Amplificar as palavras reais das crianças e das famílias de Gaza
Andreia Kheuang lançou o Vozes de Gaza e o movimento nunca mais parou
Há um grupo de ativistas incansáveis que não olha a horários para concretizar as inúmeras tarefas que dão corpo ao Vozes de Gaza. Da sua ação de pequenas formiguinhas que labutam sem descanso resultam, de uma forma quase mágica, testemunhos, vídeos, fotografias, declarações, Cartas Abertas, projetos de encontros e de concertos e vários espaços das redes sociais em permanente agitação.
Uma das atividades é partilhada por todos: mobilizar amigos, conhecidos, colegas, familiares, artistas, cantores, atores e todos aqueles que não aceitam ficar calados perante a situação dramática que crianças e famílias inteiras estão a viver em Gaza.
Andreia Kheuang [AK] junta muitas vezes na sua mesa de trabalho o teclado, o biberão do bebé, o prato com as cascas da fruta e várias publicações que remetem para um tema que absorve todos os seus momentos disponíveis desde há umas semanas a esta parte: GAZA. Não pára e, pelos vistos, assim vai ser nos próximos tempos. NSF- CVR Coordenação editorial

ENTREVISTA – Andreia Kheuang, psicóloga
Conduzida por Carlos V. Ribeiro
NSF – Andreia esta iniciativa arrancou e nunca mais houve descanso da tua parte. Como é começou esta aventura?
AK – Comecei o Vozes de Gaza porque já não conseguia viver em paz com esse abismo entre saber o que estava a acontecer e nada fazer.
Senti que o silêncio à volta das crianças palestinianas — que estão a perder a infância, o corpo, a casa, a esperança — era insuportável. Mais insuportável ainda era ver como, aos poucos, o mundo foi normalizando o horror.
NSF – Não existiam garantias que pudesse correr bem. São sempre iniciativas arriscadas, qual foi o elemento que forneceu ao projeto uma dinâmica imparável?
AK – Às tantas terá sido a ideia-força presente na afirmação “Se pudermos salvar nem que seja uma única vida, então esta voz vale por mil“. Percebi que, mesmo à distância, tínhamos um dever de memória, de empatia e de ação. Assim nasceu esta campanha: como uma forma de amplificar as palavras reais das crianças e das famílias de Gaza, para que deixem de ser números nas notícias e voltem a ser vistas como aquilo que realmente são — seres humanos com rosto, nome, sonhos e direito à vida.
Criei o Vozes de Gaza para romper o silêncio, sensibilizar quem ainda consegue ouvir, e mobilizar todas as pessoas possíveis para ASSINAR a carta aberta do GARPP — de modo a que estas crianças possam ser evacuadas com urgência e recebam os cuidados médicos que precisam para continuarem a viver.
NSF – E que resultados são esperados de toda esta movimentação voluntária e muito orientada por princípios de solidariedade?
AK – Desejo que o Vozes de Gaza contribua, de forma concreta, para:
- Salvar vidas, permitindo a evacuação urgente de crianças feridas ou em perigo extremo, através do apoio ao GARPP e à pressão pública gerada pela carta aberta;
- Mobilizar consciência coletiva, tocando o coração de pessoas que, talvez por distância ou cansaço, ainda não tinham olhado verdadeiramente para estas vidas;
- Romper o ciclo de indiferença, para que a dor destas crianças não seja silenciada, banalizada ou esquecida;
- Gerar uma onda de ação, onde cada assinatura, partilha ou gesto de solidariedade se transforme numa hipótese real de futuro para estas famílias.
Em última instância, desejo que o resultado desta campanha seja mais do que sensibilização: que se traduza em proteção, evacuação, cuidados médicos, dignidade e esperança para as crianças de Gaza.


Andreia Kheuang privilegia o contacto com a natureza para o seu equilíbrio quotidiano.
Vozes de Gaza: uma campanha de sensibilização urgente pela infância palestiniana
Vozes de Gaza nasceu há apenas duas semanas com um propósito urgente: impedir que as crianças palestinianas continuem a ser empurradas para o esquecimento. Num contexto em que a Faixa de Gaza permanece sob bloqueio e violência constante, este projeto ergue-se como uma campanha de sensibilização que procura romper o silêncio e convocar a sociedade civil a olhar — e agir.
Através de vídeos curtos, pessoas de diferentes contextos emprestam a sua voz a frases reais ditas por crianças em Gaza — mensagens enviadas diretamente por famílias palestinianas com quem mantemos contacto diário. O objetivo é simples e profundo: lembrar ao mundo que estas crianças existem, sentem, sonham — e que precisam de nós agora.
Apesar da sua curta existência, o projeto já publicou 10 compilações de vídeos, com centenas de pessoas a dar voz às crianças palestinianas. Cada leitura é um pequeno ato de cuidado — uma forma de resistir à anestesia coletiva que o excesso de sofrimento pode gerar.
Este projeto não se encontra vinculado a nenhum movimento ou coletivo específico, mas pretende amplificar a voz daqueles que têm estado na linha da frente pelo bem-estar e evacuação destas crianças — como é o caso do GARPP (Grupo de Apoio a Refugiados Palestinianos).
O principal objetivo é dar visibilidade à carta aberta do GARPP, esperando que esta campanha sensibilize a opinião pública e pressione o governo português a autorizar a evacuação urgente de crianças que necessitam de cuidados médicos inadiáveis. Cada assinatura conta. Cada gesto pode – literalmente – ajudar a salvar vidas.