30 de Abril, 2026

A civilização que o mundo prefere ignorar

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Compreender o Irão não é um exercício académico, é uma necessidade estratégica

Por Luís Vidigal

Há países que são Estados e há países que são memórias vivas. O Irão pertence claramente à segunda categoria. Olhar para ele apenas como um regime, um problema nuclear ou um ator incómodo na geopolítica do Médio Oriente é cometer um erro perigoso e profundamente míope. Porque o Irão não nasceu no século XX, nem sequer no XIX. Ele carrega milhares de anos de continuidade histórica, uma consciência civilizacional que raramente existe nas nações modernas. E ignorar essa memória é, hoje, um dos grandes riscos estratégicos do nosso tempo.

Muito antes de existirem fronteiras nacionais como as conhecemos, o planalto persa já era um ponto de encontro de rotas, culturas, exércitos e ideias. Quem controlava aquele território não controlava apenas uma região, controlava um cruzamento da história. Foi ali que surgiram impérios capazes de governar povos diferentes sem os apagar, como o de Ciro, que preferiu integrar culturas em vez de as destruir, com um modelo político surpreendentemente sofisticado para a antiguidade. Desde então, a civilização persa aprendeu algo que moldaria o seu caráter para sempre, em que sobreviver é mais importante do que vencer.

Ao longo dos séculos, conquistadores passaram por ali, como gregos, árabes e mongóis, mas quase todos acabaram absorvidos pela própria cultura persa. O poder político mudava de mãos, mas a identidade profunda permanecia. Mesmo quando o Islão chegou com os exércitos árabes no século VII, o resultado não foi a dissolução da Pérsia, mas algo muito mais complexo, de persianização do Islão em vastas regiões do mundo muçulmano. A civilização persa não desapareceu, adaptou-se, infiltrou-se e transformou o que parecia dominá-la.

Esta longa memória histórica ajuda a compreender um fenómeno frequentemente ignorado nas análises ocidentais, pois para muitos iranianos, o século XX não foi uma era de progresso, mas de humilhação. O país nunca foi formalmente colonizado, mas foi constantemente manipulado por potências externas. O petróleo, em vez de libertar a nação, tornou-a alvo permanente de interesses estrangeiros. E quando, em 1951, um governo democraticamente eleito tentou recuperar o controlo desse recurso estratégico, foi derrubado por um golpe apoiado por serviços secretos ocidentais. Esse episódio não é um detalhe histórico, é uma ferida política que continua aberta.

A partir daí, a desconfiança tornou-se parte do ADN político iraniano. Para muitos no país, a mensagem foi de que a soberania é tolerada apenas enquanto não desafia interesses externos. Quando a revolução de 1979 derrubou o regime do Xá, ela não nasceu apenas do fervor religioso, foi o resultado de décadas de ressentimento social, desigualdade e repressão. O Islão, na voz de Khomeini, funcionou como linguagem comum de revolta e não como uma única causa.

Desde então, o Irão construiu um sistema político peculiar, que mistura instituições eleitorais com um núcleo teocrático que controla os limites do poder. Um modelo frequentemente visto no exterior apenas como autoritário, mas que internamente se apresenta como um mecanismo de sobrevivência nacional num ambiente hostil.

E o sentimento de cerco não é uma mera retórica. Logo após a revolução, o país enfrentou uma guerra devastadora contra o Iraque de Saddam Hussein, apoiado por grande parte da comunidade internacional. O uso de armas químicas contra soldados e civis iranianos, perante o silêncio global, consolidou uma convicção profunda, de que o sistema internacional não protege quem não se protege a si próprio.

É neste contexto que se deve compreender a estratégia iraniana contemporânea. O país evita confrontos diretos com grandes potências e aposta numa rede de aliados regionais e numa política de dissuasão. O polémico programa nuclear, visto por muitos como ameaça global, é percebido em Teerão como uma garantia de sobrevivência. Não é apenas tecnologia, é uma resposta a séculos de memória estratégica.

Mas reduzir o Irão ao seu regime também seria um erro grave. O país é um mosaico de tensões internas, com uma juventude urbana ligada ao mundo digital, uma economia pressionada por sanções, elites religiosas envelhecidas e um nacionalismo profundo que atravessa todas as classes sociais. Debates, protestos e mudanças silenciosas ocorrem constantemente sob a superfície do sistema político.

O verdadeiro perigo está na simplificação. Quando uma civilização com milhares de anos de história é reduzida a caricaturas políticas, perde-se a capacidade de antecipar o seu comportamento. E a história mostra que o Irão raramente reage como os outros esperam.

Compreender o Irão não é um exercício académico, é uma necessidade estratégica. Porque ignorar a memória de uma civilização é, muitas vezes, o primeiro passo para cometer erros que o mundo acabará por pagar caro.

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