9 de Abril, 2026

O guião trumpista da direita portuguesa

PACHECO

José Pacheco Pereira, Sábado, 25/03/2026

Um texto particularmente relevante de José Pacheco Pereira que sintetiza toda uma estratégia de “engenharia social, cultural e de moldagem política da democracia”.

“Embora as peças deste guião já tenham muitos anos, em bom rigor são genéticas naquilo que consideramos a direita radical, elas tem tido uma espécie de cânone estruturado que vem desse património e acrescenta-lhe elementos novos. Este guião deixou de ser apenas da direita radical – faço uma distinção com a extrema-direita – para impregnar toda a direita. O seu objectivo é a engenharia social e cultural, e a moldagem política da democracia, introduzindo elementos autoritários e a erosão dos procedimentos democráticos e do primado da lei.

O que Trump e os seus minions estão a fazer nos EUA é o melhor instrumento para perceber esta nova direita radical, que serve de modelo e influência para os grupos europeus alimentados e apoiados financeiramente por Bannon e Musk.

Atacar os procedimentos da democracia

Esta direita radical participa no processo eleitoral, embora tente sempre diminuir o eleitorado que não lhe é favorável, como acontece com a tentativa de Trump de dificultar o acesso às urnas das zonas onde, por exemplo, há maiorias negras que lhe são hostis.

O parlamentarismo é também um dos alvos preferenciais com campanhas de denegrimento dos deputados, mesmo quando têm presença parlamentar. Nos casos em que têm maiorias, como nos EUA, bloqueiam os direitos da oposição e aceitam a concentração de poderes no executivo, mesmo violando as leis.

Atacar os direitos das mulheres

Os princípios de paridade, a igualdade salarial, a menorização da violência doméstica, o combate à posse do corpo no caso do aborto e, de um modo geral, a redução da mulher a esposa e à domesticidade são componentes de uma minimização da mulher, acompanhada de uma agressividade masculina.

Atacar os direitos das minorias

Minorias de todo o tipo, sejam de comportamento sexual, como a comunidade LGBT, sejam as minorias religiosas como o Islão, ou étnicas ou de cor são alvos de uma ideologia do primado do “homem branco” cristão.

Pôr em causa a liberdade da comunicação social

A comunicação social assente no jornalismo profissional é um dos alvos preferenciais da direita radical. Apresentada como “jornalixo”, é substituída pela promoção das redes sociais sem edição e por influenciadores em todos os órgãos de comunicação, usando propagandistas de notícias falsas e promotores de discursos de ódio. Em Portugal, há cada vez mais destes propagandistas com ligação à extrema-direita e ao Chega, no TikTok e no YouTube.

Exigir que a “cultura da direita” seja institucionalizada

Esta parte do guião começa na afirmação de que a “cultura de esquerda” é dominante na subsidiação da cultura pelo Estado. Embora a caracterização do que é o binómio esquerda/direita na cultura seja simplista, não deixa de haver uma excessiva dependência de muitos “agentes culturais” do Estado,

sem critérios de independência e qualidade. Mas o que é a “cultura de direita”? Ezra Pound, Eliot? Ou por cá, o Integralismo Lusitano ou a chamada “filosofia portuguesa ”? Ou a promoção de tudo o que referimos antes como “cultura” anti-woke? O discurso anti-intelectual desta direita dificulta que tenha uma “cultura”.

Rever a História

Um dos problemas da direita radical é não ter uma história “apresentável”. No caso europeu, a experiência do nazismo e do fascismo e do seu impacto em particular na II Guerra Mundial, ou no caso português a ditadura do Estado Novo, tornam difícil obter a legitimidade de que a direita radical precisa em termos históricos. A revisão da história da guerra da Secessão e do esclavagismo, o esconder do racismo, fazem parte desse esforço nos EUA como em Portugal a descrição épica dos Descobrimentos, a “lavagem” do colonialismo e da guerra colonial, ou a contraposição do 25 de Novembro ao 25 de Abril, são casos desse esforço de manipulação histórica.

Incentivar e alimentar guerras culturais

As guerras culturais têm um papel importante na ofensiva da direita radical e têm encontrado um alvo ingénuo na chamada esquerda “fracturante”. Sejam movimentos de pais para pôr em causa a educação cívica nas escolas ou a divulgação de conhecimentos de teor sexual, a tentativa de censurar nas bibliotecas livros infantis cujos protagonistas sejam homossexuais, campanhas contra quem os afronte com enorme virulência nas redes sociais, insultos e ameaças físicas punindo qualquer forma de dissidência e diferença, a apresentação do “outro” como um risco de segurança e uma ameaça de “substituição” dos europeus brancos e cristãos, toda uma panóplia de mecanismos de grande agressividade, promovendo uma “guerra” contra a liberdade do “outro”, e ironicamente apresentando-se como vítimas de censura e “cancelamento”.

Foto de José Pacheco Pereira © JN

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