Um dia diferente ou se calhar igual a tantos outros
Nunca gostei de agostinhos, para que conste e não fiquem equívocos
OPINIÃO – Francisco Melro
O título é demasiado sofisticado, nada condizente com o meu estado de alma. Se fosse sincero e coerente, diria: um dia de raiva, desilusão, desespero e impotência. Mas nem eu, desculpem a blasfémia, consigo ser sempre sincero, o título verdadeiro ficaria longo demais.
Há algo que me acaba por travar, sempre que escrevo. O que é que este ou aquele, com quem vivi, ou em muitos casos, felizmente ainda, protagonizei isto ou aquilo, a quem o passado me liga e de quem não me quero desligar, porque sim, iria pensar disto ou aquilo que me dá na gana escrever. E como já carrego mais de três quartos de século, tudo isto acaba por ser uma carga longa para levar às costas, apesar da ginástica que vou fazendo, que é real e pode ser certificada.
O título acaba por não ser totalmente condizente com o que seria de esperar de alguém que está a escrever sem rede, mas é o que consegui arranjar.
As coisas são o que são. Aprendemos a escrever numa ardósia, passamos para o caderno de duas linhas e depois para um caderno das linhas que depois conhecemos como normais, e já estou a dirigir-me só alguns que percebem do que falo, passamos a escrever diretamente em computador e em word, sem ter de recorrer à revisão, edição e impressão. Já passei por tudo isto. Sei que nem todos os que aprenderam em ardósia usufruíram desta aprendizagem.
Mas hoje Israel atacou a Síria. O protagonista deste ataque propôs na semana passada Trump para prémio Nobel da Paz, quando esse protagonista está acusado, muito justa, extremamente e comprovadamente, como criminoso de guerra pelas Nações Unidas, que viram, ontem, o seu organismo de apoio aos palestinianos, que velam pela sobrevivência de um povo diariamente exterminado pelo exército israelita liderado pelo protagonista, posto em causa pelos representantes de Trump nas Nações Unidas, que exigiram a sua extinção.
E já não sei o que fazer, porque ao longo da vida percebi que a liberdade é existencial para a Humanidade, entendida como um conjunto de seres livres, informados, formados e pensantes, e que qualquer relativização da liberdade conduz sempre à barbárie e à submissão de todos a uns quantos que, em nome doutras necessidades básicas e de umas quantas, muito pequenas, teses científicas nunca comprovadas, nos querem submeter aos seus ditames, arbítrio e terror. E por isso, sei, de vida vivida e sabida, que qualquer regime dominado pelos sistemas de Xi Jinping ou Putin, irmãos gémeos, será muito pior do que o dos Estados Unidos, mesmo com e apesar de Trump. Este, ao menos e esperamos que tal, poderá de ser revertido.
Mas Israel continua a atacar tudo e todos, dentro e fora do território da Palestina, arrasando Gaza, aterrorizando os palestinianos da Cisjordânia, a quem rouba casas e terras e castiga, prende e mata em nome do seu Deus e do Direito Divino que lhes terá sido concedido, e depois da miséria interna e da desgraça que já causou no Líbano, ainda me lembro do Líbano como a Suíça do Médio Oriente, estas coisas da velhice, ataca agora a Síria, em nome de uma ultra-minoria Drusa que supostamente estará a ser posta em causa pelo novo poder islâmico instalado na Síria. Só engole quem quer, os exterminadores de Palestinianos armados em salvadores de Drusos.
O que nos acusa a todos de cobardia e inação, com o pretexto de Israel ser um Estado democrático, embora sem certificação dos cidadãos palestinianos que habitam esses territórios a quem espezinha, por permitirmos que os governos ocidentais, que democraticamente e legitimamente, até prova em contrário, falam em nosso nome, continuarem a apoiar estes crimes e pretensões hegemónicas, supostamente, em nome da Democracia mas, de facto em nome do projecto do Grande Israel e de salvar o coiro de Netanyahu das acusações de crime por corrupção.
Se Netanyahu pisar território de países abrangidos pela lei das Nações Unidas, deverá ser preso por crime de genocídio, muito justamente. Assim o desejo e espero, como cidadão amante da Justiça e da Liberdade. Nenhum povo, muito menos Israel, pode arvorar-se de autoridade moral para exterminar outro só porque no passado foi alvo de tentativas históricas longínquas de extermínio. Esse passado e vivência deveriam dar a esse povo, em nome do seu Deus, autoridade e sensibilidade especiais e únicas para agir como um inspirador da vontade desse Deus, sob o lema de “amar o próximo como a nós mesmos”. Não fui eu que criei este lema e já não vou à missa há muitas décadas. Mas há que coisas que ficam sempre connosco, mesmo quando mudamos de Igrejas ou deixamos de as ter.
Sobre outras coisas, muito correlacionadas com estas, direi da minha justiça noutras alturas, num sentido já conhecido. Nunca gostei de agostinhos, para que conste e não fiquem equívocos.
OPINIÃO – Francisco Melro
Editado, subtítulo NSF, foto de destaque © Unicef/Abed Zagout