26 de Maio, 2026

Maio-Nordeste 1975, fazer o que tinha de ser feito

As campanhas de sensibilização do MFA realizadas nos meios rurais retratadas por Mário Correia num livro-testemunho [1]

REPORTAGEM NSF no Porto

A opção do autor de publicar não tanto uma avaliação dos acontecimentos e do período histórico também conhecido por PREC, mas antes e principalmente uma memória documental referente às Campanhas de Dinamização Cultural e Ação Cívica levadas a efeito pelo MFA no concelho de Miranda do Douro, revela uma intenção de estabelecer alguma equidistância face à sua própria participação como ator de terreno e face ainda às narrativas amplamente divulgadas sobre o tema.

O livro Maio-Nordeste [1975] – memória documental da Campanha de Dinamização Cultural e Ação Cívica Maio-Nordeste do MFA no concelho de Mirando do Douro surge assim, pelas suas características editoriais peculiares baseadas em fontes documentais seguras, como um incentivo à continuidade deste exercício de recuperação de memórias tendo em conta o inevitável desaparecimento a curto prazo daqueles que lhes deram vida há pelo menos meio-século.

O grau de neutralidade do autor sobre o tema sendo absoluto na divulgação dos factos que aliás surgem dos conteúdos específicos de programas, comunicados, relatórios, boletins e outras peças escritas que constam do Arquivo de Defesa Nacional, não o poderia ser sobre as interpretações e sobre a própria contextualização dos acontecimentos que marcaram a História recente de Portugal. 

Assim, do livro não resulta principalmente num ajuste de contas com o passado, mas antes e pelo contrário radica numa valorização das ações empreendidas pelas centenas de militares que saíram dos quartéis e vieram ao encontro do povo.

Não escaparam aos redatores dos documentos de orientação visando a concretização das tarefas no terreno apreciações autocríticas, sobretudo nas primeiras ações nas quais a inexperiência dos intervenientes era notória, assim e rapidamente, os erros cometidos foram sendo corrigidos porque, como adiantou Mário Correia na apresentação do livro na livraria UNICEPE no Porto não se tratava de evangelizar as populações ou de promover campanhas ideológicas ou de base partidária. A ideia-força de ir ao encontro do povo teve por objetivo principal contactar com os problemas existentes nas aldeias e nas vilas e procurar apoiar as iniciativas cuja finalidade era encontrar soluções e mudar a situação existente.

Da mesma forma que as centenas de estudantes da Universidade de Lisboa que acorreram aos locais sinistrados pelas cheias em 1967 que não tinham a mínima ideia das condições de vida nos territórios periféricos da capital e pouco sabiam da forma de agir no apoio às pessoas e famílias sinistradas, os militares do MFA foram encontrar aldeões sem estradas, sem água potável, sem eletricidade e sem meios elementares de aquecimento e nutrição. Mas estas carências pareciam ser um mal menor naquele contexto de vida orientado pela ideia crucial da sobrevivência. Mais gravosa parecia ser a situação que resultava do analfabetismo, do obscurantismo, da relação de sujeição aos caciques e poderosos locais e da ignorância dos objetivos libertadores do 25 de Abril.

Um livro diagnóstico

O que resulta da publicação que Mário Correia meticulosamente organizou são evidências que criam condições para estudos e reflexões aprofundadas sobre o país em várias dimensões:

  • Um diagnóstico vivo do país real, de Portugal como ele existiu até ao 25 de Abril, fruto do regime salazarista e marcelista, que evidenciava as necessidades urgentes de um povo principalmente rural que precisava de aceder às condições básicas da dignidade humana;
  • Um diagnóstico do país em termos de relações de poder, com uma clara clivagem entre o mundo urbano e rural e entre o Norte e o Sul. Neste plano as imposições do poder económico e das forças repressivas impunham quer a lei do mais forte quer ainda a lei do medo. No mundo rural aqueles que mandavam constituíam uma estrutura de poder informal idêntica em praticamente todas as aldeias do país: o senhor da terra, o regedor, o comandante do posto da GNR, o professor primário e o padre agiam, na sua grande maioria, na base de uma ideologia opressiva cuja finalidade era defender privilégios e manter um sistema de desigualdades.
  • Um levantamento do potencial de mudança resultante do envolvimento de muitos setores da população que viam com bons olhos a oportunidade de transformar a vida quotidiana e de projetar um futuro diferente

Um livro denúncia

Na base dos documentos produzidos e analisados nas estruturas coordenadoras das Campanhas do MFA e ainda tendo por fonte as diversas publicações e ações de propagando dos setores reacionários que tudo fizeram para sabotar as iniciativas dos militares de Abril, o livro de Mário Correia denuncia o papel dos reacionários e dos bombistas da extrema-direita com destaque para o ELP e o MDLP e não deixa escapar a responsabilidade e o envolvimento da Igreja Católica no combate à emancipação das populações locais

Um livro reflexão

A base documental das campanhas, as listagens de problemas e carências, os registos específicos como o inventário das ações terroristas, as dinâmicas no campo religioso, estas referências e outras que o livro divulga constituem matéria particularmente relevante para uma reflexão aprofundada sobre os contextos e os mecanismos favoráveis ou não à transformação social.

Hoje com setores significativos da sociedade portuguesa a exprimirem a sua adesão a ideias conservadoras e até anti-democráticas, torna-se relevante e até prioritário avaliar os comportamentos de todos aqueles que voluntária ou involuntariamente se colocam numa posição de obstrução ao progresso, como aconteceu em 1975 no período do PREC. Este livro torna-se particularmente útil para apoiar esta reflexão coletiva e o debate que importa realizar na sociedade portuguesa.

GALERIA

Fotos NSF

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