17 de Junho, 2024

Há 49 anos, o assassinato de Amilcar Cabral

CAUSAS | Anticolonialismo – Amilcar Cabral

Imaginem em 1973 um exilado português no Luxemburgo ousar escrever um artigo sobre Amilcar Cabral e este ter sido publicado na imprensa nacional com uma mensagem clara: desmascarar o colonialismo da ditadura portuguesa e denunciar a morte do líder pan-africano como um assassinato organizado por forças reacionárias e colonialistas que pretenderam cortar a cabeça ao movimento libertador da Guiné-Bissau e Cabo Verde, o PAICG-Partido Africano para a Libertação da Guiné-Bissau e as ilhas de Cabo Verde.

Publicado no dia 17 de Março de 1973, no Luxemburgo, o artigo sobre o assassinato no jornal nacional “Arbecht” (trabalho) “Der proletarier” (o proletário), da Confederação Geral do Trabalho valeu ao seu autor, António Paiva, criticas violentas do então Cônsul de Portugal no Luxemburgo, que não suportava que se falasse mal do regime e muito menos da guerra colonial.

Esta iniciativa de escrever e enviar artigos para órgãos de comunicação do país de acolhimento assumia, naqueles anos de exílio, uma grande importância porque traduzia uma forma concreta e prática a solidariedade com os movimentos de libertação das ex-colónias portuguesas. Como afirma António Paiva “aproveitávamos todas as possibilidades legais para denunciar o regime e a guerra colonial junto da opinião pública dos países que nos acolheram e nessa circunstância publiquei muitos artigos”. Ao mesmo tempo esta produção escrita assentava numa pedagogia ativa sobre o que estava em causa e onde ocorriam os acontecimentos “no fim do artigo, adiantei algumas informações para que as pessoas pudessem ter uma ideia do que era a Guiné-Bissau, completamente desconhecida pelos luxemburgueses” completou o autor do artigo que aqui reproduzimos como homenagem a Amílcar Cabral e como valorização dos atos de resistência e luta no período do exílio antes do 25 de Abril.

                                                 


Por António Paiva | Luxemburgo 

Artigo publicado no jornal da Confederação Geral do Trabalho do Luxemburgo

Edição do 17 de Março de 1973

“O colonialismo português foi muitas vezes denunciado, mas quando é que os governos tomarão as medidas necessárias para o eliminar efectivamente?”, podia ler-se num comunicado de imprensa distribuído pela Confederação Mundial de Trabalho (C.M.T.).

Amilcar Cabral, chefe do Partido Africano para a Libertação da Guiné-Bissau e as ilhas de Cabo Verde (P.A.I.G.C.) foi assassinado a 8 km de Konakry em frente à sua casa, Sábado, 20 de Janeiro, cerca das 22:50 horas (G.M.T.). Os autores do atentado tentaram capturá-lo, mas mataram-no com rajadas de metralhadora por ele ter resistido. Uma bala atravessou a nuca de Cabral e saiu ao nível do olho esquerdo. Nesse mesmo dia o Sr. Sékou Touré, chefe de Estado Guineense, que oferecia hospitalidade ao dirigente nacionalista desde o início da luta, declarou numa alocução radiodifundida que “os principais autores deste crime, assassinos contractados, mercenários ao serviço do colonialismo português” tinham sido presos sem todavia revelar as suas identidades.

De quem é a responsabilidade deste crime?

Que “toda a luz seja feita” sobre a morte de Amilcar Cabral, desejava um comunicado publicado em Paris pelo Reagrupamento dos Guineenses do exterior. Em Portugal a televisão refletindo o ponto de vista do governo, deu a entender que a morte foi um ajuste de contas entre elementos rivais do movimento nacionalista, enquanto que um alto responsável declarava à agência Reuter que “Portugal não tinha nada a ver com o assassinato”. O presidente Senghor, chefe do Estado Senegalês, excluiu imediatamente a hipótese de “ajuste de contas”, entre elementos rivais do movimento nacionalista. “Vocês adivinham de onde vem o gesto, declarou ele, tem a assinatura de Portugal. Não digo que tenha sido Caetano que o ordenou. É mesmo provável que isso não seja o caso. Ainda menos Spínola, o governador da Guiné-Bissau. Mas digo que são os reaccionários que governam efectivamente Portugal”.

Um “Comité Revolucionário Alargado” foi formado para conduzir o inquérito sobre o assassinato. Este comité é composto por membros do partido único Guineense, os embaixadores da Argélia e de Cuba em Konakry e de representantes da Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO) e depois do alargamento ainda com representantes da Tanzânia, do Senegal, da Zâmbia, do Egipto, da Nigéria, da Serra Leoa e da Sibéria, assim como os dirigentes do P.A.I.G.C. que ficam presentes em Konakry.

No dia 23 de Janeiro, o Sr. Sékou Touré declarava à Radio-Konakry que o assassino de Amilcar Cabral era o Sr. Inocento Camilo comandante da marinha do P.A.I.G.C. Ele declarou ainda que o Sr. Camilo e os seus cúmplices, todos presos, actuaram por conta do governo Português que teria prometido a certos nacionalistas acordar a independência à    Guiné-Bissau “continental” com a condição de se dissociarem dos nacionalistas das ilhas de Cabo Verde. Com efeito Amilcar Cabral, que era originário dessas ilhas, tinha sempre sublinhado que a Guiné-Bissau e Cabo Verde formavam um conjunto indissolúvel. Os Portugueses, uma vez eliminado Amilcar Cabral e os numerosos mestiços que integram as fileiras do P.A.I.G.C. seriam assim “retirados sobre as ilhas de Cabo Verde que constituem para eles e os seus aliados uma base estratégica de importância capital e teria trazido ajuda e protecção aos Africanos da Guiné-Bissau”. Estas informações teriam sido dadas pelos cúmplices do Sr. Camilo, ouvidos pelo Comité Revolucionário.

Esses homens seriam, segundo o Sr. Sékou Touré, Africanos “pertencentes ao exército colonialista português, que se tinham infiltrado nas fileiras do P.A.I.G.C. fazendo-se passar por desertores”. O governo português, ao que parece, ter-se-ia aproveitado das dissensões entre a Guiné Bissau continental, subdesenvolvida e as ilhas de Cabo Verde, mais evoluídas.

Enfim, nas conclusões entregues ao Estado Maior do P.A.I.G.C. pelo Comité Revolucionário, soube-se que quinhentas pessoas foram interrogadas; entre elas, doze são consideradas como sendo cúmplices e quarenta e três como sendo suspeitas.

Nós queremos reencontrar a nossa própria história

É sobre esta declaração de Amilcar Cabral que se baseia a luta que o povo Guineense trava pela independência. Nascido em Cabo Verde em 1922, Cabral fez os seus estudos de Agronomia na Universidade de Lisboa. Em 1956 fundou, com outros compatriotas, o P.A.I.G.C. que viria a desencadear a luta armada, no 23 de Janeiro de 1963 atacando a caserna de Tête.

Amilcar Cabral era um dirigente de grande talento. Para Portugal ele era o adversário mais sensível e o melhor treinado nos seus valores. Aquele que tinha anunciado recentemente na ONU “a eleição de uma Assembleia Nacional e soberana que proclamaria com toda a legalidade, a existência de um novo Estado Independente em Africa”. “A situação do nosso país, declarou ele, é aquela de um Estado Independente que tem ainda certas partes do seu território – em particular os centros urbanos – ocupados pelas forças armadas estrangeiras. Nós já libertamos mais de 2/3 do nosso território nacional e construímos, não obstante a guerra, uma vida nova nessas regiões libertadas”.

A sucessão de Cabral à cabeça do P.A.I.G.C. será provisoriamente assegurada pelo Sr. Aristides Pereira. Secretário geral adjunto do partido, o Sr. Pereira assumirá as funções de primeiro responsável da direcção do partido até à convocação do conselho superior da luta, órgão supremo de decisão nos intervalos dos congressos. O Sr. Pereira tinha sido sequestrado pelos membros do comando que assassinaram Amilcar Cabral. Foi a marinha guineense que o libertou depois de ter persuadido a embarcação na qual os autores do golpe tinham tomado o largo.

Certamente a morte de Amilcar Cabral, como aquela de Eduardo Mondlane, presidente da Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO) que tinha sido morto por uma bomba de retardamento em Fevereiro de 1969, representa uma perda considerável para o povo da Guiné-Bissau e para os povos do terceiro mundo que sofrem pela justiça, mas a luta pela libertação nacional continuará, não obstante as repressões por parte do governo português. Foi aliás o que declarou o Sr. Luís Cabral, irmão do defunto e membro da Comissão permanente do comité executivo do partido, no decorrer de uma conferência de imprensa. “Todas as palavras de ordem de Amilcar Cabral serão realizadas pela direcção do partido. A primeira tarefa será a de intensificar o combate em todas as frentes de luta”.

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