6 de Maio, 2026
imigrantes

Rumei ao Sul para fugir da vaga de calor. A ver o mar, fui meditando sobre o foi acontecendo. Aqui ficam as minhas reflexões.

por Francisco Melro

Andam a roubar nos números dos empregos dos USA

O emprego não agrícola dos Estados Unidos conheceu em Julho a evolução percentual trimestral mais fraca dos últimos anos. Os números do emprego tinham reanimado na segunda metade de 2024, mas foram travando após a eleição de Trump, estagnando praticamente (crescimento de apenas 0,1%) entre Abril e Julho de 2025. A leitura económica mais simples seria concluir que, com o espalhafato, a confusão, a incerteza e o susto gerados pelas políticas de Trump, abrandou o investimento das empresas e a respectiva criação de empregos. Mas para Trump, trata-se de uma conspiração da autoridade estatística americana, que inflacionou o emprego antes dele ser eleito e passou a roubar nos números depois.

Solução: despede-se a directora da instituição e coloca-se um/a aficionado/a.

Os números do emprego passarão a reunir as condições necessárias para passarem a crescer.

Doenças antigas matam as crianças de Gaza

Os massacres das populações, as destruições das habitações, das estruturas, das escolas, dos hospitais, a privação de energia, água, alimentos, medicamentos e cuidados médicos, as deslocações forçadas de populações em pânico, as legiões de crianças abandonadas ou na dependência de mães sós, cada vez mais frágeis e incapazes de lutar pelos recursos essenciais, a expulsão das agências da ONU que lhes poderiam prestar algum socorro, a sua substituição por gangues e organismos patrocinados pelo governo israelita que disparam sobre as multidões esfomeadas, em resumo, o genocídio perpetrado pelos israelitas continua diariamente a céu aberto em Gaza. Instalou-se um ambiente de desorientação e terror visando uma solução final, expulsar os palestinianos de Gaza, anexar a Cisjordânia, reservar todo o espaço para colonos israelitas, realizando o sonho do Grande Israel. O embaixador de Israel e o seu governo dizem que o que nos indigna e revolta é só propaganda do Hamas, que a intervenção do Exército israelita respeita todas as regras, que estão assegurados os bens de subsistência essenciais e que não há crianças palestinianas a morrerem à fome, mas apenas crianças que já padeciam de doenças graves. Os crimes cometidos pelo Hamas no dia 7 de Outubro e os reféns israelitas mantidos por este grupo terrorista servem de justificação para toda a barbárie em curso. Muitos israelitas, incluindo antigos dirigentes políticos, militares e de segurança dos mais elevados níveis, discordam abertamente da versão do embaixador e do que está a ocorrer, exigindo o fim imediato dos ataques.

Mas há comentadores/as portugueses/as disponíveis para fazerem coro com as patranhas do embaixador. Ao que chega a sabujice e a indignidade.

A decisão internacional de criação do Estado de Israel na Palestina resultou da intenção de pôr fim às perseguições seculares do povo judeu, que tinham culminado nos campos de extermínio nazis, destinando a este povo um território, onde tinha raízes milenares, para poder viver em paz e dignidade. Só que a bondade de uma decisão não pode ser avaliada pelas intenções, mas pelos seus resultados. O território que lhe destinaram estava ocupado por palestinianos dos mais diversos credos e religiões, incluindo palestinianos judeus, e o resultado foi um conflito imediato, contínuo, sangrento e ódios crescentes entre os novos ocupantes e os residentes, até ao desastre final a que estamos a assistir. Como não é possível refazer a História, resta-nos tentar salvaguardar os direitos de ambos os povos em litígio, o que obriga ao reconhecimento do Estado da Palestina, com os seus territórios internacionalmente definidos.

Brincando às guerras nucleares

Quando no seguimento na invasão russa da Ucrânia, os países europeus começaram a apoiar com armamento este país, a Rússia, pela voz de Putin e de Medvedev, ameaçaram repetidamente a Europa com o seu poderio nuclear. Na retórica russa da ocasião, Londres e outras capitais europeias foram lembradas, repetidamente, de que estavam ao alcance do poderio nuclear russo. E os propagandistas domésticos de Putin não se cansaram de nos aconselhar, por isso, a termos juizinho. Por estes dias, no seguimento de mais uma basófia de Trump, Medvedev voltou a ameaçar os ocidentais com o poderio nuclear russo. Trump respondeu, dizendo que enviaria 2 submarinos nucleares para a costa da Rússia. Dada a extensão desta costa será difícil certificar se Trump falou a sério, se foi só bazófia, se, entretanto, mudou de ideias, ou whatever. Pelo sim pelo não, a Rússia e a China iniciaram manobras conjuntas anti-submarinas nos mares do Sul da China e o porta-voz oficial de Putin veio dizer que ninguém sairá vencedor de um conflito nuclear. Só agora é que o dizem? Então aquelas ameaças à Europa eram só para europeu tremer e paralisar? Conseguiram.

As reformas estruturais inadiáveis. Há mulheres a amamentarem nos tempos de trabalho e velhos a mais ao serviço

Sempre que estão na oposição, os partidos da Direita acusam os seus adversários de imobilismo e de travarem as reformas estruturais essenciais para o desenvolvimento económico e a convergência do País com as economias mais avançadas. Quando passam a governar em maioria, revelam o que querem: impostos baixos para as empresas, flexibilidade nos despedimentos, maior precariedade do emprego, perda de direitos dos trabalhadores, libertando-se dos mais velhos por gozarem de regalias excessivas, e desmantelamento e privatização das funções do Estado. Supostamente, serão estas as medidas essenciais, estruturais, que atrairão os investimentos privados em negócios de alto valor acrescentado que nos transformarão numa nova Irlanda, pelo menos. Se olharmos para a economia, constatamos que há negócios que prosperam com as regras actuais. A banca fecha balcões e despede trabalhadores, livremente, enquanto acumula lucros chorudos. Com a descida dos impostos passará a acumular mais, é verdade.

A agricultura, as pescas, a hotelaria, a restauração, a construção, o comércio e os mais diversos sectores de mão de obra barata, que vêm liderando o crescimento económico, não se queixam das regras, queixam-se sim de falta de mão de obra nacional que têm de substituir por imigrantes.

Aqui as debilidades estruturais são a fraca natalidade e a emigração. Mas se olharmos para os sectores da economia que envolvem maiores níveis de qualificação, constatamos que também aqui tem havido crescimento, com destaque para os serviços de Consultoria Científica e Técnica e para os de Informação e Comunicação.

Inversamente, os negócios e o emprego têm retrocedido na indústria transformadora, devido aos impactos e realinhamentos geoestratégicos originados pela pandemia, pela guerra da Ucrânia e mais recentemente pelas políticas de Trump. Mas a reanimação da indústria estará sempre dependente dos caminhos que a União Europeia for trilhando.

As famílias e o País realizaram ao longo das duas últimas décadas investimentos muito significativos na escolarização e qualificação da sua juventude, com enorme impacto na qualificação da sua mão de obra.

Tem sido a reforma estrutural mais capacitante e mais decisiva para o progresso do país, para a atracção e o sucesso de investimentos mais qualificados de maior valor acrescentado para o País.

Neste momento, os benefícios deste investimento estrutural estão a ser partilhados com países terceiros, nomeadamente europeus, sendo necessário trabalhar para que a balança penda mais para o nosso lado. É nesta via que teremos de apostar. O Estado deverá dispor de capacidade e iniciativa para reter parte importante desta mão de obra qualificada, nos sectores da Saúde, do Ensino e da Investigação, em parceria com as empresas e incentivando a sua inovação, o que implica manter, contratar e compensar adequadamente profissionalmente e financeiramente trabalhadores em funções públicas.

Francisco Melro | O autor escreve com a grafia anterior ao Acordo Ortográfico de 1990.

Editado por NSF, destaques e ilustração. Foto de destaque – Imigrantes na região Oeste que trabalham na agricultura local © CVR-Nsf

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