17 de Junho, 2024

A medição do bonheur, entre outras abordagens, na visita acompanhada a Latouche

L’abondance frugale comme art de vivre – Bonheur, gastronomie et décroissance (Autor: Serge Latouche)

Comentários sobre o conteúdo dos diferentes capítulos | Continuação da Primeira Parte

Por Filipe do Carmo

Première Partie: La décroissance et les paradoxes du bonheur – La joie de vivre dans la frugalité

  1. (continuação)

Du plus grand bonheur pour le plus grand nombre au plus fort PIB par tête

Latouche cita Jacques Ellul (1912-1994) – filósofo, historiador, sociólogo e teólogo, cujo tema dominante do seu trabalho foi a ameaça à liberdade humana e à religião, provocada pela tecnologia moderna – para comentar a famosa fórmula de Saint-Just sobre o bonheur ser uma ideia nova na Europa. Para esse autor, o que constituía novidade era que esse jovem Montanhês tivesse tido em vista uma mudança de meios: a industrialização, o crescimento do consumo de bens que deveria beneficiar todos; e, complementarmente, a proclamação pela República da Liberdade e da Igualdade surgia-lhe como o meio de tornar enfim possível e concreta a ideia desse bonheur. Superava-se assim o que era uma mera ideia para entrar numa possível realização.

O que já de algum modo havia sido antecipado por Voltaire (1694-1778) quando referia que cerca de 1750, a nação, farta de reflexões morais e disputas teológicas sobre a graça e sobre convulsões, havia finalmente começado a pensar no trigo. E que desse modo o bonheur, enquanto bem-estar material, fosse função da riqueza das nações. De facto, em tal sentido, trata-se bem de uma ideia nova que emerge um pouco por todo o lado na Europa e está estreitamente ligada à de progresso que se desenvolve na mesma época. Diversamente da “vida beata” dos Antigos, essa ideia não assume características de rigidez; não é somente a “vida agradável” que é prometida, é uma vida melhor. É assim que nem a promessa da beatitude para além da vida nem o espectáculo da prosperidade do monarca (ou mesmo da nação) encantam os membros da sociedade burguesa e o que conta é realmente o enriquecimento individual. O programa da modernidade, que terá feito nascer a sociedade do crescimento, não foi senão, convém recordá-lo, le plus grand bonheur pour le plus grand nombre. Trata-se de um programa que foi formulado, quase em simultâneo, por toda uma série de pensadores da Europa das Luzes, desde Francis Hutcheson (1694-1746) a Jeremy Bentham (1748-1832), passando por Cesare Beccaria (1738-1794). E é com Adam Smith que a Riqueza das Nações é propagandeada, logo no título do seu conhecido livro, enunciando as leis susceptíveis de “enriquecer o povo e o soberano”, em que avulta a ideia de que a boa governação deverá facilitar o jogo de uma mão invisível (que é uma metáfora que se traduz pela defesa incondicional do individualismo e do liberalismo; ou um enunciado de que uma defesa dos interesses particulares conduz à prossecução do interesse geral).

Se, conforme já referido, o grande programa da modernidade é o crescimento, e se o bem-estar geral não se satisfaz só com mais trigo, compreende-se que a eclosão de novas necessidades se revele essencial ao bonheur. Sem bem-estar, tal bonheur será ilusório e fútil, revelando-se apenas embuste e escárnio para o homem realista dos novos tempos.[1] E só a aquisição de bens e serviços tornarão de facto a vida agradável e confortável.[2] O que conduz Latouche a concluir:

“O direito ao bonheur é, portanto, um direito individual. Procurá-lo leva então a trabalhar, produzir, vender, ter o suficiente para comer, sair da pobreza, tornar-se proprietário, enriquecer, acumular, deixar em herança, etc. E acima de tudo, a ganhar o máximo de dinheiro possível…”

Conforme já referido acima, a medição do bonheur, ou da “qualidade de vida”, é correntemente feita através do PIB per capita, o que requer em primeiro lugar a consideração do tipo de bens (coisas, objectos, imobiliário, maquinismos, …) e de serviços, cuja produção tem que ser avaliada. Em segundo lugar é preciso quantificar tais bens e serviços, o que é feito através de práticas de natureza estatística levadas a cabo sobretudo nas entidades produtoras. Também nessas entidades essas quantificações são complementadas por avaliações em termos monetários, as quais são posteriormente objecto de agregações e outras técnicas levadas a cabo por organismos estatais nos diferentes países. O PIB (Produto Interno Bruto) é um valor geralmente relativo a cada um desses países, após tais agregações de valores a nível nacional, que tem em particular como característica o facto de ser calculado bruto, conforme a designação já o especifica. Ou seja, não se tem conta da perda de património natural e artificial necessária à produção. E, em particular, existindo custos de produção que permanecem escondidos (não sendo portanto considerados no cálculo final), tais custos são designados externalidades negativas.

Mas, em todo esse processo, a consideração que se faz do tipo de bens e serviços a serem avaliados, começa logo por constituir um problema. Se a produção de um espectáculo numa sala é correntemente avaliada e contribui para o cálculo do PIB (o que à primeira vista está correcto porque o espectáculo produz bonheur), porque é que muitos outros esforços humanos que são levados a cabo para ter/dar prazer (por exemplo uma simples conversa entre indivíduos que é altamente agradável e instrutiva) são excluídos de tal cálculo? A resposta é que isso conduziria à incapacidade de a economia se constituir como ciência (o cálculo económico só é possível havendo um mínimo de organização em termos contabilísticos, e não existem dúvidas sobre a inexistência de tal organização em tal tipo de conversas ou ainda no respeitante às simples tarefas de natureza doméstica executadas pelos próprios e de muitas outras tarefas).[3] Assim, o PIB mede mais o bien-avoir do que o bonheur, tal como ele era entendido pelos homens das Luzes. E será conveniente estarmos conscientes de que, após mais de dois séculos de crescimento e uma multiplicação colossal da produção, deveríamos estar a nadar em bonheur. O que, como sabemos, não é verdade.[4]

Na realidade, todos nós temos sido formatados a ver no PIB per capita a medida do nosso bem-estar, sendo este estritamente proporcional ao nosso consumo de bens e serviços disponibilizados pela actividade mercantil. E esse indicador está fortemente ligado, não só no nosso imaginário mas também nos factos, à qualidade de vida e ao nível dos salários. E, para a percepção corrente do económico, é sem dúvida o dinheiro que faz a felicidade.

(Ponto 1: Les vicissitudes de la « vie bonne »: de la béatitude au bien-avoir – a continuar)

Lisboa, 22 de Abril de 2022

Filipe do Carmo


[1] Ver Jacques Ellul, Métamorphose du bourgeois, Paris, La Table ronde, 1998, p. 94.

[2] Ver Olivier Menéndez, Happytalisme. Vers une société du bonheur?, Paris, Libre & Solidaire, 2019, p.13.

[3] Latouche cita a tais propósitos um debate entre Thomas Malthus (1766-1834) e Jean-Baptiste Say (1767-1832) referindo duas traduções em francês (Principes d’économie politique) da mesma obra do primeiro autor: Paris, J.-P. Aillaud, 1820, p. 28; Paris, Calmann-Lévy, 1969, p. 13.

[4] Os técnicos da contabilidade nacional, quando atacados pelo facto de o PIB e o crescimento não medirem o bonheur, o bem-estar, defendem-se declarando que os indicadores referidos não são feitos para isso (ver Jean Gadrey, “De la critique de la croissance à l’hypothèse de la décroissance”, Cahiers français, nº 323: Croissance et innovation, novembre-décembre 2004). Dir-se-á contudo que, se o público se engana a tal propósito, o facto é que tudo é feito para o induzir em tal erro.

Texto de Filipe do Carmo | Editado CR/Sem Fronteiras – Ilustrações / Título

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