Projeto Global
A propósito do filme de Ivo Ferreira e das reações anti-terroristas

por Carlos Valentim Ribeiro
Terrorismo é uma coisa, ação política através da luta armada é outra completamente diferente.
A violência é, por vezes, um mal necessário que importa por em ação para que deixe de existir violência e haja paz. Nelson Mandela, líder da resistência anti-apartheid defendeu e bem a luta armada, contra o regime instalado na África do Sul. A opção do CNA foi plenamente justificada e foi confirmada pelo sentido humanista libertador do seu líder que passou a ser líder de toda uma nação, defendendo a harmonia e a coexistência pacífica entre os diversos setores da sociedade sul-africana.
O regime do apartheid não caiu só pela ação revolucionária e violenta do CNA, mas esta variável foi decisiva para que a inversão de perspectivas tivesse ocorrido num país dominado pelos antecessores de Netanyhau “Partido Nacional e a Igreja Reformista Holandesa cujo credo se baseava numa leitura peculiar, em africâner, da Bíblia – que colocava o povo Boer no papel de escolhido“. Terrorismo é terrorismo?, talvez, trata-se de um conceito ambíguo inventado para facilitar a vida a quem quer por tudo no mesmo saco.
Nos dias de hoje colocar o carimbo de “terrorista” está banalizado em tudo o que surge associado a violência. Misturar ações terroristas – ações cujo objetivo é instalar o terror através da violência gratuita – com ações de luta armada, violentas e combativas, por exemplo contra os ocupantes nazis ou contra os opressores coloniais de séculos, tem por consequência colocar Jean Moulin, Charles De Gaulle e Amílcar Cabral numa categoria de atores políticos condenados à prisão perpétua. Ou as revoltas no Gueto de Varsóvia, a coragem de Edelman e dos seus pares na luta contra os carrascos nazis devem ser consideradas “terrorismo”?.
E nos dias hoje, a confrontação que é sistemática entre os agentes do ICE e norte-americanos que são tratados com violência [ e até assassinados] por terem origens não-EUA, não justifica para além da luta política convencional mecanismos de dissuasão que faça encolher o monstro na sua carapaça?
Tudo indica que a grande campanha anti-terrorista tem mais a ver com o Big Brother do que com a defesa da democracia, da paz e da harmonia social nas sociedades. As perspectivas políticas guevaristas e blanquistas, que foram retomadas pelo maoismo na tese do “campo cercar a cidade”, já foram arrumadas no balanço da história sobre as mudanças de regime. Então o que leva tanta gente a querer classificar Palma Inácio e Camilo Mortágua como “terroristas”.
Sei que não é só a covardia pessoal, é também a defesa submissa de um regime de lacaios …ver e ler La Boetie ” Discurso sobre a servidão voluntária”…a servidão desejada pelos próprios indivíduos.