A justiça poética do Torreense
Através do Torreense, o interior enviou à capital a mensagem que só o futebol, por vezes, consegue dar
CRÓNICAS DO VENTO QUE PASSA
Miguel Carvalho – TSF | 25 de maio, 2026
Torres Vedras já tinha dado ao país um cardeal-patriarca, antes bispo do Porto. Na família de Manuel Clemente, onde o Torreense é devoção antiga, houve uma fábrica de moagem que ficou na memória coletiva por ter laborado horas extraordinárias, durante a Segunda Guerra Mundial, para assim garantir que o pão nunca faltava.
Na final da Taça de Portugal, quando o nacional-futebolismo dava por adquirido que o Sporting teria o prémio de consolação de uma época falhada e a ditadura leonina não teria oposição à altura, o clube de Torres Vedras fez também História a trabalhar fora de horas.
Não há aqui milagres.
Na verdade, talvez tenha entrado em campo a “justiça poética”, expressão com largo historial entre líricos do futebol e prosadores de excelência que tendem a romantizar vitórias dos pequenos contra os grandes num mundo de injustiças, talhado para poderosos. Escritores como Eduardo Galleano, Vázquez Montalbán ou Nelson Rodrigues associavam esse destino improvável a uma espécie de resgate dos invisíveis ou oprimidos, que, intrometidos e insolentes, ousam desafiar a ordem natural das coisas e desforrar-se dos senhores do mundo com heroísmo, talento e graça.
Impossível, pois, não ver na Taça de Portugal ganha pelo Torreense a justiça poética que o futebol reclamava desde que uma arbitragem escandalosa afastou o Santa Clara do caminho do Sporting.
Há também algo de justiça poética numa época em que o presidente dos “leões” exibiu uma desconhecida faceta de rufia, ainda que perfumada, como se fosse o dono da bola de uma elite privilegiada.
Mais importante ainda: como não ver, neste triunfo, a justiça poética para as regiões vítimas da prosa devastadora das recentes tempestades e que aguardam pelo devido auxílio do Estado enquanto reconstroem laços, tetos e amanhãs?
Através do Torreense, o interior enviou à capital a mensagem que só o futebol, por vezes, consegue dar.
Ao celebrar o seu Carnaval tardio, Torres Vedras mostrou aos doutos senhores da governação do país que, por vezes, bastam duas bolas no sítio certo para reduzi-los à imagem que merecem: a de cabeçudos do carro alegórico a que, por preguiça, comodismo e incompetência, também chamam país.
