17 de Junho, 2024

Passado colonial luxemburgês passou por Moçambique

HISTÓRIA-H | Luxemburgo | Exposição no MNHA – cidade do Luxemburgo

Se nunca imaginou o Luxemburgo ligado a um passado colonial, prepare-se para descobrir uma nova visão sobre o país na nova exposição que acaba de abrir portas no Musée National d´histoire et d’Art (MNHA), na cidade do Luxemburgo, e que estará em exibição até ao dia 6 de novembro.

por António Paiva, Luxemburgo

A maior surpresa da exposição vem da revelação da participação da família grão-ducal na exploração de algodão em Moçambique, então território português, comprovada pelos documentos dos arquivos da família grão-ducal, que disponibilizou o acesso a Régis Moes, conservador da exposição.

Na exposição do MNHA é possível encontrar testemunhos de portugueses e lusodescendentes nascido ou ligados às temáticas coloniais, como António Lopes Paiva, jornalista e opositor ao regime de Salazar, ou Antónia Ganeto, ativista nascida em Cabo Verde, que acabaram por se vir estabelecer no Luxemburgo.

A historiadora portuguesa Irene Pimentel vem ao Luxemburgo apresentar o tema: “Treze anos de guerra colonial portuguesa em África”, a 16 de junho de 2022 (18h00 locais), uma entre várias mesas redondas e conferências sobre a temática organizadas pelo Musée National d´Histoire et d’Art.

“O Luxemburgo não se dedicou às descobertas e à conquista do mundo e não foi uma potência colonial”, avisa Régis Moes, mas os seus vizinhos da Bélgica, França e Alemanha foram “dos mais ativos na exploração de África”, tendo os luxemburgueses “partido para se juntarem a outros países europeus”, o que marcou a implantação de uma ”mentalidade colonialista” dominante no país.

As oportunidades de trabalho eram atrativas para os imigrantes luxemburgueses, “um dos países mais pobres da Europa naquela época”, prossegue Moes.

Entre os teatros principais dessa participação em África estão o Congo belga, mas também Moçambique, território ultramarino português.

A partir de 1922, os belgas permitiram aos luxemburgueses a possibilidade de serem funcionários do estado belga, em África, e as oportunidades de trabalho levaram os jovens luxemburgueses a alistarem-se nos exércitos belga e francês. Depois foram as novas escolas para os colonos, que exigiam professores europeus. Outros partiram para trabalhar no desenvolvimento de infraestruturas, como estradas, pontes, caminhos de ferro, portos e aeroportos, agricultura, exploração mineira, ou outras atividades que exigissem o conhecimento das línguas europeias ou mão de obra qualificada, conforme testemunhos representados na exposição.

As famílias reais e da nobreza europeia estavam na linha da frente de muitos destes “projetos coloniais”, como foi o caso da família do Luxemburgo, que detinha 87% da participação na empresa “GRANDUCAL, Sociedade Colonial Luso-Luxemburguesa”, que explorou uma concessão de uma plantação de algodão entre 1932 e 1942, na região de Namialo, em Moçambique. Os povos autóctones a viver na zona da concessão eram obrigados a trabalhar na produção de algodão, que deveriam vender à empresa luso-luxemburguesa, por um preço previamente estabelecido pelo governo local, segundo os dados apresentados no MNHA.

O príncipe Felix, esposo da grã-duquesa, e o príncipe de Chausemberg, cunhado da duquesa, tinham lugar na administração da companhia, que nomeou para diretor o luxemburguês Nicolas Chito, que tinha trabalhado para os belgas no Congo.

Esta companhia empregou luxemburgueses, o que não se revelou satisfatório, pois os luxemburgueses revelaram “desconhecimento e falta de capacidade no domínio da agronomia, o que lhes trouxe a reputação de más práticas agrícolas”, segundo revelado pelos investigadores.

Com a invasão do Luxemburgo pelos alemães durante a II Guerra Mundial, a família grã-ducal foi obrigada a fugir do país. Sob pena de perderem o negócio, os acionistas decidiram vendê-lo em 1942 a uma empresa portuguesa.

ANTÓNIO PAIVA, UM TESTEMUNHO E UMA REFLEXÃO SOBRE AS QUESTÕES COLONIAIS

No quadro da exposição, que tem finalidades informativas mas também pedagógicas, António Paiva surge como uma referência prática de uma abordagem reflexiva demonstrando através do seu percurso de oposição ao regime ditaturial em Portugal e do seu apoio aos desertores da Guerra Colonial no exílio em Paris, que a luta anti-colonial tem várias facetas e que os movimentos de libertação precisavam de ser apoiados pelos povos dos países então colonizadores.

Dinamizador de várias ações ligadas ao teatro e à música na sua estada na capital francesa, António Paiva passou a viver no Luxemburgo onde ainda hoje reside continuando uma atividade de informação, esclarecimento e participação cidadã nas atividades públicas da sociedade luxemburguesa.

No final da entrevista que concedeu ao jornal do Museu é referida a participação de António Paiva num livro que entretanto foi publicado pelas edições Chandeigne em Paris, com titulo de capa Exils que utiliza textos de edições dos livros Exílios que a AEP61-74 Associação de Exilados Políticos Portugueses publicou. Esta edição em francês, que tem sido apresentada publicamente, ao que se sabe, pela associação francesa Mémoire Vive em cooperação com o editor parisiense nunca obteve apoio do jornalista e militante António Paiva que se recusou a participar num processo seletivo injustificado já que, no seu entendimento, ou eram todos os testemunhos traduzidos e publicados ou não era nenhum. O equívoco do final da entrevista não retira a importância da presença e participação nesta exposição luxemburguesa de alguém que conhece a realidade colonial e da luta contra a guerra que pretendia prolongar o martírio secular dos povos africanos através de soluções neo-coloniais.

Fotos e imagens © cortesia MNHA e António Paiva

António Paiva | Luxemburgo
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