17 de Junho, 2024

PIB, felicidade interna bruta e outros indicadores

L’abondance frugale comme art de vivre – Bonheur, gastronomie et décroissance (Autor: Serge Latouche) | Comentários sobre o conteúdo dos diferentes capítulos

por Filipe Carmo

Première Partie: La décroissance et les paradoxes du bonheur – La joie de vivre dans la frugalité

Partindo da constatação que a sociedade de crescimento trai as suas promessas, com o acesso aos bens de qualidade a ser limitado a um pequeno número de indivíduos e o bonheur prometido ao grande número como resultado da sociedade de consumo a não ser cumprido, Latouche lembra ainda que tal processo é acompanhado de um “bónus” que é o desastre ecológico. Não será assim melhor, pergunta ele, escutar a voz renascente dos povos indígenas e voltar à sabedoria milenar da limitação das necessidades? Ou seja, reencontrar a abundância na frugalidade com a perspectiva de construir um futuro sustentável! Essa é, de qualquer modo, a opção oferecida pelo decrescimento.

Du rêve au cauchemar: la faillite du plus grand bonheur quantifié au Nord

Mas antes de passar ao decrescimento, concebendo e construindo uma sociedade de abundância frugal e uma nova forma de qualidade de vida, o autor acha que é preciso desmontar a ideologia do bonheur quantificado da modernidade. Isto é, para arruinar o imaginário do PIB per capita será necessário compreender como é que ele entrou nas nossas cabeças. Começar-se-á por criticar a pretensão de assimilar bonheur e PIB per capita e por deixar bem claro que o PIB apenas mede a “riqueza” mercantil e aquela que lhe pode ser assimilada.

Dir-se-á, em primeiro lugar, que do cálculo do PIB são excluídas tarefas e “transacções” não mercantis (como já referido antes, meras conversas entre indivíduos e trabalho doméstico, mas também o trabalho voluntário e o trabalho clandestino), enquanto tudo o que é reparação, danos e prejuízos do crescimento (insegurança, poluição, stress, doenças, etc.) é contado como positivo, e os danos infligidos ao património natural (externalidades negativas) não são deduzidos. “O PIB é assim, e isso é um ponto essencial, um fluxo de riqueza puramente mercantil e monetário. Quanto ao crescimento do PIB, trata-se de uma evolução positiva do volume de todas as produções de bens e serviços que são vendidos, ou com custo monetário, produzidas por trabalho remunerado.”[1] Em consequência, tudo o que se pode vender vai fazer crescer o PIB, independentemente de isso acrescentar algo ou não ao bem-estar individual e colectivo. E numerosas actividades e recursos que contribuem para a qualidade de vida não entram no cálculo, simplesmente porque não têm natureza mercantil.[2]

Latouche recorda a tal respeito o discurso (provavelmente, diz o autor, escrito por John Kenneth Galbraith) que Robert Kennedy pronunciou em 1968, alguns dias antes de ser assassinado: “O nosso PIB também inclui a poluição do ar, a publicidade feita aos cigarros e as corridas das ambulâncias ocasionadas pelos desastres nas estradas. Inclui a destruição das nossas florestas e a destruição da natureza. Inclui o custo do armazenamento de resíduos radioativos e o napalm. Em contraste, o PIB não leva em conta a saúde dos nossos filhos, a qualidade da respectiva educação, a alegria dos seus jogos, a beleza de nossa poesia ou a solidez dos nossos casamentos. Ele não leva em consideração a nossa coragem, a nossa integridade, a nossa inteligência, a nossa sabedoria. Ele mede tudo, excepto o que faz a vida valer a pena.”

É essa imagem do bonheur criada no século XIX, obtida devido à produção e à consideração de meios mecânicos e industriais, que depois nos faz passar à sociedade de consumo. E fazendo nós a experiência de que o consumo não leva ao bonheur, isso cria uma crise de valores. Essa imagem, é de facto uma redução economicista, conforme refere um autor – Arnaud Berthoud (nascido em 1936) – que se dedica à filosofia económica: “Tudo o que faz a alegria de conviver e todos os prazeres do espectáculo social onde todos se mostram uns aos outros em todos os lugares do mundo – mercados, oficinas, escolas, administrações, ruas ou praças públicas, vida doméstica, locais de lazer…– são retirados da esfera económica e colocados nas esferas da moralidade, da psicologia ou da política. O único bonheur que ainda se espera do consumo está agora separado da felicidade dos outros e da alegria comum.”[3] Mas Jean Baudrillard vai mais longe e põe em causa a própria aspiração ao bonheur: “Não sei o que as pessoas querem. Elas foram ensinadas a procurar o bonheur, mas no fundo isso não lhes interessa, não mais do que produzir e ser produzido. O que lhes interessa é mais da ordem do fascínio e do divertimento, mas não em sentido frívolo.”[4]

É esse desligamento da felicidade dos outros, da convivialidade, o menosprezo por um quotidiano dominado pela produção e por um consumo que em termos de contribuição para o bonheur reduz progressivamente a sua importância, que a medição desse bonheur com recurso ao PIB tem perdido adeptos. E, em sua substituição, tendem a aparecer outros indicadores, em particular o indicador de progresso genuíno (IPG), que é uma métrica sugerida para substituir ou complementar o PIB. O IPG foi concebido para levar em consideração o bem-estar de uma nação, tendo em atenção apenas parcialmente a dimensão da economia da nação, e incorporando além disso factores ambientais e sociais que não são medidos pelo PIB. O IPG distingue assim o conceito de progresso social do conceito de crescimento económico. E os valores dados por esse indicador mostram que, para além dum certo limiar, os custos do crescimento são superiores, em média, aos seus benefícios.[5] O que reforça a intuição de Ivan Illich de que “a taxa de crescimento da frustração excede largamente a da produção”. E assim, num contexto de economia neoliberal, “a economia está em boa forma, mas não os cidadãos”. E isso torna-se cada vez mais válido com os avanços da globalização, processo em que a já referida extensão progressiva do bonheur para o cidadão comum graças ao designado trickle down effect evolui para um aumento das desigualdades.

Deixando neste momento de lado o que se apresenta como necessário deduzir ao PIB para chegar a um indicador que traduza o bonheur, ocupemo-nos do que falta incluir em tal indicador, começando por referir a convivialidade e, mais em particular o que pode advir da gastronomia ou do apenas ir tomar um café ou beber um copo com os amigos. Em termos de gastronomia – e aqui correr-se-á o risco de não respeitar ditames da frugalidade – começarei por apresentar trechos do Avant-goût de um livro sobre a gastronomia chinesa[6], trechos esses que não ousarei traduzir:

“Ce roman se déguste une serviette autour du cou. La journée commence bien. Invité à partager le petit déjeuner de Zhu Ziye, laissez-vous réchauffer para un bol de nouilles al dente, avec des crevettes sautées en accompagnement. Que diriez-vous d’un plat de rouleaux de poisson aus oeufs de crevettes, à moins que vous ne préfériez une assiette d’oie braisée au marc de vin. Et si vous goûtiez plutôt ces tendres coeurs de legumes aux miettes de crabe ou ce jarret de porc confit au sucre glacé et ambré? … vous ne cesserez d’être tenus en haleine para la véritable héroïne du roman: la gastronomie. Pour elle le ‘capitaliste’ Zhu Ziye sacrifie tout. Contre elle s’acharne Gao, moraliste épris de justice révolutionnaire. … À la lumière de cette conception qui fait de la cuisine le moyen le plus trivial d’apprivoiser le naturel qui sommeille au coeur de tout homme, on comprend mieux pourquoi les Chinois éprouvent le besoin de cuisiner quand il suffit aux Américains d’ouvrir leur réfrigérateur. … c’est pourquoi par cuisine, il faut entendre non seulement les façons d’apprêter les aliments mais aussi l’art et la manière de les manger, c’est-à-dire ce qu’on appelle généralement la gastronomie.”

E sobre o “tomar um café” ou “beber um copo”, não se poderá em particular esquecer os locais de lazer (enunciados por Arnaud Berthoud) que existiram por todo o lado no nosso país, em Lisboa por exemplo o “Martinho da Arcada” e o “Nicola” (onde, além da toma do café, os debates intelectuais assumiam intensidade), e ainda existem (a “Mexicana”, por exemplo).

Mas, de facto, o que é necessário deduzir ao PIB para chegar a indicadores como o já referido IPG, parece suplantar o que lhe falta acrescentar, como o começam a demonstrar medições feitas por Robert E. Lane (1917-2017), psicólogo e cientista político, que nos seus estudos concluiu que a progressão da componente material na vida dos cidadãos, nos Estados Unidos, foi acompanhada por uma baixa indiscutível do bonheur real da maioria dos Americanos.[7] Tal baixa teria sido essencialmente ocasionada por uma indubitável degradação do que as relações humanas têm como essencial, ou seja, o companheirismo. É uma constatação que se encontra confirmada por numerosas sondagens de opinião sobre o bem-estar subjectivo quando comparado com o indicador “PIB per capita”. Essas sondagens permitem concluir que se tem vindo a formar uma tomada de consciência pública sobre a diferença paradoxal que existe entre o que tal indicador nos diz e o bem-estar sentido pela população.

Novos indicadores para medir o bem-estar têm surgido, entre os quais um da ONU que foi designado “Felicidade Interna Bruta” (FIB) e que é objecto de relatórios anuais, nos dois últimos dos quais os 4 países classificados nos primeiros lugares foram a Finlândia, a Dinamarca, a Islândia e a Suíça. É curioso constatar que outra classificação (o indicador é designado happy planet index) – a que Latouche dá mais importância – resultante de inquéritos realizados por uma ONG britânica (New Economics Foundation), coloca nos 4 primeiros lugares (ano de 2021) a Costa Rica, o Vanuatu, a Colômbia e a Suíça. Enquanto outros países europeus só começam a aparecer a partir da 14ª posição, enquanto os Estados Unidos se encontram na 122ª. Surge de imediato a tentação de explicar o que leva a tão pesados contrastes, o que se poderá revelar de alguma complexidade[8], mas neste comentário será talvez suficiente chamar a atenção para aquele contraste que se aprofunda entre os vencedores que se vão afirmando e os perdedores (os disgraziati, como os italianos os designam) que se vão multiplicando numa sociedade de crescimento. Já em 1982 esses perdedores estavam bem visíveis numa cidade como Nova Iorque, conforme o bilhete postal que se mostra a seguir bem o evidencia:

Latouche refere que, segundo os dados estatísticos, mais de 3 milhões de pessoas dormem debaixo de pontes ou em parques nos Estados Unidos e vários outros milhões nas prisões (quanto aos nossos street people, toda a gente vê onde eles dormem em Lisboa; há 40 anos, os mais pobres ainda dormiam em barracas nos arredores da cidade). E, em 2017, 1% das pessoas mais ricas do planeta possuíam 87,7% das riquezas do planeta, enquanto três anos depois a situação era ainda mais devastadora. É que uma sociedade que se baseia na competição produz necessariamente uma massa enorme de perdedores absolutos (os que são deixados para trás) e relativos (os resignados), isso ao lado de uma pequena agremiação de predadores cada vez mais ansiosos por consolidar as suas posições ou de as reforçar. E o autor ainda revela a sua concordância com Jean Baudrillard, quando este, face à assimilação do crescimento a uma elevação do bem-estar, do bonheur, afirma que “… estamos diante do bluff colectivo mais extraordinário das sociedades modernas … uma operação de magia branca com os números, o que na verdade esconde uma magia negra de encantamento colectivo.”[9]

(Ponto 2: De la critique des indicateurs de richesse à la redécouverte du buen vivir – a continuar)

Lisboa, 29 de Abril de 2022

Filipe do Carmo  


[1] Citação que Latouche faz de Jean Gadrey et Florence Jany-Catrice, Les Nouveaux Indicateurs de richesse, Paris, La Découverte, 2005, p. 17.

[2] Ver também Ibid., Gadrey et Jany-Catrice, p. 18.

[3] Arnaud Berthoud, Une philosophie de la consommation. Agent économique et sujet moral, Villeneuve-d’Ascq, Presses universitaires du Septentrion, 2005, p. 38.

[4] Jean Baudrillard, Entretiens, Paris, PUF, 2019, p.84.

[5] O IPG, desenvolvido por Herman Daly (economista ecológico, nascido em 1938), tem a seguinte fórmula: consumo mercantil das famílias + serviços do trabalho doméstico + despesas públicas não relativas à defesa – despesas privadas ligadas à defesa – custos das degradações ambientais – depreciação do capital natural + formação de capital produtivo.

[6] Lu Wenfu, Vie et passion d’un gastronome chinois, 1982, Arles, Éditeur Picquier poche – Unesco (1996), p. 7.

[7] Robert E. Lane, The Loss of Happiness in Market Democracies, New Haven, Yale University Press, 2000.

[8] Complexidade que, sem ser completamente explicitada no vídeo do YouTube Better and better? A comment on Hans Rosling, começa por ser evidenciada com detalhe nesse vídeo. Ver o seguinte link: https://www.google.com/search?q=Better+and+better%3F+A+comment+on+Hans+Rosling&oq=Better+and+better%3F+A+comment+on+Hans+Rosling&aqs=chrome..69i57.2235j0j15&sourceid=chrome&ie=UTF-8.

[9] Jean Baudrillard, La société de consommation, Paris, Denoël, 1970, p. 45.

Please follow and like us:
Pin Share

Editor

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Follow by Email