Uma guerra híbrida
Ceuta não é uma crise migratória é um episódio de pressão geopolítica

por Luís Vidigal
Nas últimas 24 horas, dezenas de milhares de pessoas atravessaram a fronteira de Ceuta. As imagens chocam e vale a pena dizê-lo sem rodeios, que ali se vê é inaceitável enquanto gestão humana da fronteira. Mas quem ficar preso a essa moldura humanitária, dramática e imediata, está a olhar para o dedo que aponta e a ignorar a mão que o move.
Isto não é um episódio migratório é um episódio de pressão geopolítica e Marrocos tem-no usado como instrumento sempre que Madrid faz algo que desagrada a Rabat. O padrão repete-se com uma regularidade que deixou de ser coincidência para se tornar gramática.
A 20 de julho, Pedro Sánchez viajou à Argélia e regressou com um acordo para reforçar o fornecimento de gás argelino a Espanha, gás esse que, durante duas décadas e meia, atravessava 540 quilómetros de território marroquino antes de chegar a solo espanhol, rendendo a Rabat portagens e uma fatia gratuita do próprio gás.
Essa dependência terminou em 2021, quando a Argélia cortou o fornecimento por Marrocos e passou a enviá-lo diretamente para Almería através do gasoduto submarino Medgaz, sem tocar em território marroquino. Dez dias depois do novo acordo, a fronteira de Ceuta abre-se de forma coordenada, com as forças marroquinas a afastarem-se e a deixar passar um fluxo que tinha, claramente, sido preparado com antecedência.
Não é a primeira vez, pois o mesmo mecanismo foi acionado em 2021, depois de Espanha ter aceitado tratar num hospital de Logroño o dirigente saarauí Brahim Ghali, doente de cancro e de covid-19, decisão esta que Rabat considerou uma afronta. A fronteira, neste contexto, não é uma linha que falha. É uma torneira que se abre e se fecha consoante a conveniência de um reino que trata a migração como alavanca diplomática.
O que se segue em Espanha é a parte mais reveladora e a mais perigosa. Vozes como as de Santiago Abascal ou Isabel Díaz Ayuso apressam-se a apresentar o episódio como uma “invasão” orquestrada pelo governo de Sánchez e pela esquerda. Nessa narrativa, Marrocos desaparece, a Argélia desaparece e desaparecem também os Estados Unidos, que na mesma semana felicitavam Mohammed VI pelo seu aniversário no trono, o mesmo Mohammed VI que batizou com o nome de Donald Trump uma autoestrada que conduz ao Sara Ocidental.
Um colaborador da administração Trump, questionado se Washington apoiaria a anexação marroquina de Ceuta e Melilla, respondeu que ambas as cidades estão em território marroquino e que os Estados Unidos mantêm uma excelente relação com Rabat. Sobre Espanha, nem uma palavra. Em paralelo, vozes israelitas repetem o argumento de que Ceuta e Melilla deveriam pertencer a Marrocos. O desenho é nítido, quando Mohammed VI abre a fronteira e em Espanha há quem, gratuitamente, complete a segunda metade da operação, transformando a pressão geopolítica externa em combustível de guerra ideológica interna. Não é preciso que ninguém pague a esses políticos para que o façam, basta a oportunidade.
Convém não branquear ninguém neste processo. Os sucessivos governos espanhóis, do PP e do PSOE, nunca tiveram a coragem de enfrentar Marrocos com firmeza. Em março de 2022, o próprio Sánchez escreveu a Mohammed VI classificando o plano de autonomia marroquino para o Sara Ocidental, que na prática entrega a soberania do território como “a base mais séria, realista e credível” para resolver o conflito, invertendo quarenta e cinco anos de posição espanhola. Isso merece ser dito e criticado sem contemplações.
Mas a lição de fundo não é sobre um governo em particular. É sobre a fragilidade estrutural de qualquer Estado que depende, na sua fronteira, na sua energia ou na sua narrativa pública, de um vizinho disposto a usar essa dependência como arma. A isto chama-se guerra híbrida, que não se combate com exércitos, combate-se com fluxos migratórios geridos ao milímetro e com um relato interno que, em vez de resistir, colabora.
Portugal não está imune a este tipo de mecânica, nem no plano migratório, nem no energético, nem no da soberania digital. Sempre que um Estado cede espaço de decisão a um ator externo, cria uma alavanca que, mais cedo ou mais tarde, alguém acionará. E sempre que a resposta interna a essa alavanca é dividir os cidadãos em vez de reforçar a resiliência coletiva, o Estado perde duas vezes: perde a fronteira que devia controlar e perde a coesão que devia proteger. Ceuta é hoje o exemplo espanhol, mas o mecanismo é universal e é esse mecanismo, não o episódio, que merece ser vigiado.
