Não desperdiçarei o meu voto com quem menospreza os desafios que enfrentamos
Vou votar, contra os inimigos da Liberdade, contra os amigos de Trump, de Putin, de XI Jinping e Netanyahu
Por Francisco Melro
Grandes mudanças nunca vistas num século estão em aceleração, disse Xi Jinping, em reunião em Pequim com chefes de Estado e de governo da América Latina e do Caribe — incluindo os presidentes do Brasil, Colômbia e Chile.
O que fica dito, quem o disse, quando foi dito, a quem foi dito e onde foi dito certificam o diagnóstico. Poderia juntar-lhes as manobras conjuntas militares realizadas este fim de semana entre as Forças Aéreas do Egipto e da China, ou o palanque recheado de dirigentes mundiais que não morrem de amores pela democracia, presentes nas comemorações militares na Praça Vermelha que celebraram a vitória da Rússia na II guerra mundial e a conquista russa de território ucraniano e onde foram condecorados soldados coreanos que participam na agressão russa à Ucrânia. Poderíamos juntar-lhe a irrelevância actual da ONU ou o ostracismo a que tem sido votada a UE na gestão de conflitos internacionais mais graves. Ou a complacência internacional para com a agressão russa à Ucrânia e para os massacres que Israel vem perpetrando impunemente contra as populações palestinianas. Ou o périplo desta semana de Trump pelas Arábias, fazendo negócios de milhares de milhões, em proveito próprio, dos seus familiares e apoiantes, recebendo até como prenda um luxuoso palacete voador dourado saído dos contos das Mil e Uma Noites, concebido à medida das suas soberba e ostentação de poder e riqueza.
Estas grandes mudanças em aceleração têm abalado as democracias ocidentais e os seus alicerces políticos, económicos, militares e mesmo os seus valores, para além de porem em causa a ordem saída da II Guerra Mundial, incluindo a sobrevivência da ONU, das suas instituições e das suas políticas.
O pano de fundo das mudanças radica na perda progressiva de poder económico, político e militar por parte das potências ocidentais, com destaque para os Estados Unidos e para o conjunto da Europa, face à ascensão da China, grande vitoriosa do processo de globalização e abertura dos mercados.
Nada como dois gráficos para ilustrar o pano de fundo deste Mundo novo de que fala Xi Jinping. Escolho as estatísticas comparativas do FMI sobre a evolução nas últimas duas décadas e meia do peso de cada país no PIB Mundial, avaliado em paridades de poder de compra (é sempre assim que o FMI mede esta comparação, por entender ser a mais rigorosa) e do peso das economias avançadas versus economias emergentes (inclui China), na classificação do FMI.

Tem sido suportada nesta progressiva fragilidade relativa dos países ocidentais e dos seus aliados que a China, financiada pelos enormes recursos entretanto acumulados, vem invadindo economicamente os antigos domínios dos países ocidentais, conquistando mercados, fontes de matérias-primas, áreas de influência e aliados, ditando a sua vontade e instalando bases militares nos mares vizinhos, mas também nalguns países asiáticos e africanos. Foi nesta base nesta fragilidade relativa do Ocidente que a Rússia de Putin se atreveu a invadir e a tomar posições nos territórios da antiga União Soviética, culminando com a agressão à Ucrânia e ameaças à segurança dos países europeus. Nada de bom, em termos de liberdade, democracia, direitos humanos e decência, nos trazem, quer um quer o outro destes projectos ditatoriais e imperiais.
As coisas complicaram-se aceleradamente com a eleição de Trump que, para tornar a “America Grate Again”, desencadeou uma guerra cultural interna, investiu contra os imigrantes, atropelou a Constituição e as suas instituições, transformando a sua administração numa central de negócios para si, familiares e apoiantes.
Externamente, rompeu os acordos climáticos, desencadeou uma guerra de tarifas com todo o Mundo, atacou a ONU, entrou em conflito com os aliados, ameaçando-os inclusivamente com conquistas territoriais, e questionou a participação dos Estados Unidos na NATO bem como os apoios militares americanos à Europa e à Ucrânia. Em simultâneo, atacou os dirigentes europeus, incentivou e apoiou os partidos de extrema-direita europeus e os seus valores, lado a lado com Putin, enquanto estendia a mão a ditadores de todos os feitios, incluindo a Putin. Com o Ocidente dividido, a vida tem ficado mais facilitada para os projectos ditatoriais e imperiais russos e chineses.
Já se sabia ao que vinha Trump mas a concretização dos seus projectos está a ultrapassar tudo o que seria verosímil esperar, em indecência e em danos causados à ordem mundial, à democracia e aos valores que as inspiram. A proposta de Trump de arrasar Gaza e expulsar os palestinianos sobreviventes para países vizinhos para construir no vazio criado uma nova Riviera, diz tudo sobre a imoralidade e pulhice de Trump.
A Europa democrática, desamparada, hostilizada e fragilizada, tem andado à deriva e ainda não se encontrou. Viveu desde a II Guerra Mundial à sombra do escudo protector americano, assistiu passiva ao rearmamento da Rússia, às suas paradas bélicas na Praça Vermelha e à sua prosápia ameaçadora e nem com a guerra à porta acordou. Como dizia em tempos António Costa, se quiserem que gastemos mais em Defesa, deem-nos o dinheiro. O problema da segurança europeia não era nosso e “os outros” que tomassem conta do assunto. Somos pacifistas de todo e defender o contrário não seria bem visto pela esquerda nem daria votos. Com a eleição de Trump, passou a não haver escudo para ninguém, pelo menos, à borla, e não deixa de ser irónico que António Costa ocupe agora um posto europeu onde partilha a responsabilidade de “descalçar a bota”.
A dependência dos Estados Unidos, tem tornado, simultaneamente, a União Europeia conivente com os massacres na Palestina.
Ao não se distanciar consequentemente de Trump e das suas opções internacionais, a União Europeia delapida os seus valores humanistas e democráticos, perdendo autoridade política e moral e prestígio internacional. A Europa, com destaque para a União Europeia, não está em condições de voltar as costas aos Estados Unidos, mas precisa urgentemente de se autonomizar, erguer os seus valores, armar e dar ao respeito para sobreviver com o seu projecto de Liberdade e Estado Social. Como afirmou por estes dias o novo Chanceler alemão “a lição a tirar da guerra da Rússia contra a Ucrânia é que a força dissuade os agressores, enquanto a fraqueza convida à agressão… O nosso objetivo é uma Alemanha e uma Europa tão fortes em conjunto que nunca teremos de usar armas”.
Putin não se contenta com o que já ocupou nos países vizinhos. Quer controlar toda a Ucrânia, como se viu na sua ofensiva inicial, repelida corajosamente pelos ucranianos, nem que seja colocando na sua presidência um fantoche igual ao da Bielorrússia. Quer simultaneamente uma Europa desarmada e submissa face aos seus ditames, especialmente nas suas fronteiras. Estará disposto a acabar com a actual ofensiva se lhe derem tudo isto. Só aceita negociar com Trump.
A Rússia tem 144,2 milhões de habitantes e a sua economia representa cerca de 3,5% do PIB Mundial. A União Europeia em conjunto com o Reino Unido e Noruega somam 527,2 milhões de habitantes e representam cerca de 17% da riqueza mundial. Putin só se atreveu a desencadear os ataques aos países vizinhos e a ameaçar a Europa porque impôs uma ditadura de ferro no seu país, se armou até aos dentes e sabe que defronta uma Europa democrática, desarmada e acomodada, de governação instável, impreparada para guerras, quer militarmente quer psicologicamente, a braços com problemas de envelhecimento, desigualdade, racismo e de imigração, ambiente que Putin tem procurado manipular através de agentes directos e em campanhas de intoxicação da opinião pública pelas redes sociais.
Há escolhas prementes a serem feitas no conjunto da Europa e em cada País europeu, com implicações sensíveis na vida dos seus cidadãos. Infelizmente, nada disto tem estado devidamente presente no debate político nacional nem sequer agora na campanha para as eleições legislativas em curso.
Irei votar, como é exigível. Sei contra quem vou votar, contra os inimigos da Liberdade, contra os amigos de Trump, de Putin, de XI Jinping e Netanyahu, mas também não desperdiçarei o meu voto com quem menospreza os desafios que enfrentamos.

Francisco Melro | Economista