Memórias de um Capitão de Abril
Vasco Lourenço apresentou livro da sua autoria O 25 DE NOVEMBRO
25 DE NOVEMBRO – O que há ainda por contar
Por Luis Manuel Farinha

[Investigador integrado do Instituto de História Contemporânea (FCSH-UNL). Ex- Diretor do Museu Do Aljube – Resistência e Liberdade]
Um livro oportuno, oportuníssimo. E a oportunidade nada tem a ver forçosamente (ou só) com a qualidade do relato testemunhal – que será sempre, e só, um testemunho, como Vasco Lourenço referiu ontem, durante a sua apresentação na Associação 25 de Abril. Mas o testemunho de alguém que esteve no centro dos acontecimentos político-militares. Os seus critérios são, segundo afirma, «contar tudo o que é do seu conhecimento» e «não esconder nada», mesmo que o possa comprometer. Assume todas as responsabilidades.
Julga estar na posse do conhecimento de 90% de tudo o que aconteceu em “25 de Novembro de 1975”. Evidentemente que também sabe, como repetiu mais de uma vez ontem, que discernir sobre o que aconteceu é assumir a sua verdade, sem pretensão que seja a única.
Esta é uma pequena parte da sua verdade:
«Com efeito, no desenrolar das operações de 25 de Novembro de 1975 – acontecimento de onde resultou o recolocar o 25 de Abril nos seus próprios carris, de consolidação de um regime livre e democrático – a análise da situação levou-me a considerar fundamental a minha presença física no Posto de Comando principal, instalado na Presidência da República, delegando no meu adjunto, António Ramalho Eanes, o comando do Posto de Comando Avançado, de onde foram efectivamente conduzidas as operações militares no terreno».
O livro não tem a pretensão de fazer a história do 25 de Novembro – que na verdade tem mesmo uma história curta, por ser, de facto, um momento (embora importante) num processo mais complexo que, pelo menos desde julho de 1975, tinha vindo a opor – por natural incompatibilidade – as duas vias concorrenciais de condução do processo político: uma revolucionária e outra gradualista, reformista e decorrente dos resultados eleitorais de Abril de 1975. Podia ainda referir uma terceira, ansiosa pelo retorno ao passado. Que não vale a pena referir porque, na verdade, não há retornos em História, apenas recomposições tragicómicas.
Este último parágrafo já não decorre das considerações do Capitão Vasco Lourenço, mas da minha leitura dos acontecimentos.
Um livro para ler, evidentemente. Especialmente quando as instituições políticas atuais se arrogam no direito de fazer uma leitura truncada da História e de manipular os acontecimentos a seu belo prazer.
