos, evidências num mundo global e de incertezas, tal como refere a investigadora teatral, Carol Martin, em Dramaturgy of the Real in the World Stage:

It´s no accident that this kind of theatre [documentary theatre] has reemerged during a period of international crises of war, religion, government, truth, and information. Governments `spins´ the facts in order to tell stories. Theatre spins them right back in order to tell different stories. (2010, p. 23).

Em ambas recorri à ideia do arquivo como um gesto; a recolha de testemunhos e uso da história subjetiva como contraponto à História oficial e ao ator como fiel depositário das memórias de outros. Ao usar testemunhos procurava criar uma miríade de pontos de vista, alguns conflituantes, sobre temas transgeracionais que marcam a identidade portuguesa e ao analisar os movimentos históricos dessas temáticas questionar como o passado podia, ou não, influenciar o nosso futuro.

Como ponto de partida de Exílio(s) 61 -74 lidei com as seguintes questões: O que leva a alguém sair do seu País? Como se luta lá fora quando não nos deixam viver no nosso País? Como se pode perdoar a quem nos deixou sem outra saída? Qual a razão de não falarmos abertamente da recusa à Guerra Colonial? Porque é que enterramos a memória no cimento armado dos condomínios privados ou futuros hotéis em antigas prisões políticas?

            2| O PROCESSO DE CRIAÇÃO

Pesquisa de material e condução de entrevistas.

O trabalho iniciou-se com a pesquisa de material. Num ato de investigar e documentar o tema como processo de investigação e não de mero registo do real. Voltei à casa de partida. Conduzi uma entrevista com a professora Eugénia Vasques, que me indicou o seguinte entrevistado, o Hélder Costa. Depois, durante a pesquisa, entrei em contacto com a associação dos Exilados Políticos Portugueses 61/74 (AEP61/74), e entrevistei o José Torres, Fernando Cardoso, Rui Mota e o Fernando Cardeira. Todas as entrevistas foram registadas sonoramente.

Iniciei sozinho o processo por não existirem garantias de financiamento de levar a cena o projeto. Mas durante o período de investigação conseguimos fixar a equipa artística[i] e garantir a coprodução do TAGV e a participação no festival “Outras vozes, Outras Gentes” da Cooperativa Hermes com vários espetáculos. Ficámos com cinco semanas de trabalho até à estreia[ii].

Apesar do tempo de trabalho ser mínimo, decidimos (uso a 3ª pessoa do plural para dar conta do processo colaborativo) avançar e tornar o processo de pesquisa o mais participado por toda a equipa. Assim fomos em conjunto visitar a antiga Prisão de Peniche, o Museu do Aljube, o Centro de Documentação 25 de abril, e ao longo do processo consultamos vários materiais de apoio[iii]. E, claro voltamos às entrevistas que eu já tinha realizado. Porém tínhamos consciência que ainda nos faltavam ângulos sobre a temática e por isso decidimos conduzir mais entrevistas e transcrevê-las.

Entrevistámos os historiadores Rui Bebiano e Miguel Cardina que nos enquadraram historicamente este período. E entrevistámos militantes do PCP, o Adelino Silva e a Tila Cascais, e por fim, o cidadão José Dias. Haveria muitos mais ainda para entrevistar, o condicionalismo do tempo de criação levou-nos a encerrar esta fase.

3| EDIÇÃO

Foi nesta fase que nos confrontamos com questões de autoria, apropriação e autenticidade. Numa primeira tarefa, coube aos atores transcrever uma ou duas entrevistas e funcionar como um fiel depositário desse testemunho. A apropriação foi feita através desse ato de transcrição. Um ato de tradução dos ritmos, das pausas, da cadência de cada entrevistado para a página do papel. De apropriação da sua história de vida e dos seus pensamentos.

 A tarefa de edição dos testemunhos cabia-me a mim, e seria nesse confronto com o material transcrito que iria originar um olhar sobre o tema. A reescrita é autoria. Como refere João Maria André sobre esta peça “O trabalho de um escritor e de um encenador de teatro documental é um trabalho de curadoria: curador da memória, do tempo, do silêncio e do grito suspenso no rosto diluído da História” (2019, p.173). Entendo a edição como um ato de autoria. Pois em cada momento tenho de fazer escolhas. Decisões sobre o material. O que fica? O que sai? Como manter a fidelidade do testemunho e condensá-lo em 3 minutos? E este trabalho é mais próximo do teatro ficcional do que pode parecer. Tal como refere Carol Marti em Dramaturgy of the Real in the World Stage: “Documentary theatre creates its own aesthetic imaginaries while claiming a special factual legitimacy.” (2010, p.18)

Deste modo, a autenticidade resulta do confronto entre a fidelidade dos testemunhos com o processo de seleção, edição e organização desse material numa forma dramática suficientemente articulada que permita que o texto seja mais do que uma colagem de testemunhos ou uma exposição de estatísticas e factos. Daí que em Exílio(s) 61-74 tentei estruturar o texto de forma fractal, com várias dimensões e pontos de vista sobre o tema, para que na sua devolução à comunidade (as pessoas que deram o seu testemunho) se sentissem identificadas e representadas. Como refere Robin Soans,

Never forget it´s someone´s life (..) But do i ever cheat? Is there a tension between being truthful to the interviewees and creating something that i know is going to work theatrically? The answer is yes – but not a lot(2008, p. 41)

Na verdade, usar as vozes dos entrevistados, ainda que de forma editada permitia a democratização dessas narrativas, mais marginalizadas, sobre o tema e concorria para um olhar do fenómeno da emigração através de uma poética do quotidiano.  

Neste processo de edição comecei a usar o coro cruzando a história subjetiva (micronarrativas) com a linha do tempo da história oficial para avançar a cronologia da saída de Portugal. Quase sempre tendo como destino Paris.

Por isto tudo, várias questões de ética contaminam este processo:  Como editar os testemunhos e usar a voz de outra pessoa no espetáculo? Que tipo de representação exige um projeto desta natureza? Quais as expectativas das pessoas entrevistadas a ver o espetáculo?

            4| DO TEXTO À CENA

O Ator como fiel depositário dos testemunhos.

Por norma, tentei atribuir cada testemunho a um dos atores que tinha ouvido a entrevista e transcrito a mesma. O trabalho do ator foi entendido como um veículo das palavras das pessoas que nos testemunharam a sua experiência de vida. O trabalho do ator foi sempre descobrir o ritmo, timbre e débito do testemunho e com isso, apresentar em vez de representar a pessoa. Decidimos para tornar mais transparente o ato de montagem, contar a nossa experiência de construção do espetáculo e relação com os testemunhos e sua apropriação. Questionando sempre, como indica o título da cena de abertura. Título roubado a uma canção de Sérgio Godinho: Pode alguém, ser quem não é?

A mesa como espaço de mediação entre o arquivo e a cena.

No espetáculo usámos uma mesa, com uma câmara que captava em tempo real as provas de modo a aferir a veracidade das histórias, criando um pacto de credibilidade com o público sobre a autenticidade desse material. O facto de manipularmos esse material à vista do público permitia tornar menos opaco o nosso ato de montagem.  Assim ao manipular, à vista do público, estes documentos procurámos performá-los de forma híbrida, ou seja, usá-los como evidências do real, atestando a veracidade do que era dito, mas também como um espaço ficcional que lançasse um olhar artístico e estético sobre os factos. Usamos mapas do salto, livros censurados à época, fotografias e documentação da fuga, notícias da imprensa da época, passaportes, etc.

5| A RECEÇÃO E O ARQUIVO COMO ATO DE TESTEMUNHO

            Esta experiência teatral permitiu, ao público conhecer estes testemunhos, lançando sobre eles uma nova luz, e com isso criar um ato de partilha de memória que foi revelada a cada espetáculo.

Por fim, estas peças O Meu País é o Que o Mar Não Quer e Exílio(s) 61-74 testemunhos das migrações portuguesas foram devolvidos ao arquivo, desta feita em forma de livro, com o título O meu país é o que o mar não quer e outros peças, editado pela Imprensa da Universidade de Coimbra, na coleção Dramaturgo em 2019.

 A peça Exílio[s] 61-74 está também editada em França com edição bilingue pela editora Les Presses universitaires du Midi da Universidade de Toulouse – Jean-Jaurès (UT2J) da antologia Frontières da Colecção Nouvelles Scènes, 2020.

Saliento a crença que o arquivo ao ser consultado é possível acioná-lo, daí ser um novo ato de testemunho e de transmissão de memória.

            6| O REGRESSO DO ARQUIVO – Leitura encenada online de Exílio(s) 61 -74

Desde 2020, a Casa da Esquina, integra o projeto #Ecos[iv] com a peça Exílio(s) 61 -74. Além das sessões preparatórias do projeto e da participação numa sessão na escola artística António Arroio, o trabalho da Casa da Esquina ficou suspenso devido à pandemia. No entanto, em 2021 avançamos com três sessões de leitura encenada online. Em ambas tivemos grupos muito heterogéneos. Algumas pessoas ligadas à prática do teatro (docentes, ex-alunos e alunos), investigador sociais, antigos exilados e desertores da associação AEP-61-74, bem como alunos franceses, que tinha a língua portuguesa como língua estrangeira, e membros da associação Memória Viva. Num conjunto de várias nacionalidades: portugueses, franceses, brasileiros e haitianos.

Abro as portas do processo da leitura online.

A formação decorreu em cada edição durante três dias, num período total de 6 horas. Num primeiro momento os formandos recebem a peça Exílio(s) 61 -74 previamente para ler.

[1º dia]

Na primeira sessão, está sempre presente a Sónia Ferreira, que coordena o projeto ECOS e o Zé Duarte que dá apoio técnico e de produção ao projeto. Feitas as introduções começo por fazer uma contextualização do processo de escrita da peça Exílio(s) 61 -74– a recolha de testemunhos; as transcrições, o trabalho com o arquivo (sobretudo de antigos exilados e do centro de documentação 25abril); e ainda a ponte entre o texto e a cena e como pode ser mediado o testemunho e a cena. Exponho o trabalho de invisibilidade requerida aos atores para ativarem estes testemunhos, como documentos que vivem pelo seu corpo; O trabalho de edição do texto. E, discuto algumas das questões que se levantam num trabalho documental baseado em testemunhos.

Depois começo por explicar cena a cena, e esclarecer dúvidas que surjam no texto. Depois distribuo – de forma provisória- intuitivamente, alocando cada pessoa a cada voz. A dificuldade do online é trabalhar a parte coral. Pois torna-se impossível realizar essa tarefa via zoom, pois as falas chegam em tempos diferentes, não há sincronismo. Por isso como proposta coloco o coro de vozes, que fazem avançar a História, repartido por todos eles, e não de forma síncrona como no espetáculo.

Na parte coral investi num trabalho que tinha feito com os meus atores – actioning sobre cada beat do texto à procura de ações, estratégias usadas nas palavras para atingir determinado objetivo ou reagir a determinado acontecimento.

 Antes do 2º dia registo no texto os cortes, e a distribuição definitiva, com o actioning dos coros introduzida. Sublinho em cada cena possibilidades da gravação. E por fim envio fotos para serem usados como fundo virtual, para termos uma imagem comum para cada cena.

[2º dia]

Proponho trabalhar como se fossemos gravar a leitura. Registo o nosso trabalho. Faço do ecrã o nosso palco. Para cada cena testo diferentes entradas e saídas, relações com a câmara e imagens como fundo virtual. Batalho no trabalho de actioning. E tento chegar até ao fim do texto. No final do ensaio envio um pequeno rascunho vídeo do que gravei de cada cena que funciona não só para mostrar como tudo isto iria ficar no final, mas sobretudo para permitir aperfeiçoar algumas falhas para o dia da gravação.

[3º dia]

Gravação da leitura encenada. Lemos cada cena, depois comento, fornecendo pistas para melhorar e gravámos.  Cena a cena. No final, fora dos ensaios, em processo de montagem, edito os brutos, misturo-os com paisagens sonoras usadas no espetáculo, e com bem como com gravações em que editei e manipulei documentos usados na peça e que davam conta do contexto histórico ou individual em cada cena. O vídeo de cada edição é lançado nas redes sociais do projeto #ECOS.

Confesso, que existiram momento inesperados, afetivos, que só a memória pode resgatar, um desses exemplos aconteceram quando o Fernando Cardoso leu as suas próprias palavra. Bem como, quando o Fernando Cardoso e o Joaquim Saraiva nos relataram de novo, as estórias de vida – a deserção, os caminhos do salto, etc. Só por isso valeu fazer estas sessões. Convido-vos a assistir[v].

7| PRÓXIMOS PASSOS

No seguimento do projeto vamos iniciar o Laboratório de Escrita para Teatro:  Dramaturgias Políticas Contemporâneas – Memória e Resistência, em regime online, para 12 jovens dramaturgos entre os 21 e 35 anos. A ideia será investigar, a partir da minha investigação académica, a política da escrita teatral, através da genealogia, limites e objetos das dramaturgias políticas, com o objetivo de no final do curso cada formando escrever uma peça curta de teatro, através de procedimentos do teatro do real e ficcional, usando como tema a Memória e Resistência.

Deste modo pretendemos analisar de que forma evoluíram os processos e metodologias de escrita de pendor político? Quais os processos, metodologias e decisões que decorrem, entre a escrita e encenação, em termos de autoria, autenticidade, ética, teatralidade? De que modo a escrita de pendor político absorveu mecanismos e processos de pensamento e estruturas da sociedade nos seus conteúdos e formas dramáticas? Quais as consequências da dramaturgia de pendor político na transformação da sociedade?

No final do curso, um comité do projeto, eu, pela Casa da Esquina, a Sónia Ferreira pelo projeto #Ecos, o dramaturgo Jorge Louraço e mais um criador a indicar, selecionará um conjunto, da totalidade das peças produzidas, para publicação digital e tentaremos criar uma sessão com leitura dirigida e um debate sobre as peças finalizadas estão estimadas num calendário a definir entre novembro de 2021 e abril de 202.

Considerações finais

Exílio(s) 61 -74 é um registo das migrações portuguesas através do teatro. Um testemunho dos acontecimentos. Um registo que documenta a ação do humano e questiona o curso da história a partir das nossas histórias. A minha e a tua. Já não as histórias épicas, mas as histórias de cada um de nós. As micronarrativas. A batida do coração da sociedade. É um espaço de partilha do que ficou na memória, do que nos foi transmitido, mas também dos seus deslocamentos, dos seus equívocos, das disputas de memória. É uma peça nascida da escuta dos outros.

Como conclui João Maria André no posfácio de O Meu País é o Que o Mar Não Quer e outras peças “Não se pense, pois, que estes textos[vi] sobre a emigração, exílio e república são o arquivo descritivo e impassível de testemunhos, documentos e histórias com que se tece o nosso quotidiano. Nas suas margens ou no coração da sua escrita irrompe permanentemente a irreverência a imaginação, a paixão e o espírito crítico. É um teatro arquivístico, sim, mas afetivo, atento, mas empenhado, assente na escuta, mas também no compromisso. Marx tinha razão: não basta interpretar a realidade é preciso contribuir para a sua transformação.” (2019, p.175)

REFERÊNCIAS

ANDRÉ, J. (2019) Posfácio in CORREIA, R. (2019) – O Meu País é o que o mar não quer e outras peças. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra.

CORREIA, R. (2019) – O Meu País é o que o mar não quer e outras peças. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra.

MARTIN, C. (2010) – Dramaturgy of the Real on the World Stage. Nova Iorque: Palgrave Macmillan.

SOANS, R. In HAMMOND, W. & STEWARD, D. (Eds.) (2008).Verbatim Verbatim – Contemporary Documentary Theatre. London: Oberon Books

NOTAS


[i] FICHA TÉCNICA E ARTÍSTICA

Texto e Encenação Ricardo Correia | Assistência de encenação Sara Jobard |Interpretação Hugo Inácio, Celso Pedro, Marta Nogueira, Miguel Lança e Sara Jobard |Investigação, Dramaturgia e Documentação Sara Jobard, Joana Brites, Hugo Inácio, Celso Pedro, Marta Nogueira, Miguel Lança, Emanuel Botelho, Rui Gaspar, Filipa Malvae Ricardo Correia | Espaço Cénico, Figurinos e Adereços Filipa Malva | Direção Técnica e Desenho de Luz Jonathan de Azevedo | Desenho de Som Emanuel Botelho | Vídeo Rui Gaspar | Operação técnica João Palhares | Apoio de Voz Cristina Faria | Responsável de Produção Cláudia Morais | Fotografia Carlos Gomes | Design Joana Corker | Produção Casa da Esquina – Associação Cultural | Coprodução TAGV | Projeto inserido no plano de apoio Tripartido da DGArtes/Ministério da Cultura à CASA DA ESQUINA em 2017. Agradecimentos | AEP61-74, Centro de Documentação 25 de Abril, Natércia Coimbra, Rui Bebiano, Rui Mota, José Torres, Hélder Costa, Eugénia Vasques, Fernando Cardeira, Miguel Cardina, Fernando Cardoso, Adelino Silva, Tila Cascais, PCP, José Dias, Graça dos Santos, José Vieira, Partido Comunista Português, CES — Centro de Estudos Sociais,Tipografia Damasceno, ESEC, Ilídio Design / Carlos Gago.

[ii] ESTREIA | 13 de maio de 2017 (Arganil) na Cerâmica Arganilense, inserido no festival Outras Vozes, Outras Gentes da cooperativa Hermes. | DIGRESSÃO | EXÍLIO(S) 61-74, estreou em Arganil na Cerâmica Arganilense dia 13 de maio de 2017 e fez digressão no âmbito do festival Outras Vozes, Outras Gentes da cooperativa Hermes | Casa das Artes de Miranda do Corvo, 20 de maio | Centro Cultural de Tábua, 10 de junho | Teatro Académico de Gil Vicente de Coimbra, 25 de Maio | Avanteatro (Festa do Avante), 2 de Setembro | Coprodução TAGV| Uma produção CASA DA ESQUINA | A CASA DA ESQUINA é uma entidade financiada pelo Ministério da Cultura/DGArtes e Câmara Municipal de Coimbra — apoios Tripartidos 2015-2017.

[iii] Bastos, D. (2015). Gérald Bloncourt – O olhar de compromisso. Converso Editora.

Caldeira, A. et al. (2011). Aljube – A voz das vítimas. Imprensa Nacional Casa da Moeda.

Cardina, M. (2011). Margem de certa Maneira – O Maoismo em Portugal 1964-1974.

Tinta-da-China.

Cardoso, F. (Coord.) (2016). Exílios – Testemunhos de exilados e desertores portugueses

na Europa (1961-1974). AEP 61-74 Associação de Exilados Políticos Portugueses.

Costa, H. (1980). Teatro Operário. Coimbra: Centelha.

Cruzeiro, C. (1989). Coimbra 1969. Edições Afrontamento.

Dias, C. (2010) 48. [DVD]. Alambique.

Furtado, J. (2017). A Guerra – Colonial| Do ultramar | de Libertação. [DVD]. RTP

Edições.

Mezzadra, S. (2012). Direito de Fuga. Edições Unipop.

Mourão, C. (2015). A toca do lobo. [DVD] Alambique.

Nouss, A. (2016). Pensar o exílio e a migração hoje. Edições Afrontamento.

Göran, Olsson (2014). A respeito da violência. [DVD] Alambique.

Pereira, P. (2013). As armas de papel – Publicações clandestinas e do exílio ligadas a

movimentos radicais de esquerda cultural e política (1963-1974). Círculo de Leitores.

Vieira, J. (2005.) Gentes do salto – Memórias de portugueses que fugiram para frança

nos anos 60. [DVD]. La Huit.

Weiss, P. (1968). Chant du fantoche Lusitanien. Edition Du Seuil.

Sítios em-linha consultados:

Associação de Exilados Políticos Portugueses 61-74 http://aep61-74.org/index.php/aaep/.

Centro de documentação 25 de Abril. Disponível em:

http://www.cd25a.uc.pt/index.php?r=site/page&view=itempage&p=13.

Museu do Aljube (2017). http://www.museudoaljube.pt/omuseu.

PCP. http://www.pcp.pt/r%C3%A1dio-portugal-livre-50-anos.

Prisão de Peniche. http://www.cm-peniche.pt/MuseuMunicipal_Fortaleza_PInteresse_PrisaoPolitica.

[iv] Projeto #ECOS – Exílios, contrariar o silêncio: memórias, objectos e narrativas de tempos incertos, que tem como parceiros o Centro em Rede de Investigação em Antropologia; Associação de Exilados Políticos Portugueses;Association Mémoire Vive / Memória viva; Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS) – tutela URMIS; Universidade Nova de Lisboa e Universidade de Copenhaga.

[v] https://ecosexilios-cria.org/leituraencenada/

[vi] Os textos a que se refere são: O Meu País é o Que o Mar Não Quer, Exílio(s) 61-74, Manual de criação de uma Comissão de Inquérito e O Republicário, pertencentes ao livro O Meu País é o Que o Mar Não quer e outras peças.