90 anos da guerra civil espanhola
A memória que o futebol não pode apagar

Por Ana Sampaio Monteiro
Hoje Domingo, 19 de Julho, Espanha e Argentina disputarão a final do Campeonato do Mundo de Futebol.
Mais do que um jogo, será um encontro entre duas nações que conheceram, em épocas distintas, a violência das ditaduras fascistas e o peso de profundas feridas na sua História.
A Guerra Civil de Espanha
Os jogadores espanhóis recordar-se-ão, certamente, de que há precisamente 90 anos, em 17 de Julho de 1936, o seu país mergulhava num dos mais sombrios conflitos do século XX: a Guerra Civil Espanhola.
Foi uma tragédia humana de proporções devastadoras.
Cerca de 500 mil mortos, outros 500 mil refugiados, centenas de milhares de crianças órfãs, mais de 100 mil mutilados e feridos graves, cidades destruídas e um país reduzido a ruínas.
Mas o mais terrível daquela guerra não foram apenas os números.
Foi o facto de ter sido uma guerra civil.
Uma guerra entre compatriotas.
Entre vizinhos que passaram a inimigos.
Entre famílias divididas, amigos separados, irmãos colocados em lados opostos das trincheiras.
Uma guerra que alimentou a denúncia, o medo, o ódio e a violência entre pessoas que, até então, partilhavam a mesma terra, as mesmas ruas e, muitas vezes, o mesmo sangue.
As suas consequências foram tão profundas que, passadas nove décadas, continuam a marcar a memória colectiva do povo espanhol.
Nenhuma guerra tem verdadeira justificação.
Cada conflito representa o fracasso da diplomacia, das instituições, da política e, acima de tudo, da própria condição humana.
O fascismo na Europa
Desde 1920, a Europa assistia ao crescimento dos movimentos totalitários de extrema-direita: em Novembro de 1921, Benito Mussolini fundava o Partito Nazionale Fascista (PNF), o primeiro grande partido fascista do mundo.
Pouco antes, Adolf Hitler criara o Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei (NSDAP), (Partido Nazi) e publicaria, em 1925, o Mein Kampf, obra onde expunha a ideologia racista, expansionista e totalitária que viria a mergulhar o mundo na maior tragédia da sua História (1939-45).
A crise económica e social provocada pela Grande Depressão aceleraria a expansão dessas ideologias extremistas por toda a Europa e pelo planeta.
Também Portugal acabaria por enveredar pelo caminho da ditadura, na sequência do golpe militar de 28 de Maio de 1926, que abriria caminho ao Estado Novo de António de Oliveira Salazar.
Frentes Populares
Perante o crescimento do nazi-fascismo, surgiram em vários países coligações democráticas de esquerda conhecidas por Frentes Populares.
Em 1936, tanto em França como em Espanha, essas coligações venceram legitimamente as eleições.
Em Espanha, a Frente Popular obteve cerca de 34% dos votos, formando um governo republicano liderado por Manuel Azaña, como Presidente da República, e por Francisco Largo Caballero como Presidente do Conselho de Ministros.
O resultado eleitoral foi imediatamente rejeitado pelos sectores mais conservadores, monárquicos, católicos, falangistas – da Falange Española, partido fascista fundado por Primo de Rivera (filho), em 1933 – e franquistas.
Espanha era, então, um dos países mais avançados da Europa em direitos das mulheres:
Votavam,
Podiam divorciar-se,
Tinham acesso às universidades, a ministérios do governo e às trincheiras.
Golpe militar
A 17 de julho de 1936, tudo chegou ao fim.
Nesse dia, uma insurreição em Melilla, no Protetorado Espanhol de Marrocos, desencadeou o golpe militar contra a República – o “Alzamiento Nacional”, como lhe chamaram os fascistas.
O movimento rapidamente alastrou por toda a Espanha, dando início à Guerra Civil Espanhola.
Entre os principais líderes do levantamento encontrava-se o general fascista Francisco Franco, que mergulhou o país numa guerra sangrenta, prolongada até 1939.
Brigadas Internacionais
Os Republicanos ficaram praticamente abandonados pelas grandes democracias europeias.
Receberam, sobretudo, o apoio das Brigadas Internacionais, compostas por milhares de voluntários civis oriundos de dezenas de países: escritores, professores, jornalistas, operários, intelectuais e simples cidadãos que acreditavam estar a defender a liberdade e a democracia.
Entre eles encontravam-se também portugueses antifascistas.
Já os franquistas beneficiaram de um apoio militar massivo e decisivo da Alemanha de Hitler, da Itália de Mussolini, do regime de Salazar.
E de forças mercenárias e tropas coloniais remuneradas.
Laboratório militar
Portugal enviou armamento, apoio logístico, a Legião Portuguesa e comboios carregados de bens alimentares ostentando a inscrição “OS DESPOJOS DE PORTUGAL”, numa altura em que a maioria dos portugueses vivia mergulhada na pobreza, na fome e na ausência dos mais básicos cuidados de saúde.
Para Hitler e Mussolini, Espanha transformou-se num enorme laboratório militar.
Ali, testaram aviões, bombas, tácticas de guerra e armamento que, poucos anos depois, devastariam a Europa durante a Segunda Guerra Mundial.
Guernica
O exemplo mais brutal ocorreu em 27 de Abril de 1937.
Nessa Segunda-feira, às 16h30, a Legião Condor – Força Aérea alemã apoiada pela aviação italiana: a Aviação Legionária – iniciou o bombardeamento da pequena cidade basca de Guernica.
Durante cerca de duas horas, sucessivas vagas de aviões lançaram explosivos e metralharam a população civil.
Guernica não possuía qualquer importância estratégica.
Foi apenas escolhida para servir de experiência e para aterrorizar a população local.
Pela PRIMEIRA VEZ na História, uma cidade era praticamente destruída por um bombardeamento aéreo sistemático contra civis.
Cerca de 1.500 pessoas morreram, muitas carbonizadas nas ruas, outras asfixiadas sob os escombros ou abatidas pelas metralhadoras dos aviões enquanto tentavam fugir.
Homens, mulheres e crianças refugiaram-se num pequeno abrigo subterrâneo improvisado junto de uma escola.
Sem ventilação.
Sem água.
Sem alimentos.
Sem instalações sanitárias.
Na escuridão absoluta.
Esse abrigo continua hoje aberto ao público, em Guernica.
Quem o visita – como eu -, permanece ali apenas alguns minutos.
Bastam esses minutos para imaginar o terror vivido durante duas intermináveis horas.
A destruição de Guernica foi eternizada por Pablo Picasso, numa das obras mais poderosas da História da Arte, hoje exposta no Museu Rainha Sofia, em Madrid.
Entretanto, muitas outras cidades espanholas conheceram igual destino – Madrid, Barcelona, Valência, Alicante, Durango, Almeria, Castellón, Tarragona, Granollers, Bilbao e Gijón.
Refugiados
Próximo do final da guerra, cerca de 500 mil espanhóis atravessaram a fronteira francesa.
Encontraram campos de refugiados improvisados, onde enfrentaram o frio, a chuva, a fome e condições de vida desumanas – 50g diárias de pão seco.
Um sobrevivente recordaria mais tarde:
“No início de 1939, fazia um frio intenso quando 500 mil homens, mulheres e crianças chegaram à França, fugindo das batalhas finais da Guerra Civil Espanhola e das represálias dos partidários de Franco.”
Poucos meses depois, muitos refugiados cairiam nas mãos da Gestapo após a ocupação nazi de França, acabando deportados e mortos em campos de concentração.
Ainda hoje, Espanha continua a confrontar-se com esse passado.
O primeiro-ministro Pedro Sánchez anunciou a revogação da Grã-Cruz da Ordem Civil da Saúde atribuída ao psiquiatra franquista Antonio Vallejo-Nájera, conhecido como “o Mengele espanhol”.
Vallejo-Nájera defendia teorias pseudocientíficas sobre a “purificação da raça” e procurou justificar o roubo sistemático de bebés durante o franquismo, alegando impedir a transmissão do “gene vermelho”.
Como afirmou Pedro Sánchez:
“Nenhuma democracia pode continuar a prestar homenagem a alguém que mascarou as suas teorias para justificar o ódio, a repressão e a desigualdade.”
As suas ideias encontravam paralelo nas políticas de eugenia do regime nazi, que, desde 14 de Julho de 1933, aprovara a Lei da Prevenção de Doenças Hereditárias, impondo esterilizações forçadas a milhares de alemães considerados “indesejáveis”.
A Guerra Civil terminou em Abril de 1939.
Franco e o fascismo venceram.
A ditadura prolongou-se durante quase quatro décadas, terminando apenas com a morte do Caudilho, em 20 de Novembro de 1975.
Só então Espanha iniciaria o caminho que a conduziria à democracia e à monarquia constitucional.
Noventa anos depois, recordar a Guerra Civil Espanhola não significa reabrir feridas.
Significa impedir que sejam esquecidas.
Porque a memória é uma das formas mais poderosas de defender a LIBERDADE.
E as democracias só permanecem vivas quando conhecem, enfrentam e preservam a VERDADE da sua própria História.
(A ler “Por quem os sinos dobram”, de Ernest Hemingway, e “Homenagem à Catalunha”, de George Orwell. Ambos estiveram lá, do lado dos Republicanos. Obras magníficas!)
(Texto de Ana Sampaio Monteiro; Imagens: Museu Nacional d’Art de Catalunya, sobre a Guerra Civil Espanhola.)

Museu Nacional d’Art de Catalunya

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