Kanu
Homem que não sabia dizer que não

Por Luis Rocha
Há pessoas que passam pela vida como quem atravessa uma praça. Deixam apenas o eco dos passos e ninguém repara muito. E depois há outras que, mesmo vindas de muito longe, acabam por deixar um silêncio estranho quando partem. O Kanu era dessas.
O Kanu vinha do Bangladesh, que para a maioria das pessoas em Vila Nova de Milfontes é apenas uma palavra distante num mapa que nunca abriram. Um lugar do outro lado do mundo de onde chegam homens magros, trabalhadores e silenciosos, aqueles que muitos resumem com uma palavra preguiçosa e cruel que se lê demasiadas vezes nas redes sociais. “Mais um monhé menos um monhé”, dizem alguns, como quem fala de parafusos numa caixa de ferramentas.
Mas o Kanu não era um parafuso.
Era um rapaz de riso fácil, daqueles que conseguem fazer uma piada mesmo quando estão cansados, mesmo quando a vida já lhes ensinou que o mundo nem sempre é um sítio simpático para quem nasce longe e pobre. Tinha atravessado meio planeta para aqui chegar. A salto, como se diz. Primeiro o Médio Oriente, depois as estradas da Europa, sempre com aquela mistura de esperança e teimosia que empurra milhões de pessoas a tentar uma vida melhor.
E não o fez por aventura.
O Kanu atravessou o mundo por uma razão muito simples e muito antiga. Para poder trabalhar e mandar dinheiro para casa. No Bangladesh ficou a família, dependente daquele fio invisível que liga milhões de emigrantes às mesas onde cresceram. Cada prato que cozinhava em Portugal ajudava a encher outro prato a milhares de quilómetros de distância.
Quando chegou a Portugal fez o que tantos fazem. Começou por baixo. Muito por baixo. A lavar pratos.
Quem já trabalhou numa cozinha sabe o que isso significa. O vapor quente, os pratos a cair em cascata, as mãos sempre molhadas, o ruído constante, a pressa dos outros. É o lugar invisível da restauração, aquele onde ninguém repara enquanto tudo corre bem.
Mas o Kanu não ficou ali.
Aprendeu. Observou. Trabalhou. E um dia, quase sem dar por isso, deixou de estar atrás da montanha de pratos e passou para a frente dos fogões. Tornou-se chef. Não daqueles de televisão, com pinças e espuma de beterraba, mas dos verdadeiros. Daqueles que alimentam pessoas todos os dias.
Em Milfontes havia quem o conhecesse apenas como “o rapaz do restaurante”. Quem o conheceu melhor como eu, sabia outra coisa. O Kanu era daquelas pessoas incapazes de negar ajuda. Se alguém precisava de alguma coisa, ele aparecia. Se era preciso ficar mais um bocado, ele ficava. Se alguém dizia “Kanu, dá-me uma mão”, ele respondia sempre da mesma forma: “Claro”.
Era assim.
No dia em que morreu estava de folga.
Tinha finalmente decidido tratar de algo simples e banal. Levar o carro à oficina para umas reparações. Um dia normal, uma pequena pausa na rotina dura de quem trabalha na restauração.
Mas o patrão precisou dele por umas horas.
E o Kanu, fiel à sua natureza, não soube dizer que não.
Sem carro, pegou numa trotinete eléctrica e fez-se à estrada nacional. Não para ir passear, não para ir ver o mar, mas para ir trabalhar. Para desenrascar. Para ajudar.
Era assim o Kanu.
Não sabia dizer que não.
Naquela estrada onde passam carros apressados e distraídos, onde a vida às vezes se decide em segundos, o destino decidiu parar ali a história dele.
E de repente as redes sociais onde tantas vezes se lê que “deviam ir todos para a terra deles” quase que acertaram.
Pois bem.
O Kanu foi. Talvez para um lugar melhor segundo a sua religião.
Era muçulmano, o Kanu. Mas a verdade é que isso, no fundo, pouco importa quando se fala de quem realmente era ele. Porque o Kanu não se definia pela religião, nem pelo país, nem pela cor da pele.
Definia-se por uma coisa muito mais simples e muito mais rara.
Era um homem bom.
Um homem que atravessou continentes para trabalhar honestamente. Um homem que saiu da sua terra para alimentar a família que ficou para trás. Um homem que começou a lavar pratos e acabou a chefiar uma cozinha.
Agora Milfontes tem menos um cozinheiro.
Mas, sobretudo, tem menos um homem decente.
E desses, convenhamos, não há muitos.
Maybe we’ll meet again someday, my friend…