A importância de VARRER
CONTADORES DE HISTÓRIAS – Vai ser lindo, o inverno, vai vai

Manuela Matos Monteiro
Gosto de varrer. Varrer desanuvia-me a cabeça. Há textos que se resolvem enquanto agito a vassoura em movimentos pendulares a empurrar o pó para a frente. Não penso em nada de especial mas, quando volto ao texto emperrado está mais solto.
Hoje fui varrer a rua porque era preciso: as férias acumularam mais lixo do que o que deviam e lá fui eu. Parei 3 vezes: com a D. Júlia a perguntar como foram as férias, e a queixar-se que agora os joelhos a massacravam, mesmo no verão “Vai ser lindo, o inverno, vai vai” e as patroas querem é o serviço feito!
Pouco depois, passou o Bu (avô, para a gente da rua) a ver cada vez pior com os 80 a pesar cada vez mais. “Mas vi que o MIRA estava de férias! Faz diferença ver estas portas fechadas!” E lá foi ele Miraflor acima depois de me dar as habituais palmadinhas nas bochechas.
A Bininha também parou e foi direta ao que lhe moia a alma “A minha prima anda aflita; o marido tem dois tumores no cérebro. Foi operado mas está desenganado. E não deixa ninguém dormir, sempre a chamar, a chamar”. Fica-se sem palavras para além do meu mantra “Temos de apreciar o bem que temos, enquanto temos”. A Bininha encolheu os ombros e pouco convencida desceu o passeio e foi para casa algumas portas abaixo com um ”Saúdinha, porque sem ela mais nada importa na vida” Pois é … é o que fica para dizer.
Quando perguntam porque razão a rua aceitou e acarinhou tanto o MIRA, enumero: reabilitação dos armazéns em ruína, mais movimento na rua, mais alegria mas o passaporte para a aceitação começou com o varrer a rua. Era o que nos irmanava porque necessário, comum, doméstico, porque todos varremos de maneira parecida. Todas as conversas começavam pela “vassoura” depois escalavam para o tempo e a seguir para a saúde. Depois as conversas especializavam-se para a vida de cada um (sobretudo cada uma porque as mulheres são as que mais falam, as que mais abrem a caixa das dores e dos desabafos!).
Olhei para vassoura enquanto trazia o apanhador e ao vê-la junto à porta entreaberta, pareceu-me que figurava uma pequena metáfora da história do MIRA.

© Manuela matos Monteiro