6 de Maio, 2026
xiputin

Opinião – O Mundo em Transição

Francisco Melro

2 de Setembro de 2025

No dia em que entraram em vigor as taxas de 15% para os produtos importados pelos Estados Unidos oriundos dos países da União Europeia, Xi Ji Ping encerrou em Xangai a Conferência de leaders de vários países. Estiveram lá os dirigentes máximos da Índia, da Rússia, do Paquistão, do Irão, da Turquia, do Egipto, Vietnam e de uns quantos países, cujas lideranças políticas, ou são ditaduras de diferentes matizes ou não se distinguem por feitos democráticos. Putin distribuiu sorrisos e abraços, passou a sua narrativa e prolongará a sua estadia como vedeta convidada para o palanque dos desfiles militares de celebração da vitória da China sobre o Japão. Terá a companhia do líder norte-coreano. O encontro fica ainda marcado pela jovial confraternização entre os líderes da China, Rússia e Índia. Não houve qualquer condenação da agressão russa à Ucrânia. Guterres marcou presença.

O Presidente chinês anunciou o início da construção de uma nova ordem mundial, de que se assumiu como líder, em oposição à ordem sob domínio americano. Tendo em conta o perfil dos líderes, ficamos com um esboço de quais serão os princípios fundadores dessa nova ordem. Não me deixam sossegados com os amanhãs que nos anunciam.

Xi tem-nos dado uma demonstração prática desses valores, com a vigilância e repressão sobre os cidadãos e as minorias, as pretensões de domínio hegemónico, por meios bélicos, nos mares e ilhas ao Sul do país e os apoios a ditaduras. O curriculum de Putin é similar. O sistema comercial multilateral baseado na Organização Mundial do Comércio será, no imediato, o pilar básico desta nova ordem, proporcionando uma via alternativa às limitações e entraves ao comércio mundial decorrentes das taxas impostas por Trump. A China está especialmente interessada em assegurar via livre para o seu projecto de expansão comercial através da Rota da Seda.

A partir da sua crescente pujança económica e financeira (vide gráfico acima), a China foi reforçando, ao longo das últimas duas décadas e meia, a sua influência política e a sua presença geo-estratégicas.

Esta Conferência de Xangai constituiu a etapa de consagração do sucesso dessa caminhada. Trata-se de um desfecho lógico e de certa forma esperado, tendo em conta a profunda alteração, a nível internacional, da relação de forças económica e o inevitável reajustamento da relação de forças política, que as Nações Unidas não reflecte. A mudança de liderança a nível internacional reivindicada pela China, ajusta-se à mudança verificada na relação de forças na economia real.

Trump apressou este desfecho, espalhando o caos e a desordem, os restantes países do Ocidente encolheram-se e Xi Ji Ping avançou para a liderança dos países das economias emergentes que representam não só a maioria da população, mas também já a maioria da economia mundial (vide gráfico abaixo), exigindo uma nova ordem internacional.

Há quem tenha justificado as concessões de Trump a Putin, às custas da Ucrânia e dos países ocidentais, como uma sábia manobra estratégica para separar a Rússia da China e impedir este desfecho. Os resultados que estão à vista e mais aquilo que estará para vir, são esclarecedores sobre o génio de Trump. O carinhoso abraço tripartido entre Xi, Putin e Modi serve de amostra.

A aliança com Xi Ji Ping é vital para Putin e a presença e a forma como foi recebido neste encontro constitui uma enorme vitória para ele. De resto, Xi Ji Ping e Putin aproveitaram para reafirmarem publicamente a total convergência dos seus interesses estratégicos. Putin tem entretido e manobrado Trump, que como sinal de apreço e fidelidade, lhe havia proporcionado o contra-ataque russo em curso na Ucrânia, negando aos ucranianos o acesso ao seu sistema de informações, recusando-lhes e adiando o fornecimento de equipamento indispensável ou limitando-lhes o seu uso, recusando-lhe financiamento americano e, de caminho, atacando os seus aliados da Nato.

A aventura de Putin na Ucrânia fragilizou enormemente política e economicamente a Rússia e amarrou Putin a Xi Ji Ping, tornando-o dependente das ajudas da China e da Índia para ir atenuando e torneando os efeitos das sanções ocidentais aos movimentos de capitais russos e ao escoamento das suas exportações energéticas.

Xi ji Ping já tinha anunciado que a China nunca irá permitir a derrota da Rússia na Ucrânia e distingue agora Putin com uma recepção especial, reafirmando a grande convergência estratégica entre os interesses dos dois regimes.

De resto, a China também tem lucrado imenso, financeiramente e estrategicamente, com as pretensões czaristas de Putin. Alguns dos avanços estratégicos de Xi ji Ping têm beneficiado da progressiva fragilização e correspondente incapacidade de Putin na salvaguarda de posições no Médio Oriente, em África e especialmente nos seus vizinhos da Ásia Central.

A União Europeia está entalada entre a ofensiva russa na Ucrânia, crescentemente tolerada e ajudada pelo bloco das ditaduras, as ameaças russas à sua segurança e os ataques ideológicos e políticos de Trump, com Trump a competir com Putin no ataque aos governantes europeus e nos apoios e financiamentos aos partidos de extrema-direita e de extrema-esquerda.

Os países da União Europeia debatem-se com fragilidades económicas, problemas com a imigração, descontentamento social, instabilidade das suas governações e com uma enorme debilidade militar e associada dependência dos caprichos de Trump, que os despreza, destrata e insulta, enquanto promove, nas suas barbas, políticos e partidos empenhados na destruição da União Europeia e do seu Estado democrático e social.

Trump está a retirar qualquer autoridade moral ao Ocidente, espezinhando internamente as liberdades, os direitos humanos e as suas instituições, pondo em causa a autoridade das Nações Unidas e os acordos internacionais, oferecendo aos regimes autoritários todo o espaço ideológico, não se mostrando incomodado com os avanços de Putin na Ucrânia e com as suas ameaças aos países europeus nem com a sorte dos países asiáticos até agora aliados do Ocidente.

O apoio dos Estados Unidos e a passividade conivente dos governantes europeus face aos massacres do povo palestiniano nos territórios de Gaza e da Cisjordânia espelham o estado de degradação ideológica extrema a que chegaram. Esta conduta só lhes continuará a proporcionar críticas justas e isolamento no resto do Mundo, favorecendo o projecto em curso liderado por Xi Ji Ping.

Temos pela frente, pelo menos, mais três anos e meio de pesadelo destruidor trumpista. Que poderão ser prolongados indefinidamente, caso as manobras de Trump para destruição do edifício democrático americano tenham sucesso. Veremos até que ponto e a que preço conseguirão sobreviver os regimes democráticos e a União Europeia.

Francisco Melro

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