Esquecer, porque lembrar dói!
Porque razão os emigrantes portugueses são hostis para com os imigrantes?
EXPOSIÇÃO – MAAT Lisboa 22/10/2025 – 02/03/2026
Por Manuela Matos Monteiro
Esta pergunta é recorrente: como é possível que os emigrantes portugueses que sentiram as provações de se ser estrangeiro noutras paragens apoiem forças políticas que excluem os imigrantes que nos procuram?
O problema não é falta de memória até porque a emigração portuguesa é recente e são muitos aqueles que viveram e que vivem esta estatuto. A psicologia pode explicar esta dissonância:
há uma vontade de apagar a experiência de vulnerabilidade vivida, a discriminação, um rejeitar no outro aquilo que fomos.
Há como que uma denegação. Criticar os que chegam é um modo de dizer “já não sou assim”, “não fui assim”. Rejeitar o imigrante que chega é uma forma de rejeitar o que se foi: pobre, invisível, apenas tolerado porque necessário. Este processo é um esquecimento motivado, um esquecimento conveniente, um mecanismo de defesa do EU. Afinal, uma forma de integração no discurso dominante do presente para se ser aceite, para construir uma outra identidade.
A exposição Notre feu, da lusodescendente Isabelle Ferreira, no MAAT, é um significativo contributo para se manter a memória e ajudar-nos a perceber o processo. A narrativa exprime-se em diferentes registos instalativos:
a fotografia rasgada como prova da chegada e pagamento ao passador, os cajados que ajudaram tantos que foram a salto a subir e descer montanhas, o negro da noite que ajudava à invisibilidade.


Sem imagens a chocar pelo explícito, o choque bem mais intenso emerge da de um contar contido. Sem dúvida, uma exposição a não perder porque há muito para ver, ler e pensar.

Manuela Matos Monteiro