5 de Agosto, 2026

Que sabemos nós, adultos e crianças, da vida destes nossos compatriotas?

[CONTADORES DE HISTÓRIAS]

por Lucília Salgado

Um dia que montaram uma tenda aqui no passeio ao pé de casa, debaixo de uma árvore baixinha, o meu neto de 6 anos disse que também queria dormir ali em baixo. Eu disse que não poderia ser, que aquelas pessoas eram muito pobres que não tinham casa, por isso estavam ali.

Reagiu, fortemente, dizendo se eu já tinha pensado no preço de uma tenda?

Mas no piso 0 da Gare, viviam muitos sem abrigo. Um espaço muito longo onde estavam mais de 100 pessoas que aí dormiam, que aí viviam.

Sentavam-se ou deitavam-se no “banco de pedra!”, e os seus haveres permaneciam ao longo da parede, enchendo completamente toda esta zona. Colchões, sacos, roupas pessoais, etc. Ao longo desse espaço encontrávamos, por exemplo, uma esquadra dinâmica de Polícia, uma casa de banho, o acesso ao parque de estacionamento.  

Mas aquilo era a sua casa, destas pessoas. Um dia, o meu companheiro pôs o pé para apertar o sapato, numa zona onde não havia ninguém e, para nosso espanto, um casal mais velhote, veio insultá-lo pelo facto. Entendemos que isso se deveu por considerarem que estaríamos a menosprezar a sua casa! Colocáramos um pé no local onde viviam. Entendemos e partimos.

Hoje, não sei se a Câmara Municipal, se quem seria, os fez deixar de habitar este sítio. A pouco e pouco, foram desaparecendo daquele lugar. Ficou apenas um casal e um monte enorme de colchões e roupas. Seria o que deixaram os que partiram?

Estranhamente, este único casal que ficou é o mesmo que, há tempos, nos tinha insultado por apertarmos o sapato, no degrau. Teriam ficado por serem locatários de longa duração?

O que se terá seguido a este espaço, a estas pessoas?

…e as nossas vizinhas sem abrigo!

Nesta zona de Lisboa conhecemos também mulheres sem-abrigo.

Da janela da nossa casa (3º andar) vimos diariamente duas mulheres que “moram” no descampado em frente, numa tenda canadiana que montam e desmontam todos os dias.

Explico. A um canto do campo, existe uma árvore, tipo arbusto pequeno que não se vê da estrada, mas se divisa facilmente dos prédios em frente, como o meu.

Todos os dias, estas mulheres chegam ao meio, fim da tarde com as mochilas às costas e montam a tenda onde permanecem até à manhã seguinte.

De manhã, por volta das 8 horas, saem da tenda devidamente vestidas, sacodem a roupa cuidadosamente, penteiam-se, desmontam a tenda, põem as mochilas às costas e partem conversando, não sabemos para onde. Por curiosidade um dia disse que gostava de as seguir para saber o que fariam. Mas lá em casa disseram-me que cada um tinha direito à sua privacidade e… já não fui.

São pessoas muito cuidadosas, até educadas. Quase que diria que são sem-abrigo da “classe média”. Vestem loggins e sweatshirts de várias cores, e ténis, aparentemente de qualidade.

Uma tem o cabelo liso e que penteia cuidadosamente, a outra, que tem cabelo que algum dia teria sido pintado, encaracolado, que a companheira ajuda a pentear dando-lhe, ternamente jeitos regulares. Como se uma fosse o espelho da outra, embora tão diferentes.

Estivemos umas semanas fora e, quando voltámos, já não as vimos. Pensámos que tivessem ido de férias porque têm tudo o que precisam. Transportam todos os seus haveres e até têm uma boa tenda canadiana – cara, como diria o meu neto! Mas uns dias depois de cá estarmos voltaram e têm todos os dias a rotina habitual.

Como serão as suas vidas? Serão, ao menos, felizes? Não têm ar triste, mas… quem vê caras, não vê corações.

Será mesmo um novo tipo de vida, viver de outra maneira?

Lucília Salgado, Lisboa, 05.08.2026

Foto de destaque © Gabriella /Sortiraparis

 

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