17 de Junho, 2026

Os Novos Velhos do Desterro

Num Portugal em Construção

Joaquim Cândido Machado

“Hoje é sempre o primeiro dia do resto das nossas vidas.” — Sérgio Godinho

Portugal conhece bem o significado do desterro.

Conhece-o através dos milhares de homens e mulheres que partiram em busca de pão, de trabalho e de dignidade. Conhece-o através dos emigrantes que deixaram para trás a sua terra, a sua família e os seus afetos para procurar uma vida melhor. Conhece-o através dos exilados políticos, dos que passaram pelo Tarrafal, dos que conheceram as prisões de Peniche e de todos aqueles que sofreram por acreditarem na liberdade.

Conhece-o através da saudade.

Por isso surpreende-me que surjam entre nós os novos Velhos do Desterro.

São aqueles que olham para quem chega e veem primeiro uma ameaça. Aqueles que transformam o medo numa política e a desconfiança numa identidade. Muitas vezes mostram-se fortes com os fracos, mas tornam-se simples instrumentos dos poderosos. Aqueles que acreditam que Portugal se protege afastando os que o procuram, esquecendo que a nossa própria história foi tantas vezes uma história de partida, de procura e de esperança.

A nossa história não é simples.

É uma história feita de grandezas e de injustiças, de coragem e de sofrimento.

Somos herdeiros de feitos extraordinários, mas também de erros profundos.

Somos filhos dos emigrantes e dos exilados. Somos filhos dos escravos e daqueles que participaram no comércio de escravos. Somos filhos da liberdade conquistada e das opressões que a antecederam. A maturidade de um povo não consiste em esconder estas contradições, mas em enfrentá-las com verdade e maturidade.

A cultura portuguesa nunca foi uma fortaleza fechada.

Camões compreendeu-o antes de todos. Nos Lusíadas, o Velho do Restelo representa o medo perante o desconhecido, a tentação de recusar a viagem e de permanecer na segurança das certezas antigas. Os novos Velhos do Desterro são seus descendentes. Não receiam apenas a viagem. Receiam o encontro. Receiam aqueles que chegam de longe e que trazem consigo novas experiências, novas culturas e novas formas de olhar o mundo.

Mas Portugal nunca cresceu pelo medo.

Nem a cultura portuguesa nasceu isolada do mundo.

Shakespeare não era português, mas ajudou-nos a compreender a condição humana nas suas grandezas e fragilidades, nas suas ambições, medos, amores e contradições. Ao lê-lo, reconhecemo-nos porque os grandes dramas humanos não têm nacionalidade.

Cervantes também não era português, mas Dom Quixote continua a caminhar ao nosso lado. Entre o sonho e a realidade, entre a coragem e a ilusão, entre aquilo que o mundo é e aquilo que poderia ser, encontramos uma das perguntas fundamentais da existência humana. Portugal sempre viveu um pouco desse espírito quixotesco: a capacidade de sonhar para além do horizonte sem perder totalmente o contacto com a realidade.

Fernando Pessoa ensinou-nos o desassossego. Recusou as respostas fáceis e mostrou que a identidade humana é sempre mais rica do que as definições estreitas. E quando escreveu que a sua pátria era a língua portuguesa, não estava a falar de uma fronteira. Estava a falar de uma comunidade de cultura, memória e imaginação.

Amália deu voz ao povo anónimo. Ao povo que lavava no rio, ao povo do trabalho duro, da pobreza, da dignidade silenciosa e da resistência quotidiana.

José Mário Branco recordou-nos que toda a vida é uma viagem. “Vim de longe para aqui chegar” é mais do que uma canção. É a história de cada pessoa que procura o seu lugar no mundo. É também a história dos emigrantes, dos exilados e daqueles que procuram uma nova oportunidade. E é um convite à consciência crítica, à capacidade de um país olhar para si próprio sem ilusões e sem medo da verdade.

Zeca Afonso cantou a liberdade, mas cantou também a amizade, a igualdade e a fraternidade. Lembrou-nos que uma sociedade justa não se constrói contra os outros, mas com os outros.

E Chico Buarque ajuda-nos a compreender que a língua portuguesa é maior do que qualquer fronteira. Entre Portugal e o Brasil existe uma história complexa, por vezes dolorosa, mas existe também uma herança comum de palavras, afetos e humanidade. A língua portuguesa tornou-se um espaço de encontro entre povos diferentes que continuam a reconhecer-se uns nos outros.

Sérgio Godinho recorda-nos algo essencial: hoje é sempre o primeiro dia do resto das nossas vidas. A frase parece simples, mas contém uma profunda verdade humana. Nenhum indivíduo, nenhum povo e nenhuma nação estão condenados a repetir eternamente o passado. A vida é transformação, aprendizagem e possibilidade.

Talvez seja essa uma das lições mais importantes da experiência portuguesa. Somos herdeiros da nossa história, mas não seus prisioneiros. Podemos reconhecer os erros sem ficar presos a eles. Podemos honrar a memória sem deixar de construir o futuro.

A explosão de liberdade do 25 de Abril justificou plenamente os sofrimentos de todos aqueles que acreditaram na liberdade, nos campos de prisão, no exílio, na clandestinidade e na resistência silenciosa de tantos portugueses anónimos.

Mas talvez não tenhamos ido tão longe quanto poderíamos. O apego excessivo às ideologias, às certezas absolutas e às divisões herdadas do passado impediu-nos, por vezes, de compreender plenamente a complexidade da nossa própria história.

Também as religiões, quando esquecem a sua dimensão humanista e se transformam em instrumentos de separação, podem contribuir para essa incompreensão.

A maturidade de uma democracia não consiste em escolher entre memórias opostas, mas em aprender a integrá-las. Não consiste em repetir velhas divisões, mas em criar novas possibilidades de encontro.

Talvez o maior desafio de Portugal continue a ser esse: transformar a memória em sabedoria e a liberdade em responsabilidade.

Ser português nunca significou pertencer a uma raça ou a um sangue.

Significou participar numa história, numa cultura e numa comunidade humana em permanente construção.

Quando governos e partidos dedicam mais energia a afastar os que nos procuram do que a integrá-los, deixam de agir com a confiança de uma nação madura e passam a falar a linguagem do medo.

A força de uma nação não se mede pela altura dos seus muros, mas pela confiança que tem em si própria para acolher, integrar e construir um destino comum.

Porque um povo que esquece o seu próprio desterro corre o risco de perder a memória de si mesmo.

E Portugal, quando é fiel ao melhor da sua história, não escolhe o medo. Escolhe o horizonte.

Porque hoje é sempre o primeiro dia do resto das nossas vidas.

E o resto das nossas vidas deve servir para fazer aquilo que nunca foi feito.

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