23 de Outubro, 2026

Fazer tanto, com as suas mãos!

Associação ALÉM, tudo começou… na Escola

[Histórias e entidades da Educação Permanente]

CVR-NSF – texto de Carla Silva [Além]

A ALÉM nasceu em 2011, fruto da vontade e determinação de um grupo de pessoas, maioritariamente professoras, que tiveram sempre como farol, ao longo da sua actividade, a defesa dos DH. Pessoas para quem a escola, enquanto espelho da sociedade, deve ter como objectivo primeiro a INCLUSÃO, que consideram um dos direitos maiores. 

Em grande parte, estas pessoas integravam o núcleo de Educação da Liga Portuguesa dos Direitos Humanos – Civitas. Nessa qualidade, animavam actividades com jovens e crianças oriundas de meios carenciados, regra geral, em bairros ditos problemáticos. Impunha-se, pois, neste contexto, que a sua acção se centrasse na luta pelo no direito à literacia. Dali à sua autonomização e ao trabalho directo com escolas parceiras foi um passo.

Assim, a fundação da A.L.É.M- Associação Literatura, Literacia e Mediação teve como finalidade central o sucesso escolar das crianças em risco de exclusão social, porque oriundas de culturas muito distantes da cultura letrada veiculada pela Escola. A sua acção principal é dirigida à promoção da literacia, enquanto garante de cidadania e meio de acesso a outros Direitos Humanos. Em consequência das muitas dificuldades com que se deparam, facilmente estas crianças e jovens são empurrados para o abandono precoce, também porque as famílias desvalorizam completamente o papel da escola.

De acordo com escolas do 1º ciclo com as quais estabeleceram parcerias, as voluntárias e voluntários da ALEM apoiam, fora da sala de aula, alunos com dificuldades na aprendizagem da leitura. 

É desse contacto que nasce, também, o trabalho da Associação com as mães e avós destas crianças e jovens, quase todas elas de etnia roma. Era-lhes pedido que levassem as histórias que ouviam ler e sobre as quais se conversava, à volta da mesa do pequeno-almoço, e as dessem depois a conhecer aos filhos e aos netos. Foi a partir deste convívio, cuja intenção inicial era a ligação escola-família, que se passou à alfabetização de quatro senhoras que mostraram interesse nisso. 

Entretanto, o projecto Contos e Pontos nasceu do desejo expresso das senhoras, que falando nas suas habilidades e competências em trabalhos de agulha, sugeriram esta actividade. Em paralelo com este projecto, seguiu-se um outro, SOL a SUL, de confecção de sacos bordados com motivos (cores) evocativos do bordado de Viana do Castelo, cheios com flor de sal ou ervas aromáticas. Em forma de etiqueta, os sacos levam junto o poema Mar Português, de Fernando Pessoa, com tradução em espanhol e francês. 

Em 2014, para se tentar responder a algumas das inquietações deste público, a Associação facultou um curso de Arteterapia, ministrado por uma voluntária italiana, do Serviço Europeu de Voluntários. 

Em 2018, a Associação , em colaboração com o IEFP, promoveu um curso de Formação em bordados que as senhoras frequentaram. Inscritas, inicialmente, cerca de 25, receberam o respectivo diploma, 13 senhoras. 

Uma das actividades mais queridas e apreciadas por este grupo são as Visitas de Estudo. Aquando do início da parceria com a APCEP, no projecto Literacia para a Democracia, em 2019, intensificou-se o programa de Visitas, quer das senhoras, quer de  muitas das suas crianças e outros familiares. A visita inicial foi à Casa Museu Anastácio Gonçalves, onde, face ao interesse manifestado e às questões que foram pondo, as senhoras foram convidadas a visitar o espólio de desenhos e pinturas da casa, com autorização de “cópia” de diferentes motivos para serem bordados nos seus trabalhos. Esta visita incluiu uma mostra dos trabalhos já produzidos, que foi muito apreciada e deu lugar a várias encomendas. 

Ao longo do tempo, visitaram e desenvolveram actividades diversas, na Casa dos Direitos Humanos, numa exposição de Joana Vasconcelos, no Palácio da Ajuda, no Museu de Arte Antiga, essencialmente a colecção de téxteis; na exposição Sarah Affonso e a Arte Popular do Minho, na Fundação Gulbenkian, em 2019; em 2024, visitaram a exposição permanente no MAC – Museu de Arte Contemporânea e, no MAAT, Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia, a exposição Nosso Barco Tambor Terra, do brasileiro Ernesto Neto, um conjunto de esculturas e instalações imersivas, com diferentes materiais, sobretudo têxteis. No Palácio Anjos, em Algés, viram a exposição João Abel Manta livre, em 2024, uma retrospectiva do trabalho do artista. Sempre que participam em eventos deste tipo, o interesse genuíno que estas senhoras manifestam é assinalado pelos guias e responsáveis das exposições.

E como, a partir da Escola, estas senhoras começaram a perceber que podem fazer tanto, com as suas mãos! E por isso, como elas viram subir a sua auto-estima!

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