Agentes do Volta na Feira da Luz
CONTADORES DE HISTÓRIAS – Carlos Valentim Ribeiro
A tradicional festa de Carnide que tem por principal palco o Jardim da Luz, frente ao Colégio Militar, mantém a estrutura tradicional e a oferta comercial caraterísticas deste tipo de eventos que acolhe moradores e visitantes. Nos últimos dez anos, feira e procissão têm-se cruzado com a Mostra Gargalhadas na Lua cujo epicentro tem sido o largo do Coreto.
A Rainha do Aço inoxidável continua a vender brincos e bijoux com preços para todas as bolsas, os enchidos de Mirandela continuam a despachar alheiras e presuntos sem terem mãos a medir e o Rui dos Cachorros coloca em tabuleiros apressados bifanas, kebabs, hambúrgueres e outras delícias locais que podem ser pagas por multibanco, se o valor ultrapassar os tais 5€ da chamada despesa mínima.
No meio de tantas emoções a Boutique da Cultura coloca à disposição de quem passa a caminho dos concertos, cujo cartaz reúne nomes famosos por terem passado na TV, livros que espelham gostos e sentidos de leitura muito diversos, mas sendo publicações oferecidas ao projeto de cultural local, a cavalo dado não se olha o dente.
No meio da azáfama, sem dar nas vistas, com uma ação rápida e com gestos bem treinados, os coletores de embalagens vazias atacam forte e feio todo o tipo de contentores do lixo e recipientes de plástico nos quais são depositadas as sobras do consumo de comida e bebidas. Os mais audazes aproximam-se das mesas e perguntam de forma descomprometida Já acabou a bebida? São novos protagonistas da paisagem social com destaque para eventos e grande acontecimentos desportivos, culturais e festivos.
A sua presença no espaço público, nesta neblina de invisibilidade, confirma de forma implacável que o Portugal de Abril e o Estado Social, que sempre pretendeu não deixar ninguém para trás, estão à deriva.
No meio da festa atuam discretamente os Agentes do Volta que se juntam ao lote dos novos serviços invisíveis, os da Glovo, da Uber Eats e de tantos outros que nos recordam que a precariedade, que se tornou num modo de vida, continua a ampliar os seus tentáculos para todas as esferas da sociedade.



