1 de Julho, 2026

Competências dos adultos em Portugal: estamos a ficar para trás

Os resultados do PIAAC mostram como a situação das qualificações e das competências dos adultos constitui o mais relevante desafio educativo do país

João Queirós Professor da ESE-P.PORTO | Investigador do inED – Centro de Investigação e Inovação em Educação | Subcoordenador Nacional do PIAAC (2019-2024)

Entre 2019 e 2024, Portugal participou pela primeira vez de forma bem-sucedida no Programa Internacional para a Avaliação das Competências dos Adultos (PIAAC), um estudo comparado de grande fôlego promovido pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE).

Os resultados do estudo revelaram-se especialmente preocupantes no caso português.

O desempenho dos adultos residentes em Portugal, em todos os domínios de competência avaliados – literacia, numeracia e resolução de problemas –, ficou muito aquém do desempenho médio observado no conjunto dos países participantes: numa escala de 500 pontos, os adultos residentes em Portugal obtiveram proficiência média de 235 pontos em literacia, 238 em numeracia e 233 na resolução adaptativa de problemas, abaixo das médias de 260, 263 e 251 pontos, no conjunto dos países da OCDE, respetivamente para a literacia, a numeracia e a resolução de problemas.

Para além de revelarem níveis médios de proficiência bastante modestos, os dados do PIAAC evidenciam ainda, para o caso português, a amplitude do problema da posse de baixas competências: aproximadamente 40% das pessoas adultas com idades compreendidas entre os 16 e os 65 anos que residem em Portugal apresenta proficiência de “Nível 1” ou “Abaixo de Nível 1” nos diferentes domínios de competência avaliados,

o que significa que não possuem competências adequadas à confrontação bem-sucedida da maioria dos desafios com que lidam diariamente,

e que envolvem a mobilização de saberes essenciais, como a capacidade de ler e compreender textos complexos, a habilidade de fazer cálculos envolvendo percentagens e proporções ou a capacidade para lidar com desafios quotidianos em contextos dinâmicos e mutáveis, incluindo digitais. Ademais, e esse é o dado porventura mais alarmante, cerca de 30% dos adultos que vivem em Portugal apresentam baixa proficiência nos três domínios de competência em simultâneo (18% da população adulta, em média, no conjunto dos 31 países participantes no 2.º Ciclo do PIAAC).

O estudo demonstra também que as competências não se distribuem de forma homogénea, sendo a sua distribuição fortemente influenciada pelo perfil e características das pessoas adultas: em especial na numeracia e na resolução de problemas, há, em Portugal, vantagens em matéria de proficiência favoráveis aos homens; no plano etário, são os adultos mais jovens, em particular aqueles cuja idade se situa entre os 16 e os 24 anos, muitos dos quais frequentam ainda o sistema formal de ensino, que mais perto estão da média da OCDE, sendo os adultos mais velhos aqueles que menor proficiência revelam; o nível de escolaridade alcançado constitui um elemento decisivo na explicação do nível de competências detido, com vantagens muito significativas para os adultos com diploma de ensino superior; o mesmo pode dizer-se do nível de escolaridade dos pais, que está positiva e significativamente associado ao nível de competências demonstrado pelas pessoas adultas;

e a participação em iniciativas de educação e formação, designadamente em contextos não formais, constitui também um fator promotor da proficiência, sublinhando a relevância da educação permanente e ao longo da vida.

Para os adultos que possuem níveis mais elevados de proficiência, as vantagens são evidentes, como revelam também os dados do PIAAC. Verifica-se, desde logo, uma associação positiva entre proficiência e resultados em matéria de emprego e salários: os adultos posicionados nos níveis superiores da escala de competência em numeracia, por exemplo, apresentam empregabilidade mais elevada e auferem salários superiores aos que se encontram em patamares inferiores de proficiência. Os adultos mais proficientes apresentam igualmente maior probabilidade de reportar um estado de saúde “excelente ou muito bom” e declaram maior satisfação com a vida, para além de revelarem índices mais elevados de participação cívica, por exemplo através do desenvolvimento de iniciativas de voluntariado.

Os resultados do PIAAC – tornados públicos no final de 2024 – mostram como a situação das qualificações e das competências dos adultos constitui o mais relevante desafio educativo do país – e certamente um obstáculo estrutural colocado no caminho do desenvolvimento económico e da promoção da coesão social. Não obstante, o que o último ano e meio revela é a persistência em Portugal de impasses e bloqueios no que respeita à adequada apropriação e mobilização dos dados deste estudo.

Mesmo se feito o diagnóstico e identificados os pontos críticos do problema, a educação e formação de adultos permanece longe da linha da frente das prioridades da política pública.

Contrariamente ao que estão a fazer os países mais desenvolvidos da União Europeia, que começaram já a tomar em boa conta os resultados do PIAAC – nesses casos, aliás, resultados bem menos preocupantes –, e em contraciclo com as orientações da própria Comissão Europeia, que poucos meses depois da apresentação dos resultados do estudo da OCDE lançou a iniciativa “Union of Skills”, dedicada precisamente à promoção da educação de qualidade ao longo da vida e ao desenvolvimento das competências dos adultos europeus, Portugal tarda em responder de forma resoluta a este desafio – estamos, também neste plano, tudo indica, a ficar para trás.

Editado NSF – Destaques e subtítulo são da responsabilidade do NSF.

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