16 de Abril, 2026
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Tudo continuando assim, é bastante provável que o regime iraniano será arrastado, num curto prazo, para a mesa de negociações numa posição de grande fragilidade

OPINIÃO | Francisco Melro | 15 de Junho de 2025

Ao terceiro dia da guerra declarada por Israel ao Irão, apercebemo-nos de que, para além dos benefícios do efeito de surpresa do ataque inicial, Israel continua a evidenciar maior capacidade de destruição, maior eficiência e maior cirurgia nos seus ataques. São mais abundantes, pormenorizadas e envolvendo estruturas e entidades mais críticas, as informações respeitantes aos alvos iranianos atingidos pelos israelitas. Como os aviões israelitas continuam a ir e vir, sem notícias de danos relevantes, conclui-se também que os danos causados aos sistemas de defesa iranianos durante o ataque inicial terão sido muito significativos.

Tudo continuando assim, é bastante provável que o regime iraniano será arrastado, num curto prazo, para a mesa de negociações numa posição de grande fragilidade. Segundo as expectativas públicas de Netanyahu, este desenlace poderá ocorrer dentro de algumas semanas. Israel dispõe de informações muito pormenorizadas, como continuamos a constatar, sobre as capacidades iranianas e sobre a localização das suas estruturas militares e civis e dos seus núcleos dirigentes. Com a facilidade com que os aviões israelitas têm continuado a ir e vir, é possível que os cálculos israelitas sobre os tempos de resistência iraniana estejam correctos. Os serviços de inteligência de Israel são de reconhecida capacidade, experiência e rigor e, neste caso, estarão também a ser apoiados pelos serviços de inteligência e de vigilância americanos.

Hoje mesmo, o Ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano anunciou, realisticamente, que o Irão parará os seus contra-ataques, logo que Israel pare os seus ataques. Malgré tout.

É também no sentido de paragem das hostilidades e da abertura de negociações que se tem pronunciado a comunidade internacional, incluindo Trump. No entanto, Netanyahu tem também afirmado que não quer ficar-se pela anulação da capacidade nuclear do Irão. Pretende igualmente uma mudança do regime iraniano, com a sua substituição por uma nova administração “amiga”, pelos herdeiros do antigo Xá da Pérsia, mais precisamente. Tal objectivo só seria alcançado, realisticamente, com uma invasão do Irão, ou seja, com tropas no terreno. Poderá ser com isto na mente que Netanyahu está a tentar cativar os Estados Unidos para um envolvimento pleno na guerra. É também neste sentido que começaram a ser ouvidos pronunciamentos de republicanos influentes nos Estados Unidos. A malta mais antiga ainda guardará boa memória dos amores do Xá e dos seus partidários pela democracia e pelos direitos humanos. O seu regime e a sua PIDE eram bem mais sanguinários do que os correspondentes de Salazar e Caetano.

Este passo seria bem mais complicado. Em primeiro lugar, porque os Estados Unidos passaram, nuns tempos recentes, por duas experiências ainda bem vivas, no Iraque e no Afeganistão, de que não guardam grandes saudades. O próprio Trump anunciou repetidamente que não quer os Estados Unidos envolvidos em guerras. Em segundo lugar, porque uma aventura guerreira deste tipo arrastaria, muito provavelmente, para a cena, novos actores, muito relevantes, que têm mantido um posicionamento muito cauteloso e calculista desde o início da guerra. Será pouco realista imaginar que, num cenário desses, a China, a Rússia e até a Turquia, se manteriam de fora. De resto, a China já veio, por estes dias, lembrar, publicamente, que tem com o regime iraniano um acordo estratégico de apoio mútuo, que pretende respeitar. Putin também tem falado com Trump acerca do conflito. E a Turquia tem sido publicamente muito audível. Se, por mero acaso, numa das suas baboseiras delirantes de dono disto tudo, Trump caísse na tentação de se deixar arrastar para uma aventura desse tipo, “alguéns”, entre os peritos militares e da inteligência americanos, o viriam, com toda a certeza, livrar dessa tentação.

Foto Destaque | Antigo Xá da Pérsia – Reza Pahlavi © wikipédia

Francisco Melro – Economista

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